Que tal um livro antirracista para esta quarentena?

10/06/2020 18:20

Moara Zambonim,
Bolsista PET-Letras
Letras – Português

Enquanto ondas de protestos antirracistas se espalham ao redor do mundo em decorrência do assassinato de George Floyd — homem negro norte-americano morto pela polícia no dia 25 de abril de 2020 — muito tem se falado da necessidade de engajamento de pessoas não-negras nos debates raciais.

Uma vasta lista de autoras, vinculadas principalmente ao feminismo negro, tem se popularizado nos últimos anos no Brasil. O movimento é embalado por obras de linguagem acessível e dinâmica, com visões acadêmicas e literárias usadas para discutir fenômenos complexos como o racismo e o sexismo.

Dentre essas autoras, destaco o trabalho da intelectual afro-americana bell hooks. A autora escolhe esse pseudônimo em homenagem à sua bisavó, Blair Bell Hooks e ainda afirma escrevê-lo em letras minúsculas numa tentativa de dar mais foco às suas ideias do que à pessoa por trás delas. Em especial, o seu livro “O Feminismo é Para Todo Mundo”,  publicado em 2000.

Fonte: Arquivo Pessoal*

Ao falar sobre a necessidade de lutarmos pelo fim da violência, por exemplo, a escritora pontua que mulheres e homens “nesta sociedade, aceitam e perpetuam a ideia de que é aceitável que uma parte ou grupo dominante mantenha seu poder sobre o dominado por meio de força coercitiva” (HOOKS, 2019. p. 98).

Para todos aqueles que se interessam pelos movimentos das últimas semanas — não os entendem bem, estão intrigados ou têm curiosidade —, a leitura de bell hooks pode ser um bom começo!

* Fotodescrição: Sobre um tapete branco, estão dispostos uma xícara branquinha com café, ao lado de um pé de moleque e o livro da bell hooks “O feminismo é para todo mundo”. Abaixo do título, lê-se “políticas arrebatadoras.” A capa é laranja escura e traz uma foto da autora, com seu rosto cortado pela metade, na vertical. Da xícara, saem rabiscos beges, imitando a fumaça do café.

Quem tem medo do racismo?

09/06/2020 18:26

Nicole da Cruz Rabello,
Bolsista PET-Letras
Letras – Inglês

Neste texto, vou lhes apresentar a obra “Pequeno Manual Antirracista” de Djamila Ribeira, mas primeiro quero lhe instigar a pensar sobre o porquê esse título — “Quem tem medo do Racismo?” — chama a atenção! A palavra Racismo é muitas vezes tratada como tabu dentro da comunidade branca, pois muitos não querem se ver como racistas. Contudo, não percebem que suas falas e atitudes contém racismo. Por isso indago, quem são essas pessoas que tem medo? Não são só os negros vítimas dessa violência, mas também os agressores brancos que não querem ter esse título associado a eles.

Fonte: Pinterest – imagem de um garoto negro como alvo *

Entretanto, por que falar de racismo em meio a uma pandemia? Ora, com a crescente veiculação midiática de casos de racismo, principalmente nas redes sociais, vemos que o  racismo no Brasil e no mundo está sendo, cada vez mais, exposto. A população se armou, não com armas, mas com câmeras para registrar as agressões e as discriminações físicas e verbais que antes passavam desapercebidas. E os agressores, por não terem sua identidade revelada, acabam por não serem responsabilizados nem sofrerem as devidas ações judiciais/jurídicas cabíveis em casos de racismo. Todavia, por que filmar e expor esses “cidadãos”? Não é apenas uma forma de expor a sua imagem ou degradá-la? Não, isso é feito para que esses atos racistas não se repitam nem passem impunes pelo sistema judiciário, e para que esses agressores não perpetuem esses atos repulsivos, abusivos e desnecessários.

Racismo e injúria racial são crimes no Brasil, mas qual a diferença entre os dois? De modo geral, injúria seria ofender a honra do indivíduo por sua raça, cor, religião ou origem; e  racismo seria uma ação discriminatória direcionada a um grupo ou coletivo específico, sendo este mais grave e inafiançável. No entanto, se fizermos uma breve pesquisa na internet perceberemos que, ainda que a população negra corresponda a 56% da população do Brasil, os casos de racismo e injúria que, de fato, vão a julgamento são poucos. E esses poucos, segundo o Laboratório de Análises Econômicas, Socias e Estatísticas (Laeser), evidenciam que 70% das ações por crime de racismo ou injúria racial no país tendem a pender em favor do réu, totalizando 66,9% dos casos vencidos pelo réu e 29,7% de casos vencidos pela vítima .

De acordo com uma pesquisa feita pela Globo News, no Rio de Janeiro, de 1988 a 2017, somente 244 processos de Racismo e Injúria Racial foram concluídos, dando uma média de 8 casos por ano. E destes processos, 40% dos casos foram considerados improcedentes pelo judiciário cível e 24% foram absolvidos na área criminal. No Tribunal de Justiça do Rio, apenas quatro casos de racismo foram julgados em 2017 e oito em 2016.  Em uma reportagem do site Geledés, os números no Tribunal de Justiça da Bahia são ainda mais baixos, de 2011 a 2018 houve apenas um processo julgado por ano.

Bom, depois de mencionar todos esses dados, quero que você reflita novamente! O sistema judiciário brasileiro é racista? Bom, já consigo imaginar sua resposta. Então vamos ao foco da minha reportagem, que tem como objetivo te ajudar a visualizar e combater os casos de racismo. Como? Sendo ANTIRRACISTA.

Vinda de uma comunidade pobre, a jovem Djamila apenas conseguiu entrar na Unifesp aos 27 anos, com uma filha, e pelo sistema de políticas de ações afirmativas, pois cota não é esmola, mas, sim, uma reparação social e histórica para com a comunidade negra. Ela é filósofa, feminista, escritora e acadêmica. Ela se tornou famosa por seu forte engajamento cyber ativista nas redes sociais. Atualmente, Djamila faz palestras pelo mundo falando sobre feminismo, raça e gênero, além de ser colunista no jornal Folha de São Paulo. Seu livro “Pequeno Manual Antirracista” foi publicado em 2019, pela Companhia das Letras.

Fonte: Google Images – foto de Djamila e sua obra **

Este livro, com linguagem simples e didática, é um guia para as pessoas pararem, refletirem e observarem os casos de racismo ao seu redor, mas não só observar, mas, sim, evitar, reagir e dialogar sobre. O Pequeno Manual Antirracista traz em seu conteúdo temas chave do dia a dia para as pessoas identificarem o porquê são racistas. Por exemplo a cultura da hipersexualização e marginalização do negro e da negra na mídia como bêbado, relaxado, gay afeminado e periférico, desdentado ou a mulata bonita de corpo esbelto e sensual.

Há também a expressão “wikipreta” onde Djamila tira o fardo de apenas as pessoas negras terem que saber tudo sobre sua cultura, etnia e história. Instigando e estimulando que o branco vista a camisa antirracista e comece também a dialogar, discutir e estudar sobre questões raciais dentro do seu grupo social e familiar, tirando essa responsabilidade da comunidade negra e dividindo-a com a comunidade branca. Um dos temas abordados é a falta de leitura de obras de autores negros e de autoras negras, dentro e fora da academia, isto é, a falta de representatividade negra desde a literatura infantil até a acadêmica e canônica.

Entretanto, vale destacar que o tema mais importante no livro, na minha opinião de leitora negra, é a abordagem feita sobre o reconhecimento por parte do branco de seus privilégios para que, através disso, ele também possa combater o racismo dentro das escolas e ambientes de trabalho. Isso nos leva a mais perguntas: quantos negros e negras você vê ocupando um cargo de diretoria ou chefia? E quantos negros e negras você observa trabalhando como copeiras/os, faxineiras/os ou garçons/etes? Faço essas indagações, pois já fui confundida, muitas vezes aqueles que estão nessas profissões, mas, por outro lado, em nenhum momento fui confundida com aqueles que ocupam cargo postos socialmente como mais importantes.

Leia, preencha-se, observe-se e mude, mas, não só você, e, sim, o ambiente ao seu redor.

Combata o racismo, seja antirracista.

*Fotodescrição da Imagem 1: A imagem é um quadro pendurado em uma parede de tijolos a vista, a arte no quadro foi feita digitalmente. Imagem de fundo laranja com um menino negro, em pé, aparecendo do joelho para cima. O menino tem uma expressão neutra. Ele veste uma camisa preta com o desenho de um alvo de tiro em branco no centro do seu peito. No meio do desenho do alvo há um ponto vermelho indicando o local central do alvo de tiro.

** Fotodescrição da Imagem 2: Imagem de fundo rosa, ao centro Djamila Ribeiro, uma mulher negra, jovem, com os cabelos trançados curtos e presos para cima. Ela usa um brinco comprido e fino de cristais na orelha direita e está com o rosto levemente virado para a esquerda. Ao lado da imagem está a foto do livro, com a capa amarela e os dizeres em preto “Djamila Ribeiro”, em cima com letras grandes, ao centro “Companhia das Letras”, em letras pequenas, e abaixo “Pequeno Manual Antirracista”, em letras grandes. Ao redor das palavras estão pequenos riscos de distintas tonalidades de tons de pele.

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A poesia italiana de Antonia Pozzi: uma dica de leitura

08/06/2020 18:33

Camila Vicentini Camargo,
Bolsista do PET-Letras
Letras – Italiano

Enquanto estamos em casa tentando enfrentar tudo da melhor maneira que conseguimos, nada melhor do que, quando possível, nos cercarmos de arte, música, filmes e… poesia. Pensando nisso, decidi apresentar um pouquinho do trabalho da poetisa italiana Antonia Pozzi.

Ouvi falar dela, pela primeira vez, no filme Me Chame Pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino. Se trata de uma adaptação do livro homônimo publicado em 2007 pelo egípcio André Aciman. Em dado momento, uma personagem agradece ao amigo pela recomendação de leitura de um livro de poesias.

Lembro de ter anotado o nome para pesquisar mais tarde e devo dizer que foi a melhor coisa que fiz, porque, hoje, considero suas poesias as mais lindas de todos os tempos. São poesias de versos livres, sem compromisso com rimas ou estrutura regular — uma forma muito atraente, a meu ver, de se ler poesia.

Antonia Pozzi nasceu em 1912, em Milão. Suas poesias foram publicadas em quantidade limitada em 1939, pelos seus pais, cerca de um ano após seu suicídio. Em 1943, o livro foi reimpresso, em edição ampliada, devido à positiva receptividade. Apesar das obras ainda não disponíveis no português brasileiro, você pode encontrar aqui alguns textos traduzidos pela portuguesa Inês Dias.

Fonte: Montagem feita por Camila a partir de fotos retiradas da internet*

Tamanha é a força e a beleza das palavras de Antonia. Seu tom melancólico se alia ao frescor de uma natureza sempre presente e seu tom de enfrentamento se alia à vulnerabilidade da vida cotidiana. E por trás de cada texto, há um universo a ser — mais do que decifrado — sentido.

Eu simplesmente amo tudo o que essa mulher fez e espero que você goste também! Acredito que tirar um tempinho para ler coisas que nos fazem bem e para conhecer novas artes é fundamental nesse momento de tantos medos e incertezas.

Boa leitura!

*fotodescrição Sequência de três fotos em preto e branco montadas lado a lado na horizontal. Na foto da esquerda, vemos Antonia Pozzi de pé em uma grama alta, com as mãos nos bolsos da calça. Está sorrindo, com a testa levemente franzida pelo sol que bate em seu rosto. Antonia está vestindo uma calça branca e camisa branca de manga curta. Atrás dela, vemos um arbusto e, à direita da foto, parte desse arbusto faz sombra em sua perna esquerda. Na foto do meio, em primeiro plano, vemos Antonia sorrindo, com as pernas abertas sentada em uma pedra, segurando um pedaço de neve em sua mão direita. Está vestindo um coturno preto, meias listradas, uma calça larga de alfaiataria que vai até um pouco abaixo do joelho, um casaco também de alfaiataria e uma echarpe estampada nas pontas. Em segundo plano, há um espaço coberto pela neve, como uma suave colina. Ao fundo, há pinheiros. Na foto da direita, vemos Antonia em cima de uma bicicleta, num estreito caminho de areia. Atrás dela o caminho faz uma leve curva para a direita. Antonia segura nos guidões da bicicleta, enquanto apoia seu pé esquerdo no chão e esboça um leve sorriso. Antonia veste calça e sapatos pretos, camisa branca de manga curta e gravata preta. À direita da foto, um arbusto com flores parte do chão até a altura do rosto de Antonia. À esquerda da foto e atrás de Antonia, vemos outros arbustos com menos flores, do outro lado do caminho de areia. Ao fundo, vemos algo como um campo, e algumas árvores de tronco fino.

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A vida e a obra de Oscar Wilde: quem ele foi e quem ele representa hoje?

05/06/2020 19:51

Luciana dos Santos,
Bolsista PET-Letras
Letras – Inglês

Oscar Wilde foi um autor irlandês do século XIX muito aclamado pela crítica. Contudo, não só a crítica julgou Wilde. O público também o julgou, o aplaudiu e o observou quando ele estava no pelourinho. Hoje, a sua figura tem outras representações e interpretações. Pode-se dizer que, na visão de alguns, o autor que foi do céu ao inferno, foi salvo como um mártir.

A biografia de Wilde poderia muito bem ser o plot de uma de suas peças de teatro. Filho de uma poetisa e um médico, Wilde teve uma origem privilegiada e o fim de sua vida foi caracterizado pelo anonimato e pela pobreza, sendo a sua própria vida uma das histórias de ascensão e queda mais marcantes na história da Literatura. Os acontecimentos que determinaram a sua queda foram em decorrência do envolvimento de Wilde com Lord Alfred Douglas, ou “Bosie”, relação que fez com que ele perdesse sua reputação e seu prestígio. Quando o pai de Bosie, Marquês de Queenberry, chamou Wilde publicamente de sodomita, Wilde deflagrou um processo contra ele por difamação. Contudo, ao final do primeiro julgamento, Wilde passou, de parte ativa no processo, ao banco dos réus, pelo crime de comissão de “ato libidinoso com homens”, devido a diversas provas de que Wilde se envolvia romanticamente com outros homens. Nisso, Wilde foi condenado à prisão, tendo que cumprir dois anos de trabalhos forçados, de 1895 a 1897.

Wilde e “Bosie” em Oxford, por volta de 1893 (British Library)*

Enquanto cumpria sua pena na prisão de Reading e quando se exilou após ganhar liberdade, Wilde escreveu sobre a experiência do cárcere. Dentre esses escritos, há o poema A Balada do Cárcere de Reading (The Ballad of Reading Gaol), inspirado no enforcamento de um dos prisioneiros, e algumas cartas que foram publicadas em jornais, nas quais ele denuncia casos de maus-tratos contra crianças, além das condições precárias de subsistência, e outras irregularidades na prisão. Ademais, outros detalhes de sua vida na prisão foram divulgados com a publicação póstuma de De Profundis, forma como é conhecida uma longa carta chamada Epistola: in Carcere et Vinculis que Wilde escreveu para Bosie enquanto estava na prisão. Esses escritos reforçam a visão de que Wilde era vítima de um sistema social repressivo e cruel, que ele fez questão de criticar e expor antes, e, principalmente, depois da sua experiência no cárcere.

Trevor Fisher (2008) compreende a evolução da reputação de Wilde em quatro fases: (1) estudante universitário em Oxford; (2) escritor com uma carreira literária de sucesso; (3) época das disputas judiciais e, em seguida, seu encarceramento; e (4) uma trágica figura cultural e literária. Na sua fase literária de escritor de sucesso, destacam-se obras como O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray); diversas peças que o autor escreveu, como A Importância de ser Prudente (The Importance of Being Earnest); contos, como O Crime de Lord Arthur Savile (Lord Arthur Savile’s Crime); e ensaios, como A Alma do Homem sob o Socialismo (The Soul of Man Under Socialism), no qual Wilde também tece críticas sociais.

Fonte: Arquivo pessoal de Luciana dos Santos**

Atualmente, sobre a imagem de Wilde vista pelo público atual, o que se predomina é a impressão de que ele foi um mártir por conta de seu comportamento que, hoje em dia, conhecemos como homossexualidade. Nos tempos de Wilde, pouco se falava sobre isso — nem se nomeava —, e havia muita repressão contra pessoas como ele, inclusive por meio de instituições jurídicas, com base em normas decretadas. Na atualidade, em nosso país, não se tratam mais de infratores da lei, mas continuam sendo indivíduos atacados e perseguidos em nossa sociedade, situação que persiste mais de dois séculos após o encarceramento de Wilde.

Oscar merece por muitos motivos ser lido, conhecido e reconhecido. Ele foi um artista extremamente talentoso e à frente de seu tempo: uma mente brilhante que foi vítima de um sistema, mas que deixou um belo legado. Vamos conhecer melhor Oscar Wilde? Que tal começar a lê-lo?

Referência

FISHER, Trevor. Oscar Wilde and the Dynamics of Reputation. The Wildean, No 33, pp. 57-65, Jul. 2008.

*fotodescrição: Wilde e Douglas aparecem juntos na foto antiga amarelada. Wilde tem cabelos escuros e está à esquerda, sentado em um banco, de pernas cruzadas, e olhando para nós. Ele está com a mão direita levantada e segurando um cigarro entre os dedos indicador e médio. Seu braço esquerdo dá a volta nas costas de Bosie, que está sentado ao seu lado esquerdo. Ele veste um paletó escuro com linhas verticais. À direita, sentado no banco, está Bosie, que tem cabelos claros e cruza as pernas, olhando o horizonte. Suas mãos estão em cima de um chapéu em seu colo. Ele veste uma calça bem clara e um paletó, um chapéu e uma camisa mais escuros.

**fotodescrição: Imagem com quatro livros sobre um fundo bordô texturizado. No topo da imagem, a parte de cima de um livro, com o nome Oscar Wilde em branco no topo com fundo preto, e “De Profundis” logo embaixo em preto em um fundo amarelo. Abaixo, o subtítulo “e outros escritos do cárcere”. À esquerda, um livro com um desenho de Oscar com a mão no queixo olhando para nós num fundo bege claro. Embaixo, está escrito “Contos Completos” em branco num fundo preto. À direita, um livro com uma capa com desenhos que remetem às penas de um pavão, com linhas cinza claro, fundo cinza chumbo e formas circulares vermelhas. Na parte de baixo da capa, há um retângulo vertical branco, onde está escrito em preto: Oscar Wilde, e, embaixo, O Retrato de Dorian Gray. No meio, em cima de todos os livros há um livro com uma foto preto e banco de Wilde no centro da capa, que tem um fundo cinza. Ele está usando um casaco de pele preto e olha para nós. No topo da capa, lê-se National Bestseller, e em baixo Oscar Wilde, em preto. Na parte de baixo da capa, está escrito o nome do autor da biografia Richard Ellman em preto.

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Como Você Anda Cultivando a sua Finitude?

04/06/2020 20:16

Juliana Maggio,
Bolsista do PET-Letras
Letras-Português

Seguimos com a constante impressão de que os dias passam em um piscar de olhos, que as semanas se encurtam entre uma reunião e a ida ao supermercado, que os meses e anos voam. Que será isso? Quantas coisas deixamos para depois, quantas tarefas optamos por pular ou, ainda, por fazer rápido, na intenção de aproveitar logo o descanso. Que descanso? Tempo de fato livre tem sido artefato de luxo em tempos contemporâneos.

Com o avanço da vida moderna e das tecnologias, os dias se reduzem a instantes valiosos, até mesmo monetariamente falando. Se hoje você fosse questionado sobre o que entende de tempo, como poderia conceituar o passado, o presente e o futuro? Estes são tempos do tempo, normalmente só nos permitimos pensar sobre o assunto quando se trata de verbos, mas e quando falamos do tempo? Segundo pensadores, vivemos em um constante instante que se reduz ao presente, isto é, o passado fica para trás cada vez mais que o instante-presente avança, já o futuro é tão longínquo e incerto, que não o conseguimos alcançar.

Nesta incessante busca por mais tempo, acabamos por vezes nos perdendo em coisas pequenas, que ao longo do tempo, percebemos que eram rasas. Essa noção de agitação, acaba causando uma sensação de ansiedade e, consequentemente, medo. Medo de perder tempo — medo até da solidão —; o que pode soar estranho em se tratando de uma era em que estamos conectados em tempo integral, uns aos outros, nas mídias digitais.

Foto da petiana Juliana assistindo Quanto Tempo o Tempo Tem, sentada no sofá marrom de costas para a câmera. Ela segura com as duas mãos o celular aberto no documentário da Netflix. Na tela, pode-se ver uma cena que mostra uma cidade em movimento e, no centro mais direita, lê-se os nomes dos produtores do documentário. Juliana está vestindo blusa de ombro a ombro rosa claro e uma calça preta, no colo tem uma almofada florida de fundo bege. A esquerda na foto, aparece seu cabelo castanho longo e liso e sua pele clara.

Mas afinal, quanto tempo o tempo tem? Esse é questionamento do documentário de mesmo nome, de Adriana L. Dutra e Walter Carvalho. Eles procuraram ao redor do mundo pessoas que pudessem responder a essa questão e, então, criaram esse documentário que aborda desde os pensamentos filosóficos às estatísticas sobre o funcionamento do tempo. O que tivemos foi um belo e rico material que não só se preocupou em falar sobre o tempo e seus anseios, mas também sobre conceitos como o de Transhumanismo, que significa melhorar o que a natureza fez. Isso porque somos parte da natureza, então a devemos melhorar e alterar através da tecnologia.

Imaginar um cenário em que vários computadores estarão infiltrados em nossos organismos já não é tão absurdo, visto que a medicina já se utiliza de algumas dessas tecnologias para melhorar a expectativa de vida das pessoas. E falando em expectativa de vida, esse é outro tema abordado no documentário, lá conseguimos perceber que a quarta idade já chegou para muitas nações (não devemos generalizar, pois os índices de desigualdade social só aumentam no mundo). Para muitos, os 80 anos são os novos 60.

Então, deixo aqui como sugestão para esses dias tão incertos, o documentário Quanto Tempo o Tempo Tem. E mais, o que você anda fazendo com o seu tempo? Como o administra? Como o concilia com o laser?; visto que a calmaria trás clareza, centralidade e reenergização. O que nos torna humanos é a finitude. Então a devemos aproveitá-la ao máximo, de preferência com qualidade.

“O tempo é precioso […]
viver com intensidade, isso que é a coisa mais preciosa que existe.
[…] dar valor a cada instante da existência, isso é que  vale”.
Monja Coen Sensei.

Fonte: Foto de Arquivo pessoal*

* fotodescrição: Foto da petiana Juliana assistindo Quanto Tempo o Tempo Tem, sentada no sofá marrom de costas para a câmera. Ela segura com as duas mãos o celular aberto no documentário da Netflix. Na tela, pode-se ver uma cena que mostra uma cidade em movimento e, no centro mais direita, lê-se os nomes dos produtores do documentário. Juliana está vestindo blusa de ombro a ombro rosa claro e uma calça preta, no colo tem uma almofada florida de fundo bege. A esquerda na foto, aparece seu cabelo castanho longo e liso e sua pele clara.

 

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Sobre salvar vidas e alimentar almas

03/06/2020 19:46

Vítor Pluceno Behnck,
Bolsista do PET-Letras
Letras – Inglês

Enquanto milhares de pessoas sofrem e perdem a vida por conta do novo Coronavírus (COVID-19), aqueles podem e conseguem, dentro das suas limitações, permanecer em casa, encontram-se num estado de isolamento não só físico, mas existencial: dentro de nossas casas, parece que nada mais faz sentido. Como ser produtivo enquanto a consciência pesa porque milhares têm de se expor e arriscar suas vidas na rua, já que são obrigados a alimentar o sistema que esperam que os alimentem de volta? Qual o sentido de manter essa lógica produtivista num momento em que o mundo para, e que a melhor maneira de salvar vidas é permanecendo reclusos em nossas casas?

Dentre tantas questões, aqueles que conseguem permanecer protegidos buscam refúgio naquilo que nos faz nos entendermos como humanidade: a arte. Nesse momento, são os filmes, as novelas, os livros, as séries e as músicas, por exemplo, que dão a tônica de nossos dias, permitindo-nos realizar uma “fuga” da realidade ou, até mesmo, repensar a nossa própria existência e, assim, ressignificar esses momentos que potencialmente são social e individualmente traumáticos. É um tanto irônico que, numa época onde a Ciência é percebida como indispensável para a prosperidade humana por sua fiel descrição dos fatos e da natureza — e que de fato é —, as mais abstratas e singulares maneiras de descrição da realidade e dos sentimentos, que são as manifestações artísticas, preenchem uma lacuna substancial na vida de milhões de pessoas enquanto cientistas buscam respostas sobre como resolver os problemas que estamos enfrentando.

(Reprodução: Instagram – @susanocorreia / Susano Correia.
Obra “homem morando onde não lhe cabe mais”. Óleo sobre tela, 88 cm x 115 cm. 2019.)*

(Reprodução: Instagram – @susanocorreia /  Susano Correia.
Obra “homem sufocado com sua própria delicadeza”. 2019.)**

Ao conceber o título desse texto, “Sobre salvar vidas e alimentar almas”, pensei em propor a reflexão: qual o papel que nós, profissionais da área de Linguística, Letras e Artes, desempenhamos durante uma pandemia global que duramente acomete milhares de pessoas diariamente e, ainda por cima, causa dor e sofrimento inclusive àqueles que não podem se despedir de seus entes queridos como habitualmente se fazia? Enquanto enfermeiros, médicos e demais profissionais da saúde lutam para salvar vidas, qual o nosso papel e de que modo podemos alimentar as almas que sobrevivem ao COVID-19, mas que talvez tenham dificuldades em sobreviver ao estranhamento da vida pós-pandêmica?

Uma coisa é certa: a arte, em todas suas facetas e modos de ser, desempenhará um papel ainda mais fundamental nos próximos anos ao tentar digerir o trágico embrolho histórico que estamos experienciando. No meio da “descoisificação”, da desconstrução e do repensar sobre tudo que entendíamos como cultura, sociedade e política, o esforço se voltará à tentativa de encontrar o que restará de humano na humanidade. E mais uma vez, a máxima de Ferreira Gullar ecoará novamente, e perceberemos que a arte existe porque a vida não basta.


(Reprodução: Instagram – @gabuffon / Gabriela Buffon. Obra “Mentecaptos”.
Colagem, 15 cm x 15 cm. 2020.)***

(Reprodução: Instagram – @gabuffon / Gabriela Buffon. Obra “O diálogo do olhar”.
Lápis de cor, carvão vegetal, lápis dermatográfico e colagem, 29,7 cm x 42 cm. 2020.)****

Por fim, gostaria de deixar a indicação de artistas e divulgadores de arte na internet. Começando pelos artistas citados na matéria: ambos catarinenses, Susano Correia (Instagram @susanocorreia) é artista natural de Florianópolis formado em Artes Visuais na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC); e Gabriela Buffon (Instagram @gabuffon) é acadêmica da primeira fase de Artes Visuais na UDESC.

Além deles, recomendo o canal ViviEuVi  no YouTube, que possui um imenso e rico repertório de curiosidades e análises artísticas; e o aplicativo Google Arts & Culture (disponível para iOS e Android), que permite visitar museus e conhecer artistas pelo seu smartphone, dentre outros recursos. Vários museus estão realizando curadorias no Instagram, como @masp, @museelouvre, @vangoghmuseum, e o projeto de extensão do Instituto Federal Catarinense – Campus Concórdia, @museus.virtuais.ifc.

Fique em casa, e não esqueça de alimentar sua alma!

Fotodescrição: *Pintura de tinta a óleo de fundo azul escuro. Em destaque, um homem de pele branca com um aspecto sujo está nu. Ele está com os braços e a cabeça dentro de uma casinha, sendo que está com o rosto na porta com uma cara de desconforto, e os braços estão passando pela parede lateral da casa. A casinha paredes brancas, uma porta, uma janela quadrada ao lado dessa porta, e uma janela redonda mais acima, perto do telhado.

**Pintura de tinta a óleo com fundo azul claro. Em destaque é possível ver um homem, do peito para cima, de pele esbranquiçada. Ele está olhando para cima e possui o topo de sua cabeça pontuda. Sua boca e olhos estão abertas com flores que se assemelham a margaridas saindo dessas cavidades.

***Colagem de fundo branco. Na figura de fundo, há três colunas com 5 linhas cada, de pares de diferentes pessoas conversando com várias expressões faciais. No canto inferior esquerdo, há uma assinatura escrito “Norman Rockwell”. Acima dessa figura, centralizado, há várias letras de revistas coladas formando as palavras “Economiopia / Desenvolvimentir / Utopiada / Consumidoidos / Patriotários / Suicidadãos”.

****Obra abstrata de fundo branco em folha A4 com técnica de lápis de cor, carvão vegetal, lápis dermatográfico e colagem. Centralizado, há um desenho em preto que se assemelham a letra C, e nas extremidades círculos vermelhos. Algumas linhas pretas e vermelhas estão dispostas pela figura. É possível perceber formas abstratas em azul e verde dentro da letra C em destaque, e alguns rabiscos em amarelo no canto inferior esquerdo. Também é notável algumas formas redondas pela obra, que se assemelham a olhos. Na parte inferior da figura há um recorte em papel colado em que pode-se ler “O diálogo”. De cima para baixo, do lado direito, há as seguintes palavras coladas:”matriz / básico / capítulo / processo”. No canto inferior direito, a assinatura da artista: “Gabriela Buffon, 2020” em marrom.

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O fenômeno atual do “fascismo” e seus elementos em algumas palavras soltas

02/06/2020 15:39

Carlos Rodrigues,
Tutor do PET-Letras

Fascistas não passarão!
Sim, a história foi e será implacável!

Um dos importantes historiadores do fascismo, Stanley Payne, após dedicar boa parte de sua vida a identificar, descrever e conceituar o fascismo, considera que tal definição e compreensão não é algo simples nem fácil. Para ele, tal conceito político pode até ser usado, de certo modo, como um “termo vago”. Sabe aquele paradoxo socrático: “só sei que nada sei” (ipse se nihil scire id unum sciat)? Então, arrisco-me dizer que ele se aplica bem aqui: quanto mais estudo o(s) fascismo(s) menos o(s) compreendo em si mesmo(s), em sua lógica absurda.

Embora tenha sido combatido e derrotado, os elementos do fascismo italiano, vez por outra, teimam em ressurgir em algumas sociedades, como é o caso do Brasil de hoje, em que o fascismo vem recebendo seguidores, bem como atualizações e novas roupagens. Para continuarmos essa conversa, precisamos entender que uma primeira aproximação à compreensão do que é fascismo deve, a meu ver, enxergá-lo como um regime político situado em um dado tempo e espaço históricos. O facismo “primordial” é um fato experimentado no contexto italiano de Mussolini, de certa maneira instaurado em 1922 e concluído em 1943.

Todavia, o fascismo não é meramente um fato histórico, mas, sim, um processo historicamente constituído e manifesto, o qual pode ser identificado em distintos tempos e espaços para além da conhecida e famosa Itália Fascista. Ao assumir isso, torna-se possível não somente compreender historicamente esse regime político, mas perceber como seus elementos fundantes e característicos não tiveram início, meio e fim apenas no âmbito da Itália de Mussolini, tendo existências diversas, perpetrando e reerguendo-se em outros momentos, ainda que com novas máscaras e vestimentas.

Podemos imaginar que é como se a história se encarregasse de uma constante mudança marcada de idas e vindas, de um eterno retorno do velho transvestido de novo. É um pouco da ideia de Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794) aplicada à compreensão do devir da história. Explico. É como se o princípio da conservação de massa de Lavoisier — representado na célebre frase: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” — pudesse ser parafraseado e transposto à percepção do tempo histórico: “Na história humana, nenhuma fatídica realidade se perde, todas elas se transmutam e retornam”.

Enfim, diante dessa denominada “ameaça fascista” tão presente e intensa em nossos dias, é necessário fazer algumas perguntas no intuito de encontrar possíveis e plausíveis respostas: o que é fascismo? O que ele representa? Como ele se manifesta? Quais  elementos permitem compreendê-lo e identificá-lo?

Segundo o historiador italiano Emílio Gentile, podemos pensar o fascismo italiano, o mais conhecido e famoso de todos — primeiro experimento totalitário concretizado na Europa Ocidental —, a partir de três dimensões:

  • organizativa (como um movimento de massas organizadas e representadas por um partido-milícia, com a missão de regeneração nacional por meio da aniquilação de todo e qualquer adversário, bem como dos direitos do homem e do cidadão em prol da “nova civilização”);
  • cultural (como ideologia de característica anti-ideológica; cultura fundada em certo pensamento mítico e baseada na militarização da política, na sacralização do estado e na primazia absoluta da nação como uma comunidade etnicamente homogênea que deve ser formada por meio da aculturação e subordinação total dos indivíduos e das massas ao Estado e em prol do “homem novo”); e
  • institucional (como regime totalitário que se funda em um aparato de polícia para reprimir, controlar e/ou suprimir o individual e o coletivo; centralização do Executivo, que subordina a si o Judiciário e que defende a existência de um partido único, o qual existe em simbiose plena com o Estado que se encarrega da supressão das liberdades individuais).

Vale destacar que tais dimensões estão coordenadamente integradas e evidenciam a “sacralização da política” promovida pelo(s) facismo(s) e realizada, ao menos, por elementos totalitaristas, nacionalistas, antiliberais, antimarxistas, antipartidários, imperialistas e, até mesmo, racistas que deram forma e, portanto, caracterizaram o fascismo italiano, assim como outros fascismos.

Por outro lado, é importante entender que quando atacamos as pessoas que personificam determinadas “ideologias” e deixamos de combater sistemas já institucionalizados que geram e perpetuam vertentes fascista(s), autoritária(s), conservadora(s) e afins, estamos errando o alvo.

Ah, não posso deixar de dizer também que há, sim, uma diferença radical e antinômica entre o que foi o fascismo e o que seria a proposta do comunismo. Por isso, fascistas (assim como faziam “nazistas e franquistas”) queriam combater e eliminar — a todo custo e de maneira agressiva, violenta, militante e militarizada — qualquer traço que remetesse ao comunismo: o anticomunismo era uma de suas bandeiras, que fique bem claro, apenas uma delas.

O “fascismo” identificado e, até mesmo, reivindicado por grupos e representantes da política brasileira se aproxima, ao mesmo tempo que se afasta, dos demais regimes fascistas historicamente delimitados. Um rápido e despretensioso olhar permite-nos enxergar, nesse propagado “novo fascismo”, tanto uma série de elementos caros ao fascismo histórico quanto elementos que não são partilhados com certos regimes fascistas anteriores, um desses elementos não compartilhados é esse nacionalismo populista que defende à chegada ao poder por meio das eleições, a qual os governantes de inspirações e aspirações “(neo)fascistas” usam para bradar aos quatro ventos que são representantes legítimos do povo.

Por último, quero dizer que o que é denominado “fascismo” em nossos dias nem sempre é fascismo de fato e verdade, mas, nem por isso, é menos nocivo. Assim sendo, a campanha “antifascista” atual, que povoa as redes sociais, é um elemento indispensável à denúncia de irregularidades, de ameaças e de riscos, assim como à conscientização da sociedade tão desamparada e, até mesmo, confusa. Portanto, a campanha é um fôlego e uma esperança de combate aos reacionários — que são hostis à democracia, ameaçando-a —, em meio ao caos que está instaurado no Brasil e que vem sendo, dia a dia, regado a fake news, a mortes pela pandemia da COVID-19, a desemprego, a desigualdade de oportunidades, a crise econômica, a shows de horrores, estrelados pela trupe de governantes, a ausência de um governo do/para/pelo povo e assim por diante.

Tags: comunicaPET

Conheça a proposta do PET-Letras e seus projetos estruturantes

01/06/2020 20:26

Desde novembro de 2018, com a entrada do prof. Dr. Carlos Rodrigues como tutor do PET-Letras, iniciamos a reorganização de nossas ações a partir de cinco grandes projetos, a saber: o PET-IDIOMAS: cursos de línguas e cursos de formação; o PET-MÍDIAS: informação e comunicação; o PET-GRUPOS: interação e estudo; o PET-EVENTOS: planejamento e organização; e o PET-GESTÃO: tutoria e cooperação, o qual inclui o PET-Acessibilidade.

Estrutura Organizacional do PET-Letras*

Durante o ano de 2019, colocamos cada um dos projetos estruturantes em prática. E, no início de 2020, ao realizarmos uma avaliação do ano anterior, vimos que alcançamos os objetivos previamente estabelecidos e que esse novo modelo de gestão funcionou muito bem, já que todas as ações e atividades, propostas e realizadas por nós, puderam ser bem organizadas a partir de cada um deles. Portanto, esses projetos funcionam atualmente de modo estruturante e são como um guarda-chuva, possibilitando uma melhor organização e gestão do trabalho em equipe.

Como o PET-Letras organiza-se em torno de grupos de trabalho vinculados a cada um dos projetos, é possível seguir uma perspectiva de aprendizagem tutorial ativa, dinâmica, coletiva e interdisciplinar, a partir da gestão consciente e integrada do ensino, da pesquisa, da extensão e, também, da gestão. De modo geral, o PET-Gestão é o projeto por meio do qual os demais projetos dialogam e se integram. Com essa estruturação, assim como ocorreu em 2019, poderemos potencializar o alcance do PET-Letras e seus impactos acadêmicos e sociais, de forma sistematizada e exitosa, produzindo uma transformação significativa na formação dos/as petianos/as e positiva para os cursos de graduação em Letras, oferecidos pelo Departamento de Língua e Literatura Estrangeiras (DLLE), pelo Departamento de Língua e Literatura Vernáculas (DLLV) e pelo Departamento de Libras (DLSB).

Nesse sentido, com o desenvolvimento das ações e atividades propostas para 2020 em cada um dos projetos estruturantes, esperamos efetivar de forma satisfatória os propósitos específicos do programa de educação tutorial — conforme previsto na Portaria 976/2010, atualizada pela Portaria 343/2013 — (i) contribuindo com a qualidade da formação acadêmica ofertada pelos cursos de Letras; (ii) favorecendo a introdução de novas práticas acadêmicas na graduação em Letras; (iii) estimulando uma formação consciente, crítica e altamente qualificada de profissionais de Letras; (iv) realizando práticas e ações afirmativas em prol da equidade e da inclusão social; e (v) difundindo a educação tutorial como uma prática de formação; entre outros.

Conheça a equipe atual do PET-Letras, clique aqui!

Acesse nosso relatório de atividades do ano de 2019, clique aqui!

Acesse nosso relatório de atividades dos primeiros meses de 2020, clique aqui!

* descrição: Imagem com organograma da estrutura do PET-Letras. Na parte central superior está um retângulo, onde está escrito: PET-Letras. À esquerda há outro retângulo, ligado a esse, onde está escrito: MEC-UFSC, PROGRAD. À direita, há outro retângulo, ligado a esse, onde está escrito: CLAA. Abaixo temos, um retângulo à esquerda, onde está escrito: GESTÃO, e, em seguida, também à esquerda, outro retângulo onde está escrito, linha a linha: -Cooperação; – Espaço Físico; – Planejamento; -Financeiro; -Inscrições; -Certificação; -Avaliação. Na mesma linha, mas à direita, outro retângulo, em que está escrito ACESSIBILIDADE, e, em seguida, também a direita, outro retângulo onde está escrito, linha a linha: -Conscientização; -Legendagem; -Audiodescrição; -Tradução; -Interpretação; -Mobilização. Na linha de baixo, há em sequência quatro retângulos menores, cada um ligado a um retângulo maior posto abaixo deles. Nos retângulos menores está escrito, da esquerda para a direita: GRUPOS; MÍDIAS; EVENTOS; IDIOMAS. No retângulo ligado a GRUPOS está escrito, linha a linha: -G. de Estudos; -G. de Leitura; -G. de Interação; -Gestão de Grupos; -Apoio à Grupos; -Reuniões; -C. de Capacitação; no ligado a MÍDIAS está escrito, linha a linha: -Página Web; -YouTube; -Facebook; -Instagram; -E-mail; -Informativos; -Quadros/Painéis; -Material Gráfico; no ligado a EVENTOS está escrito, linha a linha: -InterPET; -SulPET; -EnaPET; -Semana de Letras; -Encontros; -Congressos; -Palestras; no ligado a IDIOMAS está escrito, linha a linha: -C. de Línguas; -C. de Formação; -Gestão de turmas; -Apoio aos alunos; -Material Didático. Os retângulos com o nome do PET e dos projetos estão em cinza escuro com bordas pretas e os com as descrições estão em cinza claro e sem bordas, assim como os que têm escrito CLAA e MEC-UFSC, PROGRAD. No canto inferior esquerdo está a logo do PET-Letras na cor preta.

Tags: conheçaoPETLetras

Tradução, legendagem e promoção da acessibilidade

29/05/2020 17:48

Daniel Guilherme Gonçalves,
Bolsista PET-Letras
Letras – Libras

Iremos abordar uma área do conhecimento bastante relevante: a tradução para legendagem. Existem alguns tipos de tradução, como, por exemplo, a tradução intralingual (reformulação, que é a interpretação dos signos verbais por meio de outros signos da mesma língua), a tradução interlingual (tradução propriamente dita, que é a interpretação dos signos verbais por meio de outra língua) e a tradução intersemiótica (transmutação, que é a interpretação dos signos verbais por meio de sistemas de signos não verbais). A tradução interlingual tem inúmeras manifestações e objetivos. Assim, apresentaremos um pouco sobre a legendagem realizada com base em traduções interlinguais, como por exemplo, a legendagem de filmes, de vídeos gravados em Libras, de documentários, entre outras.

A título de exemplo, podemos citar um vídeo gravado em Libras com sua legenda produzida em Inglês. Este vídeo irá permitir que os falantes de Inglês tenham acesso ao conteúdo, assim como os falantes de Libras. O acesso dos falantes de Inglês, que não sabem Libras, ocorre a partir da legenda em Inglês. O mesmo acontece com um vídeo em Libras com legenda em Português, ou um vídeo em ASL (American Sign Language) com legenda em Inglês. Todos esses exemplos são de traduções e legendagem interlinguais, pois as línguas usadas nos vídeos e em suas legendas são diferentes.

Ao falarmos de um filme que é produzido em Português com sua legenda nessa mesma língua, ou seja, também em Português, estamos nos referindo a um processo de legendagem intralingual. É importante entendermos então que existem dois tipos de legendas: a legendagem interlingual feita de uma língua para outra, como os exemplos citados anteriormente, e a legenda intralingual onde a língua do vídeo e a língua da legenda são as mesmas. Esse tipo de legendagem na mesma língua é muito usado para os surdos poderem acessar os conteúdos nacionais, assim como para estudantes de uma língua estrangeira poderem desenvolver suas habilidades, já que podem ouvir e, também, ler as legendas na língua que estão estudando.

Esses são dois processos típicos de legendagem, inter e intralingual, são processos distintos, pois, fazer um trabalho interlingual, onde um processo de tradução interlinguística ocorre é diferente de fazer uma tradução intralingual, onde há um processo de reformulação intralinguística, aquela tradução que ocorre na mesma língua. Além disso, o processo de legendagem é um processo que passa por diversas adaptações, de acordo com algumas normas técnicas, pois é preciso que a legenda se adeque aos elementos visuais que estão dispostos no vídeo, seja visível, respeite o tempo, possa ser lida pelo público etc.

Fonte: arquivo pessoal – Daniel em casa assistindo a um vídeo em ASL com legendas em inglês.*

Os filmes, documentários e vídeos diversos trazem, muitas vezes, informações auditivas que não são acessíveis ao público surdo ou com deficiência auditiva. No caso da legenda intralingual para surdos, o processo de legendagem tem uma série de questões culturais em que os tradutores devem fazer as adaptações necessárias para que o texto seja compreendido pelo público alvo por meio da legenda, a qual passa a indicar inclusive elementos sonoros importantes.

As janelas de Libras também são um tipo de legenda interlingual que não usa a escrita. Elas são mais comuns na TV que em filmes, por exemplo. Muitas vezes, vídeos que estão em uma língua de sinais estrangeira, como em ASL ou em Sinais Internacionais, ao circularem no Brasil recebem as janelas de Libras, que são resultado de traduções interlinguais, pois o vídeo está em uma língua de sinais estrangeira e sua “legenda”, a janela de Libras, está em uma língua de sinais nacional. Diante disso, é possível pensar que as janelas de Libras (ou de outra língua de sinais) tornam-se um tipo de legendagem interlingual, pois confere acesso ao que está sendo dito, seja em uma língua oral nacional ou estrangeira ou mesmo em outra língua de sinais desconhecida pelo público surdo.

* fotodescrição: Foto retirada de trás para a frente focando Daniel de perfil e a tela do notebook. Daniel está com uma jaqueta azul escuro com um capuz de interior em azul claro, o capuz esta na altura do pescoço. Ele está com seu notebook em uma mesa de vidro com cadeiras de metal e assentos floridos. Sobre a mesa observa-se um artefato indígena de decoração (uma canoa de madeira pequena, pintada e com alguns objetos dentro). No notebook, há uma cena do “Deafies in Drag” com dois surdos dialogando em ASL (Língua de Sinais Americana) e há a seguinte frase na legenda, em cor branca, “Because I love to draw”. Ao fundo, observa-se uma parede verde com a parte inferior de um quadro em tons verdes e vermelhos.

Tags: comunicaPET

As tecnologias, o ensino a distância e seus desafios

28/05/2020 18:57

Felipe Mateus dos Santos,
Bolsista PET-Letras
Letras – Português

Ao longo dos últimos anos, pôde-se observar um avanço muito marcante no desenvolvimento de novas tecnologias. Computadores mais rápidos e potentes, notebooks, tablets, kindles, smartphones, entre outros aparelhos, se estabeleceram como itens indispensáveis na nossa sociedade e se fizeram presentes em quase todos os momentos de nossa vida, na intenção de torná-la mais prática e rápida.

No âmbito educacional não é diferente. Em muitos ambientes escolares é possível notar como a tecnologia ganha, cada vez mais, espaço com a função de motivar e oferecer mais ferramentas ao processo de ensino-aprendizagem. Esse, por exemplo, é o caso de alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental de sete escolas da rede municipal de Joinville (SC), que, em 2014, receberam 4.000 tablets através do Projeto Escola Digital, como instrumento de complemento do aprendizado. É possível encontrar iniciativas semelhantes nas prefeituras de São Paulo (SP), Petrolina (PE), entre outras.

Esses são apenas alguns exemplos, entre muitos lugares do Brasil e do mundo, que fizeram da tecnologia um importante recurso no processo educacional, na tentativa de fazer com que tanto o aluno quanto o professor tenham um acesso mais rápido à informação desejada e à novas formas de aprender. É certo que o uso dessas tecnologias é muito favorável quando suas ferramentas são devidamente exploradas pelas instituições de ensino e quando fazem com que o aluno desenvolva mais interesse pelo conhecimento, que aparece, muitas vezes, de uma forma mais interativa e instigante através de uma tela.

Os recursos tecnológicos são muito úteis quando cumprem o propósito de servir como facilitadores da aprendizagem, dentro e fora das salas de aula, porém, a realidade de muitos alunos restringe o uso dessas ferramentas para além do ambiente escolar. Não podemos deixar de considerar que a exclusão digital ainda é intensa em várias regiões brasileiras. Faz-se necessário que tenhamos em vista esse panorama, quando analisamos o período de distanciamento social em que vivemos hoje, decorrente do novo coronavírus (Sars-CoV-2), que conduziu à suspensão das atividades escolares presenciais, por tempo indeterminado.

      Fonte: Charge produzida por Salomón (22 de abril de 2020)
em circulação nas redes sociais*

Com isso, projetos de ensino remoto e de educação a distância surgiram como uma alternativa de fazer com que os conteúdos que não estão sendo trabalhados em sala de aula cheguem aos alunos. Vemos, assim, movimentos de implementação de uma educação à distância, os quais enfrentam diversos obstáculos, trazendo à tona um processo que destaca as desigualdades sociais e evidencia as condições de vulnerabilidade existentes no Brasil.

Limitações de acesso a computadores e a conexão de qualidade com a internet; falta de espaço apropriado para o estudo em casa; ausência do contexto escolar com recursos, tais como a merenda; falta de acessibilidade nos conteúdos; evasão escolar; mais exposição à violência (sexual, física ou psicológica); baixa escolaridade dos familiares responsáveis em acompanhar os estudantes; esgotamento físico e emocional dos docentes, que ficam disponíveis até 24h diárias para tentar ajudar; dificuldade de professores entrarem em contato com os pais dos alunos; professores que não foram preparados para ministrar aulas on-line; e dificuldade em adaptar conteúdos, são só alguns exemplos de problemas abordados por Luiza Tenente em uma reportagem do G1, a qual contou com entrevista de pais de alunos e professores da rede municipal de São Paulo, destacando a posição excludente e insuficiente de contar com esse método de educação.

“[…] não é uma situação estruturada”, destaca Mauricio Canuto, professor de didática no Instituto Singularidades (SP) e um dos entrevistados da reportagem.

É certo que vivemos tempos ímpares em que são necessárias soluções inovadoras para os novos problemas, as quais precisam ser avaliadas e estudadas em diversos âmbitos. Entretanto, podemos perceber o quão inacessível a educação pode se tornar para pessoas de determinadas classes sociais, que vivem em localidades rurais e/ou que possuam algum tipo de deficiência, e, ainda que a tecnologia já esteja bastante difundida, não são raros os casos em que a falta dela ou também a utilização dos seus recursos de forma precária se torna mais um fator impeditivo que uma solução abrangente.

*Fotodescrição: imagem de uma charge em que um menino com roupas sujas e rasgadas, cabelo bagunçado e usando uma máscara suja no rosto, está em cima de uma caixa de madeira e apoiado nas pontas dos pés. Com um semblante triste e agoniado, ele segura um caderno e uma caneta, tentando olhar através de uma janela de vidro, fechada de um quarto, outro menino de roupa limpa e cabelo penteado, sentado em uma cadeira e apoiado em uma mesa, escrevendo em um caderno e assistindo a uma aula em um notebook a sua frente, folhas a sua esquerda e um livro azul com folhas ao lado, à direita.

 

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