Programa de Educação Tutorial dos Cursos de Letras da Universidade Federal de Santa Catarina
  • Chamada pra textos | Preguiça 2024.1!

    Publicado em 28/02/2024 às 09:34

     

    A Preguiça saiu de férias e abriu uma chamada.

    Receberemos textos – poesia, conto, quase-artigo, crônica, resenha – até dia 1º de maio.

    As normas são aquelas da ABNT, simplezinhas.

    Então:

    Preguiça, v. 5 n.1, 2024

    Submissões até 1º de maio de 2024

    Publicação até agosto de 2024


  • DE FÉRIAS COM O PET | Além das facadas e do sangue: uma breve análise do subgênero slasher

    Publicado em 28/02/2024 às 09:30

     Por Daniely de la Vega

    Bolsista PET Letras

    Letras Português

     

    O subgênero slasher é uma das vertentes mais icônicas e duradouras do cinema de terror. Caracterizado por seus assassinos implacáveis, vítimas jovens e uma dose saudável de violência gráfica, o slasher se tornou um fenômeno cultural desde seus primórdios nas décadas de 1970 e 1980. No entanto, sua influência vai além do simples susto; o slasher frequentemente serve como um espelho distorcido das ansiedades sociais e uma plataforma para explorar temas complexos, como sexualidade, moralidade e identidade.

     

    Tal subgênero tem suas raízes em filmes como Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, e Peeping Tom (1960), de Michael Powell, que estabeleceram algumas das convenções fundamentais dos slasher movies, como a perspectiva do assassino e a ênfase na violência gráfica. No entanto, foi em 1978, com o lançamento de Halloween, de John Carpenter, que o slasher se estabeleceu como um subgênero distinto. O filme apresentou o icônico assassino mascarado Michael Myers, além de popularizar muitos dos tropos que se tornariam padrão desse subgênero, como o grupo de adolescentes sendo perseguido por um assassino implacável.

     

    Ao longo das décadas seguintes, o slasher experimentou várias evoluções e reinvenções, desde os slashers sobrenaturais como A Hora do Pesadelo (1984) até os slashers meta-referenciais como Pânico (1996). No entanto, independentemente das mudanças estilísticas e narrativas, o cerne desse subgênero permaneceu o mesmo: a interação entre o assassino e suas vítimas, muitas vezes jovens e sexualmente ativas.

     

    Imagem: cena do filme Pânico de 1996. O assassino conhecido como Ghostface segura uma faca ensanguentada.

    Fonte: Divulgação / Paramount Studios.

     

    Luís (2021) destaca ainda que os slasher movies têm sido reflexos das questões políticas e sociais das épocas em que foram produzidos, desde os anos 70 até os dias atuais. Essas produções cinematográficas, ao invés de serem meros geradores de emoções fortes, frequentemente exploram e refletem as ansiedades reais da população, acompanhando as transformações sociais e políticas que moldam os medos contemporâneos.

     

    Por trás das facadas e do sangue jorrando, o subgênero slasher muitas vezes aborda questões mais profundas e perturbadoras. Um tema recorrente é a punição da sexualidade, com as vítimas frequentemente sendo jovens sexualmente ativas, enquanto aqueles que se abstêm do sexo muitas vezes sobrevivem até o final. Essa moralidade conservadora tem suas raízes na sociedade puritana, onde o sexo fora do casamento era considerado tabu e sujeito à punição.

     

    Além disso, o slasher muitas vezes serve como um reflexo das ansiedades sociais da época de seu lançamento. Por exemplo, filmes como Sexta-Feira 13 (1980) capitalizaram o medo do desconhecido e do isolamento das comunidades rurais, enquanto Halloween explorou os perigos da suburbanização e da perda da inocência.

     

    Apesar de suas raízes conservadoras, o subgênero slasher também viu uma série de filmes que subvertem e desafiam suas convenções. Filmes como A Noite dos Mortos-Vivos (1968), de George A. Romero, e O Massacre da Serra Elétrica (1974), de Tobe Hooper, apresentaram protagonistas femininas fortes e independentes, desafiando a ideia de que as mulheres no cinema de terror são apenas vítimas indefesas.

     

    Além disso, o slasher moderno tem sido frequentemente objeto de análise crítica e desconstrução. Filmes como A Hora do Pesadelo e Pânico brincam com as expectativas do público, utilizando meta-referências e humor autoconsciente para comentar sobre o próprio subgênero e sua relação com a cultura popular.

     

    Os slasher movies são muito mais do que apenas sangue e sustos. Por trás de sua superfície violenta, eles oferecem uma lente através da qual podemos examinar e entender nossos medos mais profundos e nossas ansiedades sociais. Ao longo das décadas, o slasher evoluiu e se reinventou, continuando a assombrar e intrigar os espectadores com sua mistura única de horror, suspense e subtexto social. Embora possa ser fácil descartá-lo como mera carnificina, esse subgênero continua a provar seu valor como uma forma de arte profundamente impactante e reflexiva.

     

    REFERÊNCIAS

    LUÍS, Rui Fernando. As muitas máscaras do slasher movie: como os medos da sociedade se refletem na evolução do género. 2021. 85 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Ciências da Comunicação, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2022. Disponível em: https://run.unl.pt/handle/10362/136355. Acesso em: 27 fev. 2024.


  • DE FÉRIAS COM O PET | Você conhece os Sinais internacionais?

    Publicado em 24/02/2024 às 08:32

    Por Andreza Batista

    Letras-Libras

    Bolsista de Acessibilidade do PET-Letras


  • DE FÉRIAS COM O PET | Odoyá e o dia 2 de fevereiro

    Publicado em 05/02/2024 às 07:50

                                            Por Tay Muller

    Bacharelado em Letras-Libras

    Bolsista Acessibilidade PET-Letras

    Quanto nome tem a Rainha do Mar? “Dandalunda, Janaína, Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, Maria, Dona YEMANJÁ”.   Esse trecho compõe a música Yemanjá – Rainha do Mar, do disco Voz Nagô- Afro samba de Pedro Amorim e Paulo Cezar Pinheiro, de 2017. É interpretada de forma magnífica por Maria Bethânia: cantora, compositora, produtora, atriz e poetisa brasileira. Essa música apresenta algumas das variações dos nomes dados a Iemanjá em diversas regiões do Brasil. Iemanjá é a Orixá das águas salgadas, dos mares, mãe de todos os Orixás, mãe das cabeças tendo como tradução do nome “mãe cujos filhos são peixes”.

     Dia 2 de fevereiro é um dia de festa para as religiões de matriz Africana como a Umbanda e o Candomblé: celebra-se o dia de Iemanjá. Essa festa é celebrada na praia, com homenagens e oferendas. Alguns Orixás são mais conhecidos aqui no Brasil, mas existem muitos outros e essa diferença existe pois o culto ao Orixá em África acontece de forma diferente. Alguns Orixás são mais conhecidos no Brasil pois são citados em ritmos musicais populares como no samba e no axé, eternizados nas vozes de cantores muito conhecidos e queridos – estes cantores em sua maioria fazendo parte de terreiros, trazendo para sua música as influências afro-brasileiras.  Alguns Orixás são também mais conhecidos pois na época da escravização do povo africano, para conseguir seguir seus rituais, os escravizados utilizaram imagens de santos famosos como São Jorge e Nossa Senhora dos navegantes, para cultuar, respectivamente, Ogum e Iemanjá.

    Descrição da imagem: imagem de festa do Terreiro do Asas de Aruanda; é uma vista aérea; tem como primeiro plano areia da praia, com várias pessoas posicionadas em forma oval, em várias filas. Ao centro, pessoas de branco abaixadas e voltadas para um ponto do lado direito, o congá (equivalente a um altar). Na parte de abaixo da imagem, temos 4 barracas de praia.

    Fonte@Rafael_paz

     

     

    Mas não apenas pessoas participantes dos terreiros vão a estas festas. Como vemos nas imagens deste texto, as pessoas mais ao centro, abaixadas são os médiuns; ao redor, os visitantes.  Pessoas de diversas religiões frequentam não apenas as festas, mas também os terreiros e barracões atrás das “macumbas” (nome usado de forma pejorativa), “encantamento”, “feitiços”, “curas” ou “trabalhos” (são diversos os nomes, para o que se faz nesses espaços); utilizam os ritos da cultura Afro e os costumes já enraizados na cultura popular brasileira, mas não falam a ninguém por vergonha ou preconceito e por vezes; muitos nem conhecem o significado destes costumes populares de que fazem uso. Por exemplo: pular 7 ondas no mar, na virada do ano novo, é uma prática para que se faça desejos para o ano que começa. Entretanto, de onde vem as 7 ondas? E os 7 desejos? Dentro de algumas crenças Afro, 7 ondas são a distância para adentrar ao reino de Iemanjá – mas o resto da história foi aumentando a cada conto.

    Mais do que religião, os Terreiros e as festas são espaços de cultura, oportunidades de conhecer partes invisibilizadas do povo preto que constituem o imaginário popular dos nossos costumes e nossa língua, ensinamentos orais e perspectivas de mundo diferentes das que estamos habituados. Os Terreiros são espaços de acolhimento de corpos marginalizados e rejeitados pela sociedade espaços de reconstrução de pessoas. E as festas promovidas por esses locais são um momento muito importante para que essa herança de racismo e preconceito religioso se dissolva e possamos encontrar cada vez mais celebrações mais diversas e respeitosas sem que, a cada momento, seja noticiada uma violência contra estes espaços e pessoas.

    Descrição da imagem: amplificação da imagem anterior. Vemos a mesma imagem de cima e tudo fica pequeno. Do lado esquerdo temos uma vegetação verde rasteira; abaixo, uma estrada com uma fila de carros com as luzes acesas, pedras em direção a areia da praia; pisando na areia, várias pessoas (em torno de 600) posicionadas em forma oval em várias filas, aumentando o tamanho circular/ oval. Ao centro, pessoas de branco abaixadas e voltadas para um ponto do lado direito, o congá (equivalente a um altar). Na parte de abaixo da imagem, temos 4 barracas de praia.

    Fonte@Rafael_paz

     

     


  • DE FÉRIAS COM O PET | Resenha: “A autobiografia da minha mãe”, de Jamaica Kincaid

    Publicado em 30/01/2024 às 13:36

    Por Laiara Serafim

    Letras-Português

    Bolsista Pet-Letras

     

     

    Ano novo. Vida nova. Novas metas. Nova lista de leituras.

    No De férias com o Pet dessa semana, venho trazer uma indicação de leitura, para você que está precisando dar o “pontapé” inicial nas suas leituras de 2024 ou para você que, assim como eu, já criou uma lista de leitura enorme da qual sabe que não vai dar conta. Eis que aqui vai mais um nome para a sua lista: A autobiografia da minha mãe , de Jamaica Kincaid, publicado em 1996.

    A segunda obra de Jamaica Kincaid traduzida no Brasil traz uma narrativa realista, cruel e emocionante de Xuela, transportando as palavras para além das páginas, tornando-as quase palpáveis ao leitor. A habilidade literária de Kincaid conduz o leitor pela vida de Xuela, desde a sua infância até sua casa na velhice, em uma obra sem capítulos ou diálogos. A protagonista da obra perde a mãe no parto e é criada por uma lavadora de roupas da família. A narrativa nos aproxima de Xuela a cada cena, revelando as dificuldades cotidianas que ela enfrenta. Por trás das cenas de sofrimento de toda a sua trajetória, Kincaid expõe um cenário marcado pelo colonialismo. Xuela é filha de uma mãe caribenha e de um pai meio escocês e meio africano, e é moradora da ilha de Dominica, ilha que foi colônia da Inglaterra por anos, até conseguir a sua independência apenas no ano de 1978.

    Descrição da imagem: A imagem é a capa do livro “A autobiografia da minha mãe”,  de Jamaica Kincaid.  O fundo da imagem é bege. No centro há o desenho de uma mulher de pele negra e cabelo preto, vestindo uma blusa amarela. Em torno na imagem está o nome do livro e, abaixo, o nome da autora, ambos em letras da cor laranja.

    A realidade de Kincaid parece ter sofrido os mesmos desdobramentos. Segundo o jornal Folha de São Paulo, “só quando chegou aos Estados Unidos, aos 17 anos, Kincaid percebeu que a cor da sua pele poderia ser interpretada como um forte marcador de desigualdade.” E é através do cenário do colonialismo que Kincaid traz os temas centrais de sua obra, identidade e busca por suas raízes.

    “Passei a me amar por rebeldia, por desespero, porque não havia mais nada. Esse amor basta, mas apenas basta, não é o melhor; tem gosto de uma coisa que ficou tempo demais na prateleira e estragou, e que revira no estômago quando é comida. Ele basta, ele basta, mas só porque não existe mais nada que ocupe o seu lugar; não é recomendado.” (p. 38).

    No romance, a personagem Xuela também enfrenta um grande embate com o racismo. A autora critica constantemente essa realidade, assim como o colonialismo, examinando os conflitos presentes em diversos grupos étnicos e desconstruindo ideias generalizadas sobre a formação das identidades. Outro grande elemento abordado na obra de Kincaid, relacionado à questão de nacionalidade e pertencimento, é a linguagem. Dado que a língua desempenha um papel fundamental na formação da identidade de cada indivíduo, saber a língua do colonizador era extremamente importante para o status social; para  participar de uma sociedade colonizada, ainda era necessário que se falasse a língua do colonizador “corretamente”, sem traços da língua nativa.

    “Comecei a falar bastante na época — comigo mesma frequentemente, com os outros quando absolutamente necessário. Falávamos em inglês na escola — inglês correto, não patoá — e entre nós o patoá francês, uma língua que não era considerada nada correta, uma língua que uma pessoa da França não sabia falar e teria dificuldade de entender” (p.15).

    A autobiografia da minha mãe é um livro que fará você sair da zona de conforto. Um livro forte, belíssimo em seu lirismo e perturbador em seu enredo. A obra é uma boa alavanca para refletir sobre os conceitos de nacionalidade e os impactos do colonialismo, mas também sobre perdas, sobre relações familiares e os estigmas na vida da mulher.

    REFERÊNCIA

    KINCAID, Jamaica. A autobiografia da minha mãe. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020.

     

     


  • EDITAL 3/2024 | PROPOSIÇÃO DE GRUPOS DE ESTUDO NO PET

    Publicado em 30/01/2024 às 13:32

     

    Entre os dias 1º de Fevereiro e 29 de Fevereiro de 2024, o PET-Letras receberá propostas para criação de Grupos de Estudos/Interação para 2024.1. Podem apresentar propostas de criação e coordenação de Grupos de estudos os estudantes dos cursos de Graduação e de Pós-Graduação da UFSC demais interessados/as/es, com vínculo com a universidade, que atendam aos requisitos apresentados no edital – CLIQUE AQUI E CONFIRA.


  • DE FÉRIAS COM O PET | A figura feminina no conto “O Caso de Rute”, de Júlia Lopes de Almeida

    Publicado em 22/01/2024 às 10:20

    Por Izabel Bayerl Bonatto

    Letras-Português

    Bolsista PET – Letras

     

    O conto O Caso de Rute, publicado em 1903, está presente na coletânea de contos Ânsia Eterna, que foi escrita por Júlia Lopes de Almeida, e tem como ponto central o entrelaçamento entre a pureza e a violação. A autora apresenta no conto traços do Romantismo, apesar de pertencer ao Realismo, além de trazer elementos góticos para o texto, dando voz à personagem feminina Rute, abordando criticamente a questão do casamento arranjado e questões sociais relevantes para a época na qual o conto foi escrito.

    Descrição da imagem: o fundo da foto é todo num tom de roxo azulado; na parte superior está escrito na cor branca “O caso de Rute” e abaixo na cor preta “Júlia Lopes de Almeida”. No canto inferior direito há uma imitação de pagina rasgando que revela a parte de trás da cabeça de uma mulher branca de cabelos escuros.

    É contada a história de Rute, uma mulher branca de 23 anos e de boa classe social, que está prometida como noiva para Eduardo Jordão; porém, a jovem guarda um grande segredo. Logo que Ruth é apresentada a seu noivo, a baronesa Montenegro começa a tecer elogios sobre o quanto a moça é bondosa, recatada, digna, instruída e de boa educação. Toda essa apresentação acerca da jovem remete ao que a sociedade esperava da figura feminina na época, uma mulher passiva e servente do marido e família. “[…] Eram, com isso, apagadas, no sentido de que sua subjetividade era completamente desconsiderada em função do outro, o sujeito masculino, e em função de manter os status quo daquela sociedade” (Dias, 2019, p.150).

    Outro ponto a ser destacado ocorre na história assim que Rute fica a sós com Eduardo e ela revela que não quer enganá-lo, afirmando que não é mais “pura”: “– Eu não sou pura! Amo-o muito para o enganar. Eu não sou pura!” (O Caso de Rute, p.30). Ela descreve o ocorrido: há 8 anos seu padrasto, já falecido, dominava-a; a vontade dele era a mesma da dela. Ao mesmo tempo que ela lastima o ocorrido, também não se absolve de sua culpa e em nenhum momento diz ter lutado contra aquilo: “– É isto a minha vida. Cedi sem amor, pela violência; mas cedi.” (O Caso de Rute, p.31). É possível notar que a personagem espera que Eduardo cancele o noivado e a culpe por não ser mais virgem, mas não é o que acontece. Ele perdoa Rute mesmo sem ela ter pedido esse perdão.

    Neste ponto da história ocorre uma espécie de fluxo de consciência de rapaz, seus pensamentos travam uma batalha entre a violência que acabara de descobrir, a morte do padrasto dela e o amor que há entre os dois. Além disso, agora perdoada e com o casamento ainda prometido, ocorre outro fluxo de consciência, mas agora de Rute: o perdão de Eduardo a revoltava, e ela ponderava sobre a possibilidade dele a repelir no futuro, mesmo ele prometendo que esqueceria do ocorrido. Com isso, vieram à sua mente pensamentos suicidas:

    Rute pensou em matar-se. Viver na obsessão de uma ideia humilhante era demais para a sua altivez. Desejou então uma morte suave, que a levasse ao túmulo com a mesma aparência de cecém cândida, de envergonhar a própria sensitiva. (O Caso de Rute, p.33)

    E realmente a protagonista cumpre com seu desejo, suicida-se. Em seu velório, uma mesma voz repetia que a jovem iria ficar com o falecido padrasto, no mesmo jazigo. Eduardo, pensando que a noiva havia se matado para ir de encontro com o antigo amante, teve um surto de ciúmes somado ao sentimento de posse, tal como Rute sabia que em algum momento aconteceria: “E a todos que acudiram nesse instante pareceu que viam sorrir a morta em um êxtase, como se fosse aquilo que ela desejasse…” (O Caso de Rute, p.34)

    Por fim, a respeito de O caso de Rute, Dias (2019) ainda destaca:

    Ademais, podemos dizer que, com muita delicadeza, Júlia Lopes de Almeida de fato retratou devidamente a condição da mulher naquela sociedade, denunciando as situações degradantes as quais as mulheres estavam submetidas. Através de personagens masculinas que ocupavam posições de destaque, como o Barão, a autora critica sutilmente a reafirmação de valor que se costuma dar a essas pessoas e os privilégios que os sujeitos do sexo masculino usufruem com sua imagem, em consonância com o silenciamento e a negativização da imagem das mulheres.(p.158)

     

    REFERÊNCIAS

    ALMEIDA, Júlia Lopes de. O Caso de Rute. In: ALMEIDA, Júlia Lopes de. Ânsia Eterna. 2. ed. rev. Brasília: Senado Federal, 2020.   p. 27-34.

    DIAS, Ana Paula Pereira. A representação do feminino no conto O caso de Rute, de Júlia Lopes de Almeida. Revista Porto das Letras, Tocantins, v. 05, n. 03, p. 147-160, 2019. Disponível em: https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/portodasletras/article/download/8025/16014. Acesso em: 21 jan. 2024.

     

     


  • DE FÉRIAS COM O PET | Linguística Popular/Folk linguistics e sua difusão

    Publicado em 16/01/2024 às 10:37

    Por Hanna Boassi

    Bolsista PET-Letras | IC/CNPq

     

    O termo linguística popular é associado a denominações anglo-saxônicas que envolvem o termo folk, traduzido para o francês como popular, espontâneo, inexperiente, profano ou ordinário, remetendo também à linguística do senso comum. Baronas (2019), no seu artigo Seis sabres e três quartos que você (interessada/o em questões de Linguagem) precisa aprender sobre Linguística Popular/Folk Linguistics diz que, por ora, chamamos de popular o saber espontâneo dos atores sociais sobre o mundo, que se diferencia do saber acadêmico ou científico, assim como o saber prático se diferencia do saber teórico. Ou seja, os saberes populares não passam por investigações científicas que os provam como verdade, mas dependem da crença desses atores sociais para que sejam um senso comum: “Os sentidos pejorativos geralmente apensos ao termo popular fazem parte do escopo dos estudos da linguística popular e podem se tornar um importante objeto de estudo para esse domínio.” (Baronas, 2019, p. 4) A linguística popular, por sua vez, não diz respeito apenas à linguística em sua legitimidade, mas abrange ao uso da língua em situações corriqueiras, de pessoas que não estão dentro da área acadêmica e científica.

    Neste mesmo artigo,  Baronas  traz o exemplo de um trabalho de não-linguistas sobre a língua, o Aurélia – A Dicionária da Língua Afiada. Publicado em 2006, a “dicionária” foi elaborada por dois jornalistas, Fred Libi e Vitor Angelo Scippe, sendo uma paródia do famoso dicionário Aurélio. A dicionária explica expressões utilizadas no dialeto pajubá, que é utilizado pela comunidade LGBTQIA+ de falantes da língua portuguesa, destacando falantes do Brasil. O intuito desta obra é entrar no espaço que os dicionários tradicionais ocupam, ser utilizada como uma ferramenta útil para a sociedade.

    A Aurélia mostra então que as obras possuem línguas próprias, ou melhor, que as textualizações, os discursos têm as suas próprias línguas, não em termos de morfologia, léxico ou sintaxe, que são únicos para uma determinada língua, mas destacando ou silenciando certos sentidos, autorizando ou não certas leituras, interpretações, determinadas co-enunciações e co-enunciadores e, especialmente, evidenciando a existência de um tipo particular de corporeidade linguística que advêm dessas próprias línguas. (Baronas, 2019, p. 13)

    Descrição de Imagem: uma capa de livro com fundo amarelo, onde se enxerga o desenho de um rosto feminino gritando e com uma expressão brava. Na parte superior se lê “1300 verbetes” e logo abaixo “Aurélia, A Dicionário da Língua Afiada”. Em uma forma oval laranja, os nomes dos autores: Angelo Vip e Fred Libi e abaixo outra forma oval, desta vez vermelha, onde pode se ler “24º edição, tá, meu bem?”. E por fim, no canto inferior direito o logo da Editora da Bispa.

     

    É interessante pensar que, mesmo de uma perspectiva folk,  os jornalistas conseguiram descrever o pajubá, colocando-o no meio dos dicionários – entendidos como  produtos tecnológicos que têm como objetivos silenciar outras formas de sentido que não as que são “autorizadas” por eles mesmos. Aqui, porém, estamos no campo das resistências.

    Algo que faz parte da linguística popular nos dias atuais são as expressões que aparecem na rede social X (antigo Twitter), que foram se popularizando cada vez mais na era digital. Em 2018, Vivian Macedo publicou, na plataforma de jornalismo social Medium, um chamado Pequeno dicionário do twitter caprichete, explicando as principais expressões que eram utilizadas no ano de 2018 na rede social.

     

    Descrição de Imagem: Trecho do texto de Vivian na plataforma medium onde se vê uma captura de tela do Tweet de @MARIATOSCANO15 onde se lê “NACLARA PELA ENÉSIMA VEZ DIZENDO ‘AMANHÃ VOU PRA ACADEMIA’ A CARA NEM TREME!!!” e acima a explicação de Vivian para a expressão utilizada “A cara nem treme: Expressão usada quando a pessoa está mentindo e nem se abala com isso.”

    Outro perfil muito popular na rede X é o Greengo Dictionary, um perfil voltado para traduzir de forma literal e explicar expressões brasileiras, como vemos abaixo:

    Descrição de imagem: Em um fundo verde, um verbete de dicionário:

    “train (variations)

    train /trem/ 1 (n.) in General Mines, a word that represents basically

    anything, except actual trains.

    ugly train /trem fei/ 1 (exp.) something complicated, difficult.

    good train/trem bão/ 1 (exp.) a pleasant situation

    big train /trenzão/ 1 (n.) someone impressively beautiful.

    lil’ train /trenzin/ 1 (n.) affectionate way to refer to somebody.

    crazy train /trem doido/ 1 (exp.) a mad situation.

    a train like this has no fitting/ num tem cabimento um trem desse/

    1 (exp.) that’s not possible, unbelievable.”

     

    Criado pelo designer gráfico Matheus Diniz, nele são selecionadas expressões brasileiras populares que referenciam acontecimentos do momento. O exemplo dado acima da expressão trem foi realizado no dia 12 de dezembro, aniversário de Belo Horizonte, onde a expressão é mais utilizada. “A escolha de traduzir as expressões brasileiras para o inglês não é aleatória e se apresenta como uma estratégia de divulgação cultural” (Silva, 2021, p. 89).

    Como se vê, os estudos de Linguística Popular/Folk Linguistics podem contribuir na compreensão do uso da língua como objeto social e colocar em discussão a univocidade dos saberes sobre a língua. É interessante ouvir além de linguistas, mas também pessoas “não autorizadas” a falarem sobre esse “objeto” – uma tarefa que folk pretende realizar.

     

    REFERÊNCIAS

    BARONAS, Roberto Leiser. Seis saberes e três quartos que você (interessada/o em questões de Linguagem) precisa aprender sobre Linguística Popular/Folk Linguistics. Piqueling, 2019. Disponível em: https://www.piqueling.ufscar.br/publicacoes/linguistica-popular-prof-roberto-baronas. Acesso em: 13 jan. 2024.

    MACEDO, Vivian. Pequeno dicionário do twitter caprichete. 12 abr. 2018. Medium: @vihvs. Disponível em: https://medium.com/@vihvs/esse-pequeno-dicion%C3%A1rio-explica-as-principais-express%C3%B5es-que-aparecem-no-twitter-e-para-ajudar-a-816fb0c7b9a6. Acesso em: 13 jan. 2024.

    SILVA, Priscila Aline Rodrigues. Linguística Popular e Análise do Discurso: possibilidades de diálogo entre línguas e teorias com Greengo Dictionary. Porto das Letras, [S. l.], v. 7, n. 4, p. 83–103, 2021. Disponível em: https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/portodasletras/article/view/12854. Acesso em: 13 jan. 2024.

     


  • Editais para professores e professoras| PET Idiomas | 2024.1

    Publicado em 11/01/2024 às 16:05

    O PET-Letras já começou a organizar o ano!

     

    Dois editais para quem se interessa em ter uma experiência em docência (ministração) de línguas:

     

    EDITAL 01/2024/PET SELEÇÃO DE PROFESSOR(A/E) VOLUNTÁRIO(A/E) PARA 2024.1 – PRESENCIAL E/OU ON-LINE

    O PET-Letras torna público o processo seletivo para professores(as) voluntários(as/es) do PET Idiomas para o primeiro semestre letivo de 2024. Podem se inscrever estudantes dos cursos de
    Graduação e de Pós-Graduação da UFSC ou demais interessados que atendam aos requisitos apresentados do edital.

    O período de inscrição será das 16h dia 11 de janeiro de 2024 às 12h do dia 16 de fevereiro, ONLINE.

    CLIQUE AQUI e confira o edital.

    LISTA DE APROVAÇÕES NA PRIMEIRA ETAPA | HORÁRIO DE ENTREVISTAS

    1. Eduarda Christina Schuhmann (Inglês)  – 9h
    2. Renata de Paula Ferreira (Francês)  – 9h15min
    3. Henrique Demeneck Onghero (Inglês)  – 9h30min
    4. Vitória Vogel Dal Bosco (Alemão) – 9h45min
    5. Gabrielle Milena Bianco Braschi (Francês)  – 10h
    6. Rafael Oliveira Simas Almeida (Libras) – 10h15min
    7. Maeia de Los Angeles Ayerim Rosendo Nino (Português para estrangeiros) – 10h30min

    As entrevistas serão realizadas dia 19 de fevereiro, on-line. As pessoas aprovadas receberão email com os horários e o link de acesso.

     

    Lista de pessoas aprovadas para o PET-Idiomas 2024.1:

     

    Renata de Paula Ferreira (Francês) | modalidade remota

    Henrique Demeneck Onghero (Inglês) | modalidade presencial

    Rafael Oliveira Simas Almeida (Libras) | modalidade a definir

    Eduarda Christina Schuhmann (Inglês) | modalidade remota

     

    Pessoas não aprovadas

     

    Vitória Vogel Dal Bosco (ausente na entrevista)

    Gabrielle Milena Bianco Braschi (ausente na entrevista)

    Maeia de Los Angeles Ayerim Rosendo Nino (ausente na entrevista)

     

    As pessoas aprovadas receberão email com informações acerca do início das aulas e outras questões relevantes.

    ***

    EDITAL 02/2024/PET SELEÇÃO DE PROFESSOR(A) VOLUNTÁRIO(A) PARA 2024.1 – PORTUGUÊS PARA IMIGRANTES E REFUGIADOS

    O PET-Letras torna público o processo seletivo para professores(as) voluntários(as) para o segundo semestre letivo de 2024 para ministrar aulas de português para imigrantes e refugiados.
    Podem se inscrever estudantes dos cursos de Graduação e de Pós-Graduação da UFSC ou demais interessados/as/es que atendam aos requisitos apresentados do edital.

    Serão ministradas aulas de português de nível básico e intermediário para imigrantes e pessoas com visto humanitário em Florianópolis, oferecidas na UFSC (Campus da Trindade), das 19h às
    21h (dia a ser decidido de acordo com a disponibilidade dos professores selecionados. Serão 18 encontros presenciais entre 11/03/24 e 13/07/24.

    O  período de inscrição será das 12h dia 15 de janeiro de 2024 às 12h do dia 02 de fevereiro de 202 – ONLINE!

    CLIQUE AQUI e confira o edital.

    LISTA DE APROVAÇÕES NA PRIMEIRA ETAPA

    1. Ana Helena Lecuona Madeira
    2. Ana Paula Nunes de Sousa
    3. Gabriela Cristina Carvalho Gonçalves dos Santos
    4. Isabela Bohnen
    5. Luciéle Bernardi de Souza
    6. Mariane Garin Belando
    7. Pedro Albino Mezzari
    8. Rosangela Fernandes Eleutério

    As entrevistas serão realizadas entre 9h e 12h do dia 8 de fevereiro, on-line. As pessoas aprovadas receberão email com os horários e o link de acesso.

     

    NOVO: LISTA FINAL DE APROVAÇÕES (EM ORDEM ALFABÉTICA)

    1. Ana Helena Lecuona Madeira
    2. Ana Paula Nunes de Sousa
    3. Gabriela Cristina Carvalho Gonçalves dos Santos
    4. Isabela Bohnen
    5. Luciéle Bernardi de Souza
    6. Mariane Garin Belando
    7. Pedro Albino Mezzari
    8. Rosangela Fernandes Eleutério

  • Literatura como arte essencial para identificação humana: breve comparação entre as obras “A teoria do romance”, de George Lukács, e “Problemas da Poética de Dostoiévski”, de Michail Bakhtin

    Publicado em 28/12/2023 às 13:58

     Por Luísa Wierenicz D’Alberto

    Bolsista PET-Letras

    Letras-Português

     

    Analisando os gêneros literários, pode-se notar, através da evolução da literatura, uma exemplificação da identificação do homem como indivíduo. Considerando que obras literárias, muitas vezes, refletem e traduzem a sociedade da época em que se originam, é perceptível que no caminho entre a tragédia e o romance, o homem se deparou com a realidade da experiência individual.

    A partir disso, observando a obra A Teoria do Romance, de Georg Lukács, percebe-se que o autor define o romance como uma forma que sedimenta a perda dos vínculos comunitários. Essa perda, apesar de particular para cada pessoa que a sofre, gera uma dessacralização dos vínculos sociais, pois é o momento que o homem perde seus símbolos. Os símbolos são como rupturas da totalidade – que é o que o romance, apesar de não proporcionar, tem a intenção de buscar -, porém, de acordo com a visão de Lukács, no gênero romance esses símbolos passam a se realizar a posteriori, justamente pela perda do seu referencial. Isto é, na epopeia clássica, era apresentado à sociedade símbolos concretos, e agora, esses símbolos apenas traduzem a ruptura da comunidade.

    Descrição da imagem: capa do livro “A Teoria do Romance” de Georg Lukács. O fundo é marrom claro, com dois detalhes em preto e verde nas laterais da imagem.

     

    Além disso, o autor ainda prevê que essa ruptura que ocorre na sociedade causa uma espécie de ciclo de vingança, pois quando acontece o senso de individualidade, o homem também considera a justiça, os direitos, os deveres etc., quase que como uma crise existencial.

    Esse texto de Lukács também tem seus tensionamentos. Um deles, na discussão de Bakhtin acerca da polifonia dos romances de Dostoiévski. Mikhail Bakhtin, apesar de diversas vezes apresentar uma visão distante da de Lukács, expõe uma radicalização intensa da lógica do indivíduo e considera que a origem do romance se deu através dessa quebra da lógica – e é aí que Bakhtin e Lukács se encontram, pois ambos possuem a visão da crise de gênero. Na obra de Bakhtin, o romance polifônico envolve uma multiplicidade de consciência e de vozes. Esse tipo de romance, mais uma vez, é totalmente contrário ao padrão da epopeia. A diferença principal entre os dois autores é que Lukács se origina do romance e da tragédia, enquanto Bakhtin praticamente inova e origina um terceiro gênero.

    Descrição da imagem: fundo marrom claro, com um homem branco, Mikhail Bakhtin, no centro. Cabelos e barbas escuras, usando uma camisa branca

    Ora, se entendemos que a literatura é uma arte essencial e extremamente relevante para o entendimento e identificação humana, a problemática do romance deixa fica clara a busca do homem pelo sentido da vida e dele mesmo, busca que causou essa crise de gênero, de representatividade, de perda do referencial.