O ideal de feminilidade em “A Falência”, de Júlia Lopes de Almeida 

20/07/2022 10:38

Sofia da Silva Quarezemin,
Bolsista PET-Letras
Letras Português

No romance “A falência” (1901), Júlia Lopes de Almeida conduz a história de uma família da elite cafeeira do Rio de Janeiro, entre 1891 e 1893, documentando, com seu narrar realista, diversos aspectos da sociedade da ainda jovem República. O enredo se desenvolve principalmente no núcleo da família de Francisco Teodoro, um português que migrou para o Brasil e construiu seu negócio com a prosperidade do Brasil no mercado cafeeiro. O empresário casou-se com Camila, uma moça de família de poucos bens, com quem teve 4 filhos: Mário, único filho e primogênito; Ruth, adolescente apaixonada pelas artes; e as gêmeas Rachel e Lia, ainda crianças. 

Como eram comuns as relações extraconjugais, Camila mantém um relacionamento de longa data com o médico, amigo da família, Gervásio, em quem Francisco Teodoro deposita total confiança. Em um golpe especulativo, o patriarca da família Teodoro perde toda sua fortuna e se suicida, levando Camila, suas filhas e as agregadas da família a buscarem formas de superar o sofrimento da perda e a escassez.

Fonte: Imagem da Internet *

Nesse cenário, as principais problemáticas abordadas na história da protagonista são as demandas femininas. Aqui, quero pontuar algumas das implicações relacionadas ao papel do gênero, analisando a personagem Camila. Contudo, o enredo aborda também as tensões raciais da época, além da relação entre trabalho e dignidade.

O que acompanha Camila, ao longo de toda a trama, é o seu relacionamento com o Dr. Gervásio, enquanto está casada com Francisco Teodoro. Nessa obra, a autora expõe a contradição da opinião popular sobre o adultério, denunciando a diferença de julgamento sobre desvios de moral cometidos por homens e mulheres. Para os maridos, há sempre uma justificativa, seja ela pautada na ideia de que a infidelidade faz parte da natureza masculina, seja pautada no fato de que o homem é o maior detentor de poder dentro do matrimônio e pode quebrar o contrato social do casamento sem sofrer as consequências disso:

Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros corpos… e aí estava como dele só se dizia bem! Ele amara outras pela volúpia, pelo pecado, pelo crime; ela só se desviara para um homem, depois de lutas redentoras; e porque fora arrastada nessa fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, aí estava boca do filho a dizer-lhe amarguras […].  (ALMEIDA, 1901, s.p.).

Com isso, Camila justifica sua infidelidade com a de Francisco, o que, segundo Zahidé Muzart, em Um romance emblemático de Júlia Lopes de Almeida: crise e queda de um sistema, é a atitude da autora em olhar para o adultério com compreensão, uma vez que “a personagem trai o marido, mas é igualmente traída não só pelo cônjuge, como pelo próprio amante […]. E o mais grave, [o amante] separou-se da esposa por ela lhe ter sido infiel.” (MUZART, 2014, p. 140)

Além do âmbito do adultério, no que toca à relação da protagonista com Gervásio, podemos perceber uma tentativa do médico em aplicar sobre ela uma espécie de segunda socialização feminina, afirmando que ela se tornou mais bela e sofisticada com o passar dos anos em que manteve contato com ele (ALMEIDA, 1901, s.p.). Ele atua sobre a protagonista de forma a moldar o seu comportamento, julgando-a como inadequada, sem bom gosto ou bons modos, ensinando-a sobre arte e etiqueta. 

Melina Bassoli, no texto O que é socialização?, defende que “nenhum desses interesses são de nascença. Todos eles são aprendidos, são estimulados ou desestimulados, encorajados ou reprimidos” (BASSOLI, 2021, s.p.). Nesse sentido, Camila passa por um segundo momento de assimilação da feminilidade promovido por Gervásio, mais sofisticado e adequado ao ambiente do que o primeiro processo de socialização feminina, experienciado na infância, que a deveria a preparar para cumprir o papel esperado para uma esposa da elite brasileira no final do século XIX.

Muito do que é experienciado por Camila também se baseia na sua beleza, motivo pelo qual Francisco se casou com ela e pelo qual ela é cobiçada por outros homens. Em momentos de tensão ou sofrimento, a personagem busca validação por meio de sua aparência, como quando teve seu relacionamento extraconjugal desmascarado e questionou suas caçulas: “E se eu fosse feia… bem feia… se… por exemplo, eu tivesse bexigas e ficasse marcada, sem olhos, com a pele repuxada… ainda assim vocês gostariam de mim?” (ALMEIDA, 1901, s.p.). Em um outro momento, Camila enxerga seu corpo no espelho como um “milagre da juventude”, motivo pelo qual ela teme o envelhecimento. Para a protagonista, perder esse precioso bem, a beleza, significa deixar de ter valor para o mundo, para as pessoas com quem convive e para si mesma. Sobre essa mistificação da beleza como validadora da existência da mulher na sociedade, Naomi Wolf, no best-seller O mito da beleza, argumenta:

O envelhecimento na mulher é “feio” porque as mulheres adquirem poder com o passar do tempo e porque os elos entre as gerações de mulheres devem sempre ser rompidos. As mulheres mais velhas temem as jovens, as jovens temem as velhas, e o mito da beleza mutila o curso da vida de todas. E o que é mais instigante, a nossa identidade deve ter como base a nossa “beleza”, de tal forma que permaneçamos vulneráveis à aprovação externa. (WOLF, 1992, p.17).

Essa suscetibilidade à aprovação externa causa uma desconexão da personagem com suas qualidades intelectuais, psicológicas e sociais, transformando-a em refém da própria aparência. Isso fica mais evidente quando ela perde o que permitia a manutenção da sua beleza e dos seus luxos em geral: o dinheiro. A falência cai sobre a família como um choque social, e recai sobre Camila como uma crise da própria imagem. Ela se submete às vontades do filho Mário e busca a salvação em Gervásio porque não consegue encontrar forma de sobreviver à situação por conta própria, uma vez que as únicas coisas que está habituada a fazer são ser bela e amar

Fonte: Imagem da Internet **

Com as demais personagens femininas do conto, Camila, num ímpeto de acabar com a tradição dos homens comandando sua vida e das filhas, decide retomar o ofício que desempenhava antes de se casar com Francisco Teodoro e de ingressar na elite. Nas palavras de Muzart, ela “revê a própria vida, conscientizando-se da realidade e volta-se para a comunidade de mulheres (Nina, Noca, Ruth), traz as gêmeas que foram para a casa da baronesa […] e planeja alfabetizá-las e educá-las, ela mesma” (2014, p. 140).

Esse fortalecimento individual da personagem na conclusão do romance se dá, também, pelo fortalecimento do grupo a que pertence e do qual tira motivações para empreender a tomada de poder sobre sua própria vida. A que nível isso se estende, não nos fica claro, mas nos permite pensar nas intenções da autora em demonstrar e afirmar a educação e o trabalho como via de libertação e independência feminina, olhar esse que perdura na contemporaneidade e que alavancou movimentos organizados de mulheres ao longo do século XX.

Referências

ALMEIDA, J. L. A falência. Leitura realizada no DLNotes. Núcleo de Pesquisa em Informática, Literatura e Linguística: Universidade Federal de Santa Catarina, s.a.

BASSOLI, M. O que é socialização? 2021. Disponível em: <https://medium.com/qg-feminista/o-que-%C3%A9-socializa%C3%A7%C3%A3o-781835d07281#0107> . Acesso em: 10 jul. 2022.

MUZART, Z. L. Um romance emblemático de Júlia Lopes de Almeida: crise e queda de um sistema. Navegações, v. 7, p. 134-141, 2014. Disponível em: <https://doi.org/10.15448/1983-4276.2014.2.21026>. Acesso em: 10 jul. 2022.

WOLF, N. O mito da beleza. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

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* Foto descrição 01: Se trata de uma fotografia antiga, em preto e branco ou sépia, da estação ferroviária do Rio de Janeiro no final do século XIX. A construção é bastante grande, com estilo colonial, e a foto é tirada durante o dia, com diversas pessoas, cavalos e carruagens circulando pelo pátio em frente à estação.

** Foto descrição 02: Fotografia em preto e branco da escritora Júlia Lopes de Almeida, em que ela se encontra sentada em uma cadeira, ao lado de uma mesa, virada para a câmera. Ela é uma mulher branca, tem cabelos longos em um coque, usa um vestido longo e escuro e tem uma expressão facial séria, talvez de desagrado. Sobre a mesa, uma toalha, alguns livros e um vaso com flores. 

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O que eu aprendi com bell hooks

14/07/2022 21:12

Vítor Pluceno Behnck,
Bolsista PET-Letras
Letras – Inglês

Da Pedagogia Engajada ao ensino e aprendizagem sem limites, os catorze ensaios do livro Ensinando a Transgedir, escrito pela norte-americana bell hooks (assim mesmo, em letras minúsculas), apresentam diversos e ricos posicionamentos e relatos acerca da pedagogia crítica. Nesse texto, busco traduzir em palavras alguns dos tantos ensinamentos que esta obra me trouxe — e tentarei demonstrar o porquê acredito que essa seja uma obra indispensável para qualquer educador no século vinte e um.

Primeiramente, é interessante ressaltar como a história pessoal da autora se intersecciona com o ideal norteador de toda sua obra: o pensamento crítico. Um fato marcante, em sua história, é que hooks frequentou a educação básica nos Estados Unidos durante o regime de segregação social, como ela comenta na Introdução de Ensinando a transgredir:

essa transição das queridas escolas exclusivamente negras para escolas brancas onde os alunos negros eram sempre vistos como penetras, como gente que não deveria estar ali, me ensinou a diferença entre a educação como prática da liberdade e a educação que só trabalha para reforçar a dominação. (hooks, 2020, p.12).

Mais tarde, na universidade, hooks relata seu espanto com seus professores reforçando a ideia de que o objetivo principal da educação era aprender obediência e autoridade. A partir dessa experiência avassaladora, a autora começou a escrever seu primeiro livro durante a graduação, o que a levou para a perspectiva da pedagogia engajada e à noção de que havia — e adiciono, ainda há — uma séria crise na Educação.

hooks foi profundamente tocada pelo trabalho de Paulo Freire e Thich Nhat Hanh, que a influenciaram a combater o sistema bancário de educação[1]. Assim, a autora propôs um modelo educacional holístico, considerando que a sala de aula “será também um local de crescimento para o professor, que será fortalecido e capacitado por esse processo” (hooks, 2020, p. 35). Deste modo, ela reforça a ideia da “do-discência” proposta por Freire (2021), em que o professor aprende ao passo que ensina, e os estudantes ensinam ao passo que aprendem.

Como pontuei anteriormente, acredito que a Educação — sobretudo no Brasil — enfrenta uma severa crise. E não se trata de uma crise somente de recursos ou políticas públicas, mas uma crise ideológica. Forças políticas nefastas declaradamente autoritárias minam o sistema educacional já precarizado, impondo perspectivas neoliberais que exacerbam as desigualdades mascaradas pelo discurso simplista e meritocrata.

Portanto, hooks é voz dissidente desse projeto de educação bancário e desigualitário. Entender a educação como prática de liberdade é um passo essencial para a formação de “do-discentes” críticos e engajados com a realidade de seus estudantes, tornando a sala de aula um espaço que acolha os indivíduos em sua totalidade, e não como meros projetos de mão-de-obra qualificada. hooks nos permite transgredir a “coisificação” de toda uma classe que merece ser tratada com boniteza e consciência. Ensinar a transgredir é preciso, e mais do que isso: é cada dia mais urgente.

Fonte: Querido Clássico, 2022.*

[1] “Paulo chamou de “educação bancária” àquela que considerava que “o educador é sempre o que educa, e o educando o que é educado; o educador é o que sabe, e os educandos os que não sabem”; o educador é o que fala, os educandos os que escutam docilmente; os educadores sujeitos, os educandos objetos”. Contrapondo-se à educação bancária, propunha que os educadores fossem humanistas, que empreendessem uma educação problematizadora, revolucionária, que se identificassem com seus educandos. Tudo isso levaria a libertação de ambos” (HADDAD, 2019, p. 95).

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários a prática educativa. 70 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.

HADDAD, Sérgio. O educador: um perfil de Paulo Freire. 1a ed. São Paulo: Todavia, 2019.

hooks, b. Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade. 2a ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017.

*Fotodescrição: imagem de fundo rosa caro com palavras escritas em letras cursivas. No centro, há uma colagem da autora bell hooks, que possui pele negra, cabelo crespo preto e veste uma blusa de manga comprida florida, com a cabeça apoiada em seu queixo. Atrás dela, há asas de borboletas na cor vermelho escuro.

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Trupe da Aurora: a arte como ferramenta de cura

29/06/2022 13:51

Laiara Serafim,
Bolsista PET-Letras
Letras Português

Na canção “Comida”, lançada em 1987, a banda Titãs já cantava que “a gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte”. Originada do latim ars, que significa literalmente “técnica”, “habilidade natural ou adquirida” ou “capacidade de fazer alguma coisa” (Origem da palavra arte, 2016), a palavra arte é multifacetada, desde a “Arte poética” de Aristóteles até seus mais de 25 significados listados no dicionário de português; além de inúmeras outras possíveis combinações na língua. 

No entanto, um fato imutável é de que a arte está presente no mundo desde os tempos mais primordiais da humanidade, tendo os primeiros registros artísticos conhecidos como arte pré-histórica. Desde então, é inegável que a arte tem se tornado uma ferramenta essencial na vida cotidiana. Considerando a arte no campo do teatro, é possível afirmar que sua história teve início na Grécia Antiga, em torno do século VI a.C. Nessa época, eram realizados rituais em louvor ao deus mitológico Dionísio, divindade relacionada à fertilidade, ao vinho e à diversão (Aidar, 2020)

Etimologicamente originado do Grego theatron — literalmente “lugar para olhar”: de theasthai, “olhar”, mais  –tron, sufixo que denota “lugar” — (Teatro, 2014), o teatro estava presente em grandes momentos da história, como os clássicos teatros grego e romano, passando pelo teatro medieval com dramas litúrgicos, as renomadas obras de Shakespeare, o declínio da tragédia clássica e o nascimento drama burguês, e chegando ao Brasil pelo chamado “teatro de catequese” (Aidar, 2020), até se tornar o teatro que conhecemos hoje — com obras-primas nacionais como “o auto da compadecida” de Ariano Suassuna — e atingir os novos meios de comunicação: cinema, rádio, televisão e redes sociais. 

De qualquer modo, para além de todos esses grandes momentos históricos, de artistas brilhantes e de peças atemporais, o teatro vive em nosso meio. Nas brincadeiras de criança, nos sonhos de jovens, na criatividade de adultos ou na vitalidade de idosos. 

Fonte: arquivo pessoal*

E, em meio a esse complexo artístico que o teatro engloba, foi a iniciativa de  Léia Batista — escritora, dramaturga, atriz, professora de teatro e mulher muito apaixonada pela arte — de fomentar a cultura em Araranguá, uma cidade no sul do estado de Santa Catarina, com menos de 70 mil habitantes, que me fez enxergar a necessidade de falar sobre o tema.  Trabalhando inicialmente com o teatro infantil, Léia teve sua primeira peça, O cantador de histórias – uma volta em mil mundos, encenada nas escolas. Segundo a própria escritora, “o teatro, além de uma ferramenta de cura, é também uma ferramenta de educação”. E foi com esse pensamento que ela continuou a levar mensagens sobre bullying, sentimentos, amizade e respeito às diferenças para as crianças. Possuindo mais de vinte roteiros no palco, Léia não parou com as peças infantis e decidiu levar a arte para todas as esferas da sociedade, criando, assim, o grupo de teatro Trupe da Aurora, que conta com voluntários de todas as idades, apaixonados pela arte e dispostos a aprender. As aulas de teatro acontecem uma vez por semana. Nelas, Léia propõe dinâmicas de relaxamento, concentração, voz e expressão, nas quais os atores desenvolvem e descobrem inúmeras habilidades. Assim, Léia vai apresentando o roteiro proposto e o adaptando conforme a quantidade de voluntários. 

No último dia cinco de junho, no auditório Plinio Linhares, na cidade de Araranguá, o grupo fez uma apresentação que teve a sua venda de ingressos esgotada. Intitulada “Uma peça não muito íntima”, a comédia, com roteiro escrito por Léia Batista, contou, com muito bom humor, a história da separação mal resolvida de um casal e como duas peças íntimas — uma calcinha vermelha e uma cueca — trouxeram à tona tantas questões de uma família real. 

Fonte: arquivo pessoal**

Trazendo muitas questões importantes, como sexualidade, amizade, relação dos pais com os filhos e, sobretudo, o perdão, a peça contou com dez atores. Luci Alexandre, que interpretou Odette — a ex-esposa que nunca perdoou o ex-marido —, nos conta que os ensaios duraram mais de um ano, tempo aumentado por conta da pandemia. Questionada sobre como o teatro tem impactado a sua vida e como ela percebe essa cura através da arte, Luci Alexandre nos deu o seguinte relato: 

O trabalho da Léia é agregar arte à nossa comunidade, falta incentivo à cultura no nosso país e isso precisa ser feito por conta. Quando estamos nas aulas, fazendo as dinâmicas, estudando o texto, aprendemos a nos autoconhecer. O teatro ajuda no desenvolvimento da memória, melhora a comunicação, tira o medo de nos expressarmos na frente das pessoas. Nós fazemos os exercícios, depois sentamos e discutimos sobre isso. Aprendemos a analisar, ouvir o próximo e desenvolvemos senso crítico também. Somos um grupo unido, a formação de uma nova família.  O mundo é muito individual no dia-a-dia, mas, no teatro, é preciso que o outro vá bem para que você vá bem também e isso nos desperta o sentimento de coletividade, de união. Ficamos felizes com o sucesso do outro. (Alexandre, 2022).

Já em conversa com Léia Batista, a escritora nos deu o seguinte depoimento: 

Estamos curando um paradigma de que a arte não sobrevive em cidade pequena, mostrando que com um grupo nós conseguimos. Teatro é ferramenta de cura no sentido em que ele começou a cura em mim primeiro. Cura para mim como artista, que tinha o desejo de viver da arte e também para as crianças que eu tocava através das palavras e das peças. Quando estamos no palco fazendo as pessoas rirem, ou até chorarem, nós estamos transformando vidas, dos outros e a nossa. (Batista, 2022).

Em uma perspectiva pessoal, posso afirmar que o grupo Trupe da Aurora me tocou de diversas formas. Primeiro, com as boas risadas arrancadas pelos roteiros excepcionais da Léia e interpretações divertidíssimas dos atores. Segundo, por reconhecer temas tão importantes na sociedade e entender a arte como essa ferramenta de transformação social. Foi uma experiência incrível assistir ao vivo a apresentação de “Uma peça não muito íntima”, vibrar e rir junto com todo o público presente, além de me encantar com os traços da história que me lembraram grandes obras da nossa literatura, como “O auto da compadecida”, já mencionado anteriormente. Mas, sobretudo, por encontrar pessoas tão apaixonadas pelo que fazem, perceber que a arte (sobre)vive em todos os lugares e continua curando vidas: a de Léia Batista, a dos atores, a minha e, se você se render à arte, a sua também. 

Descrição de imagem*: fotografia de um palco de teatro, onde seis pessoas estão atuando. No canto direito, uma mulher está sentada em uma poltrona cor de rosa claro. Mais ao lado, outras duas mulheres que vestem roupas coloridas conversam com um homem que está em cima de uma escada de aço. No canto esquerdo, dois jovens um garoto e uma garota — conversam entre si. Um pouco mais à frente, há uma mesa coberta com tecido vermelho e, ao fundo, uma parede de tijolos encerra a decoração da cena. 

Descrição de imagens**: da esquerda para a direita. Na primeira linha: imagem 01: fotografia de cinco atores do grupo de mímica. No canto superior esquerdo, aparece um jovem usando um chapéu preto, maquiagem e roupa de palhaço preto e branco, ele tem uma expressão séria no rosto. Ao centro da imagem, aparece um outro jovem de pé com expressão emotiva, usando uma boina vermelha, maquiagem de palhaço e uma camisa listrada em preto e branco. No lado direito da imagem, aparece uma jovem de pé e expressão sorridente, usando um chapéu de bobo da corte, um jaleco branco, gravata colorida e maquiagem de palhaço. No canto inferior esquerdo, uma jovem está abaixada, ela veste uma saia listrada em preto e branco, usa maquiagem de palhaço e uma flor branca no peito. Ao lado esquerdo, também abaixada, aparece uma outra jovem, com maquiagem de palhaço, vestindo uma saia de bolinhas preto e branco e um lenço vermelho no pescoço. Imagem 02: fotografia de uma peça do pequeno príncipe. Ao lado esquerdo, uma mulher veste peruca laranja com orelhas marrons, representando a raposa. Ao lado direito, um garotinho veste uma peruca loira e um sobretudo azul, representando o pequeno príncipe. Ao fundo, aparecem várias estrelas de papel amarelo.  Na linha de baixo: imagem 03: Fotografia de duas pessoas sobre um palco, encenando a peça Romeu e Julieta. No fundo, aparecem cortinas vermelhas e pretas. Mais a frente, no centro, aparece uma jovem de braços abertos, usando um vestido vermelho de mangas brancas. Atrás dela, um jovem também de braços abertos, usa uma túnica vermelha. Imagem 04: fotografia de oito atores sobre o palco na peça “Uma peça não muito íntima”. Da esquerda para a direita, aparece uma mulher vestindo um sobretudo vermelho, ao lado aparece uma garotinha. Em seguida, aparecem duas mulheres com roupas coloridas. Ao lado delas, aparece um homem de camisa listrada, ao lado dele, há uma outra mulher de casaco rosa e saia.No fundo, no canto direito, aparece um garoto vestindo uma camiseta azul. Na frente de todos eles aparece Léia Batista, escritora das peças, usando um longo vestido verde. Ela está com os braços abertos e um sorriso no rosto. 

Referências: 

DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO. Origem da palavra arte. Disponível em: https://www.dicionarioetimologico.com.br/arte/. Acesso em: 21 jun. 2022.

ORIGEM DA PALAVRA. TEATRO [Edição 69]. Disponível em: https://origemdapalavra.com.br/artigo/teatro/. Acesso em: 21 jun. 2022.

AIDAR, Laura. História do teatro. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/historia-do-teatro/. Acesso em: 21 jun. 2022.

AIDAR, Laura. História do Teatro no Brasil. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/historia-do-teatro-no-brasil/. Acesso em: 21 jun. 2022.

ALEXANDRE, Luci. Entrevista concedida à Laiara Serafim. Araranguá, 17 jun. 2022

BATISTA, Léia.  Entrevista concedida à Laiara Serafim. Araranguá, 17 jun. 2022

 

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O Gênero Terror: Por que o medo atrai público e por que gostamos de sentir medo?

20/06/2022 15:19

Manoela Beatriz dos Santos Raymundo,
Bolsista PET-Letras
Letras Inglês

Você já se perguntou o por que o medo atrai tanto público? Então, vamos conversar um pouco sobre isso. O gênero terror sempre foi um atrativo para muitos, que foi por séculos se modificando e enriquecendo obras literárias, cinematográficas e afins. Entretanto, muitos ainda confundem o gênero terror com o horror. Por mais que andem juntos em certas obras, o terror não implica necessariamente o sobrenatural ou o irreal, como é costumeiro do horror, por exemplo Frankenstein de Mary Shelley

Fonte: Imagem da Internet*

O terror, mesmo que muitas vezes associado ao horror, não fica para trás quanto à questão de aterrorizar o público. São muitas as ferramentas usadas para causar medo. O detalhamento exagerado, seja de locais ou de emoções, usado muito por Edgar Allan Poe em suas obras traz uma sensação sufocante ao leitor, as descrições psicológicas que beiram a insanidade de cada narrador apresentado por Poe traz desconforto, sendo um dos principais recursos usado por ele.

Se opondo ao detalhamento exagerado de Poe, temos outra ferramenta muito usada: a falta dele. Alguns escritores acreditam que o desconhecido é o maior medo do homem, e isso é muito visto em “Caixa de Pássaros” de Josh Malerman, em que a agonia e a ansiedade vem juntas com o medo ao presenciarmos o “monstro” do livro. Sem ter descrição de como a criatura é, a imaginação do próprio leitor o condena, pois o maior medo que alguém pode sentir é aquilo que você mesmo imagina ser assustador.

Fonte: Imagem da Internet**

Mas afinal, por que sentimos medo? E por que, mesmo sendo considerado uma sensação ruim, gostamos de gêneros como o terror e o horror? O medo é uma reação desencadeada pelo sentimento de perigo, seja real ou imaginário. Essa reação nos leva a um estado de adrenalina, fazendo com que o corpo libere endorfina (substância ligada também ao prazer). Então, assim como existem pessoas que gostam da adrenalina na prática esportes de risco, há também aqueles que gostam da adrenalina decorrente do sentir medo, seja assistindo um filme, lendo um livro, ouvindo uma música ou analisando uma pintura ou desenho. Esse desconforto gera medo, desencadeando a adrenalina do corpo e nos fazendo sentir prazer em sentir medo.

É interessante pensar como somos atraídos pelo medo e pelo desconhecido. Talvez um dos motivos de autores como Stephen King, Joe Hill e Neil Gaiman serem tão populares nos dias de hoje, séries como Stranger Things, Supernatural, American Horror Story e A Maldição da Residência Hill bombarem tanto, é o fato de estarem trazendo o gênero terror para além do público que normalmente se atrai ao gênero. O terror vem crescendo, e junto dele, mais e mais, recursos para se causar medo vem sendo usados. Agora me diga, o que te causa medo?

Descrição 01*: Desenho em fundo branco de um corvo pousado em cima de um crânio humano, ambos olhando levemente para cima. Há uma assinatura no canto inferior direito do desenho.

Descrição 02*: Capa do livro “Caixa de Pássaros” de Josh Malerman. Temos um fundo em tons de cinza com o título “Caixa de Pássaros” no centro, com a letra “O” representando uma lua e dois pássaros voando da esquerda para a direita por cima da letra. No topo da capa está escrito: “Um livro que deve ser lido de uma vez só. Ninguém havia escrito uma história de terror como essa antes – Hugh Howey, Autor de Silo.” Logo abaixo do título está escrito: Não abra os olhos, em fonte grande. E na base da capa, está o nome do autor: Josh Malerman

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A importância da construção identitária: relatos de uma migrante nortista

08/06/2022 14:32

Franciane Rodrigues,
Bolsista PET-Letras
Letras Libras

Nortista, nascida e criada em Macapá, capital do estado do Amapá, localizada no extremo norte do país. Como muitos outros acadêmicos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) também me afastei do meu local de conforto — lar, familiares e amigos — em busca do futuro promissor: estudar em uma universidade de renome, morar em uma cidade com mais segurança, educação, saúde e com diversas oportunidades de crescimento profissional e acadêmico. 

Fonte: Imagem de arquivo pessoal*

Em processos de mudanças geográficas temos em mente que existirão desafios, porém, na ansiedade e inquietação das transformações, minha maior preocupação foi focar no custo de vida, encontrar um lugar para morar, conseguir emprego e tratar das demais questões relacionadas à minha estadia em Florianópolis. 

Sempre soube que eu precisava de coragem, que nessa trajetória poderia enfrentar o racismo e a xenofobia por ser uma mulher retinta, nortista, com traços físicos que ressaltam minha ancestralidade, minha descendência indígena. Quando residente em Macapá, nunca parei para pensar sobre minha forma de ser em relação a aspectos identitários, para me analisar como integrante de um determinado grupo no que se refere a todas essas características e vivências que me cercam e me fazem ser quem sou.

O fato é que todos possuem sua identidade cultural. Os elementos vivenciados, nossas realidades, nos caracterizam, simbolizam e representam. Tais elementos são constituintes da construção identitária de um grupo e dos indivíduos inseridos nele, também podem ser considerados uma espécie de “sentimento de pertencimento” (OLIVEIRA, 2011, p. 139).

É importante entender que cada pessoa possui a sua “auto identidade” que se refere ao entendimento que cada um desenvolve sobre si mesmo ao decorrer da vida. A “auto identidade” realça as diferenças e suas construções através do processo psicossocial de reconhecimento próprio (OLIVEIRA, 2011, p. 157). Portanto, as identidades estão diretamente ligadas às nossas experiências de vida, localização geográfica, manifestações culturais e interação social. 

Meu desenvolvimento em Macapá foi maravilhoso, repleto de vivências culturais. Porém, também com desafios que me fizeram querer mudar, pois, apesar de bela e acolhedora, Macapá também tem seus pontos negativos, como qualquer outra capital. A cidade possui o segundo pior índice de educação sendo o pior entre as capitais do país, e lidera o ranking de cidades com o pior saneamento básico, o nono pior índice em segurança, sendo o terceiro pior entre as capitais. Todas essas vivências fazem parte de quem sou, das bandeiras que levanto em prol do meu povo, das lutas que enfrentei como nortista macapaense e que compõem a minha atual identidade. 

Por outro lado, temos muitos aspectos positivos também. Não deixo de falar das comidas do norte — como o vatapá, o tacacá, a maniçoba, o tucupi e o famoso açaí com peixe, sempre presentes na mesa de minha família —, da temperatura sempre alta, que faz com que seja impossível usar roupa de frio, das redes atadas em todos os quartos da casa, das palavras cotidianamente usadas por nós — como, por exemplo, carapanã, e égua, entre outras que nós sempre reconhecemos —, dos passeios em família na orla do Rio Amazonas, dos banhos de rios nos balneários, aos finais de semana, com músicas regionais de Zé Miguel, Amadeu Cavalcante e Melody (representantes do estilo musical do norte do país). 

Fonte: Imagem de arquivo pessoal**

Todas essas vivências, que são parte do povo macapaense, contribuíram para a minha formação identitária, que até então era desconhecida por mim. Entretanto, todas essas vivências me foram retiradas quando me mudei para o Sul do país, onde as manifestações culturais e diversas outras vivências são completamente diferentes daquelas que vivenciei durante todo meu desenvolvimento no norte do país.

Assim, após me lançar nesse ato de coragem e atravessar o país sozinha em busca das minhas realizações pessoais foi que entendi a importância da minha construção identitária, a importância de me enxergar, de me aceitar e de me posicionar como nortista.  Algumas vezes, meu “sentimento de pertencimento” foi desestabilizado e, até mesmo, cheguei a me invalidar e inferiorizar por me sentir diferente dentro do contexto em que, atualmente, estou inserida. 

Como mulher retinta e com traços indígenas ressaltados, cheguei a pensar que se eu me encaixasse na estética “branca” poderia ser mais desejada, mais aceita, e não apenas vista como “exótica”, como já fui literalmente denominada. Considerei que eu deveria aprender a me vestir, a me portar e a falar como “eles” para que eu fosse vista como “igual”; que meu conhecimento não era algo relevante e agregador para meu novo contexto. Deste modo, minha autoestima física e intelectual foram abaladas. Embora sempre tenha sentido orgulho de minhas raízes, era como se eu precisasse me “disfarçar”. Tudo isso, me fez recuperar e valorizar a minha identidade.

E quem eu sou é o que eu vivi, são os grupos sociais com quem tive trocas culturais, são os diálogos e as vivências que desenvolvi na minha terra. Quem eu sou e de onde eu vim é o que eu vivo. Somos inteiramente indivíduos e intrinsecamente seres sociais. E nossas identidades vivem em constante mudança. São nos momentos de crise, de instabilidade, de insegurança que as identidades culturais, preferencialmente,  manifestam-se e se afirmam (SANTOS, 2011, p. 146). Em meio a essa crise, precisei passar pelo exercício de me enxergar, de entender que, para ter segurança e me empoderar, eu teria que ter uma boa relação comigo mesma e iniciar isso pela valorização da minha identidade cultural e auto identidade, assumindo o  compromisso comigo mesma de ser quem sou. 

Todo esse processo de mudança, intensificado pelo choque cultural, fez com que o desenvolvimento pessoal e a construção identitária, com todos os seus detalhes e sutilezas, se tornassem elementos fundamentais de meu posicionamento no mundo e de minha compreensão e análise dos fenômenos socioculturais. O fato é que, se enxergamos a cultura como dinâmica e, por sua vez, mutável, não estável, também entenderemos que cada grupo e seus integrantes não assumem sentidos estáticos e idênticos. Portanto, fortalecer as raízes culturais do meu eu nortista, intensificar meu compromisso e processo de reafirmação é fundamental. E tudo que sou, deixo de ser e me torno se mistura às novas vivências culturais que venho tendo no sul, já que meu processo de construção identitária é contínuo e permanente. 

Descrição de imagem*: fotografia em preto e branco de uma moça sentada de costas em um balanço na beira de um rio.  A direita da imagem, aparece uma ponte alta sobre o rio Mazagão, a maré está baixa. Ao fundo, é possível identificar algumas árvores sob o céu repleto de nuvens. No centro da imagem, em primeiro plano, a menina se embala no balanço com os braços levantados em direção ao horizonte na beira do rio.

Descrição de imagens**: Da esquerda para direita. Na primeira linha: Imagem 01: fotografia colorida de várias pupunhas juntas, fruto nativo da região amazônica. O fruto é redondo, pequeno, em tons de laranja, estão presas em vários cabinhos. Imagem 02: Fotografia colorida, de ângulo superior. Sobre uma mesa de madeira rústica estão postas três tigelas de açaí e farinha de mandioca, acompanhado de um prato com peixe frito, salada e arroz. No canto direito superior da imagem uma mão segura a primeira tigela de cor laranja, no canto direito inferior outra mão segura a segunda tigela de cor azul pastel, no lado esquerdo a terceira tigela de cor azul vibrante. No canto esquerdo da imagem uma mão segura um pedaço de peixe frito. Na linha de baixo: Imagem 03: fotografia colorida em ângulo superior, no centro da imagem sobre folhas de samambaia uma mão segura um cupuaçu, fruta típica da região amazônica. A fruta  tem formato oval e está  aberta ao meio, com casca de cor marrom e grossa, no interior do fruto a poupa branca. As folhas das samambaias ao fundo são verdes escuras. Imagem 04: Fotografia colorida do rio Pedreira com árvores ao fundo, localizada na comunidade Santo Antônio da Pedreira no Amapá. No canto superior direito, há uma folhagem de árvore em tom verde escuro, observa-se o céu coberto de nuvens brancas, o dia está claro e ensolarado.  No rio, as árvores espelhadas nas águas.

Referências

MACHADO, Laura. Macapá lidera ranking de cidades com o pior saneamento básico: ‘Uso água do vizinho’, diz moradora que paga R$ 50 para acessar poço. 2022. Disponível em: https://g1.globo.com/ap/amapa/noticia/2022/03/23/macapa-lidera-ranking-de-cidades-com-o-pior-saneamento-basico-uso-agua-do-vizinho-diz-moradora-que-paga-r-50-para-acessar-poco.ghtml. Acesso em: 6 jun. 2022.

OLIVEIRA, Patrícia de. Narrativas identitárias e construções subjetivas: considerações teóricas e análise empírica de identificações entre jovens das classes populares. Civitas: Revista de Ciências Sociais, [S. l.], v. 11, n. 1, p. 156-171, 13 jul. 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/civitas/a/NPwmvnLkY7whpyMGK944cph/?lang=pt#. Acesso em: 6 jun. 2022.

SANTOS, Luciano dos. As Identidades Culturais: proposições conceituais e teóricas. Rascunhos Culturais, Coxim, v. 2, n. 4, p. 141-157, jul./dez. 2011. Disponível em: http://revistarascunhos.sites.ufms.br/files/2012/07/4ed_artigo_9.pdf. Acesso em: 6 jun. 2022.

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Vicissitudes do amor em “Sonho de uma noite de verão” de Shakespeare

02/06/2022 09:54

Pedro Pedrollo dos Santos,
Bolsista PET-Letras
Letras Espanhol

Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. […] Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. Clarice Lispector, Felicidade Clandestina.

William Shakespeare, nascido em Stratford-upon-Avon, Inglaterra, em 23 de abril de 1564, é um dos escritores mais proeminentes de sua época. Ele ganhou visibilidade e projeção mundial com suas obras, destacando-se na produção de tragédia, drama, comédia, poesia e romance. O autor viveu boa parte de sua vida na Inglaterra governada pela rainha Elisabete I, que reinou de 1558 a 1603. Nesse período, teria surgido e se destacado o que se chamou de teatro elisabetano — um relevante marco da história do teatro no ocidente (ANDRADE, 2013).

Considerado poeta, dramaturgo e ator, Shakespeare produziu em inglês tornando-se uma inspiração e influência a diversos poetas e dramaturgos que o sucederam e, devido a isso, tem sido visto como o grande poeta nacional da Inglaterra e como o poeta de “Bardo do Avon”. A produção de Shakespeare engloba mais de 35 peças, quatro poemas, sendo dois deles poemas narrativos, e 154 sonetos escritos na época do renascimento, período marcado pelo antropocentrismo, ou seja, pela valorização do homem e da razão em oposição à fé religiosa. Além disso, “eram grandes as dificuldades criadas pelas forças conservadoras [de sua época] para impedir mudanças significativas no plano das instituições políticas, das relações socioeconômicas, da cultura e dos costumes” (KONDER, 2007, p. 115).

Sonho de uma noite de verão — em inglês, A midsummer night’s dream — de Shakespeare não tem uma data exata de publicação. Entretanto, por suas características acredita-se que tenha sido escrita/encenada no período de 1595-1596, junto a outras obras do autor, como Romeu e Julieta — em inglês, Romeo and Juliet. Considera-se que essa obra representa bem o estilo de um conjunto de obras de Shakespeare, sendo uma das mais encenadas e conhecidas em todo o mundo, segundo Rafaelli (2016). A obra segue a perspectiva de comédia ao apresentar uma trama de amores “não correspondidos” que vivenciam circunstâncias adversas, mas divertidas, as quais são provocadas pela ação de algumas criaturas mágicas que, ao final dos acontecimentos, levam as personagens a acreditaram que o que teriam vivenciado não passaria de um sonho.

Em Sonho de Uma Noite de Verão, a mitologia grega está presente […] Essa peça é uma das comédias de maior aceitação popular de Shakespeare […] Sonho de Uma Noite de Verão nos mostra uma forte ligação com a cultura popular, além de misturar elementos reais e fantásticos que proporcionam um clima de magia e encantamento […] é uma peça que fala sobre “sonhos”, possui um caráter que transcende a lógica formal, de cunho mágico e sensual, além de trazer consigo uma grande bagagem cultural, social e histórica. (ANDRADE, 2013, p. 31-32).

Em síntese, pode-se dizer que o enredo se desenvolve a partir de uma conexão amorosa entre as personagens principais, a saber, Helena que ama Demétrio, que ama Hérmia, que ama Lisandro, que também a ama (esse seria único casal que se amaria reciprocamente). Todavia, o casal possui um impedimento, já que o pai de Hérmia quer que ela se case com Demétrio. Essa situação a leva a decidir fugir com Lisandro. Assim, os dois — Lisandro e Hérmia —, marcam um encontro. Ao irem para seu encontro no bosque vivenciam uma situação inesperada, visto que o local é habitado por criaturas mágicas — duendes, elfos e fadas — que empregam encantos para “brincar” com os casais apaixonados. Helena e Demétrio também vão para o mesmo bosque. E é, exatamente, nesse contexto, de uma tensa noite de verão, que toda a trama se desenrola. Ao final da trama, Oberon — o rei das fadas — desfaz muitos dos encantos e as personagens despertam, ao amanhecer, sendo levados a acreditar que tudo teria sido mero sonho, ainda que não entendessem bem o porquê estariam ali.

A imagem retrata uma cena colorida e com muitos seres mágicos de várias espécies e tamanhos, espalhados entre flores, troncos e árvores, e nas mais diversas posições e composições ao redor do Rei e da Rainha das fadas: Oberon e Titânia. Oberon tem pele clara, uma roupa transparente dourada sobre o corpo, com colares e braceletes dourados, há um véu de seda salmão, enrolado no pescoço e voando como uma capa. Em sua mão direita, segura duas lanças prateadas. Ele olha para Titânia, à sua direita. Titânia tem o corpo esbelto, branco e reluzente, envolto em um véu transparente e brilhante da cintura para baixo, cabelos loiros, asas brancas brilhantes, pés descalços. Ela tem os olhos voltados para Oberon à sua esquerda.
Fonte: Pintura de Joseph Noel Panton “A contenda de Oberon e Titânia”*

Pode-se notar que as obras shakespearianas são bem densas e interagem com diversas fontes utilizadas por Shakespeare. A intertextualidade está bem presente em suas obras, o que pode ser notado nas muitas menções e referências a outras produções. Segundo Rafaelli,

Sonho de uma noite de verão mantém, inclusive, uma curiosa relação com Romeu e Julieta, pois parece emular de forma cômica o tema da tragédia na representação burlesca da peça dentro da peça denominada A mais lamentável comédia e a morte mais cruel de Píramo e Tisbe (The most lamentable comedy and most cruel death of Pyramus and Thisbe), encenada por uma trupe de palhaços. O leitmotiv é o mesmo: amantes que sofrem a interdição familiar amam-se em segredo, mas por causa de um desencontro chegam a um fim trágico, com a amante matando-se sobre o corpo do amado morto; contudo, o tom de uma e outra é totalmente diverso, como se Shakespeare estivesse se autorreferenciando ao trocar a máscara da tragédia pela da comédia. (2016, p. 7-8, grifos meus).

Tanto em Sonho de uma noite de verão quanto em Romeu e Julieta a temática do amor parece ser o eixo estruturante da trama. Konder destaca que “em muitas de suas obras [de Shakespeare], ele (ou algum de seus personagens) fala do amor” (2007, p. 116). Considerando a temática do amor em Shakespeare e o modo como ela é abordada, vemos que o autor está preocupado em demonstrar diversos aspectos do amor, tanto nas personagens que amam de forma distinta quanto nas diferentes ações que esse amor provoca nelas e a partir delas.

Como em Romeu e Julieta: “E o que o amor pode fazer, ele precisa ousar fazê-lo”. Ou em Vênus e Adônis: “Vai, aprende; a lição é fácil. / E uma vez aprendida, ela nunca se esquece”. E em Henrique V: “Ame um soldado, como eu, e você estará amando um rei. Diga com franqueza, o que você acha desse meu amor?”. Ou ainda em Trabalhos de amor perdidos: “O amor é cheio de caprichos extravagantes; é arteiro como uma criança”. E também em Sonho de uma noite de verão: “Hermia: Quanto mais eu o detesto, mais ele me persegue. Helena: Quanto mais eu o amo, mais ele me detesta”. E, por fim, Como quiserem: “No amor, o sangue enlouquece, a vontade faz concessões” e “Posso lhe garantir: o amor é pura loucura. Merece, como os loucos em geral, o chicote e a solitária”. (KONDER, 2007, p. 116).

Nas peças de Shakespeare “os problemas da vida amorosa ganham uma expressão mais forte” (KONDER, 2007, p. 116). Além disso, esse amor se desenvolve em um contexto social, político e cultural específico, o qual tem impactos e influências no modo como esse amor será ou não desencadeado.

Um dos aspectos do amor, representados em Sonho de uma noite de verão, é os desencontros de diversas ordens, as irrealizações e as muitas adversidades que o amar provoca. Como exemplo, poderíamos dizer que o amor em suas muitas facetas se faz presente podendo ser realidade ou fruto da imaginação, humano ou mágico, podendo se findar em tragédia, como no caso de Romeu e Julieta, ou mesmo em comédia, como se passa com as personagens de Sonho de uma noite de verão.

Nesse sentido, as vicissitudes do amor — seus decursos e insucessos — poderiam ser colocadas como uma perspectiva de análise da obra, visto que o amor idealizado, projetado, desejado, não correspondido ou mesmo proibido caracteriza as personagens e estimula sua ação na trama, tornando-as vítimas de seu próprio amor.

Por fim, vemos que os amores e os afetos humanos estão representados em algumas obras shakespearianas, e inclusive em Sonho de uma noite de verão, demonstrando que as vicissitudes do amor exigem a ação efetiva das personagens que buscam seus espaços no amar, tomam iniciativas, fazem opções e são, muitas vezes, surpreendidas pelos acasos do amar, ilustrados, no caso da obra analisada, na figura dos seres mágicos que interferem no que poderia ser o processo natural dos desdobramentos ou não do amor.

Que tal refletir um pouco mais sobre o amor e suas vicissitudes lendo as obras de William Shakespeare!

*Descrição da Imagem: A imagem retrata uma cena colorida e com muitos seres mágicos de várias espécies e tamanhos, espalhados entre flores, troncos e árvores, e nas mais diversas posições e composições ao redor do Rei e da Rainha das fadas: Oberon e Titânia. Oberon tem pele clara, uma roupa transparente dourada sobre o corpo, com colares e braceletes dourados, há um véu de seda salmão, enrolado no pescoço e voando como uma capa. Em sua mão direita, segura duas lanças prateadas. Ele olha para Titânia, à sua direita. Titânia tem o corpo esbelto, branco e reluzente, envolto em um véu transparente e brilhante da cintura para baixo, cabelos loiros, asas brancas brilhantes, pés descalços. Ela tem os olhos voltados para Oberon à sua esquerda.

Obra de referência:

SHAKESPEARE, William. Sonho de uma noite de verão. Trad. Rafael Raffaelli. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2016. 199 p. (Edição bilíngue: português e inglês)

Referências Bibliográficas:

RAFAELLI, Rafael. Introdução. In: SHAKESPEARE, William. Sonho de uma noite de verão. Trad. Rafael Raffaelli. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2016. pp. 7-11. (Edição bilíngue: português e inglês).

ANDRADE, Mislainy Patrícia de. Procedimentos tradutórios e dimensões da figura feminina em Sonho de Uma Noite de Verão, de William Shakespeare. 2013. 117 f. Dissertação (Mestrado). Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Departamento de Letras, Goiânia, 2013.

KONDER, Leandro. Shakespeare e as turbulências do amor. In: KONDER, Leandro. Sobre o amor. São Paulo: Boitempo, 2007. pp. 115-120. (Marxismo e literatura)

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O pichador de setenta anos: as cores de uma cidade.

24/05/2022 22:04

Angelo Perusso,
Bolsista PET-Letras
Letras Português

Em Porto Alegre, a 470 quilômetros ao sul de Florianópolis, é absolutamente impossível passar por qualquer rua da região central da cidade sem se deparar com um adesivo ou uma pichação que diga “Toniolo”. Geralmente, os adesivos vem acompanhados de alguma crítica política, mas, às vezes, levam só o nome de seu autor. O problema de contar essa história é que quem não vive em Porto Alegre não faz ideia da proporção. Os adesivos preenchem o chão do centro da cidade, não é possível dar 10 passos sem cruzar com um deles. Pessoas da minha geração, a dos anos 2000, e até da geração de meus irmãos, dos anos 1990, raramente sabem a verdadeira história por trás desses adesivos. Lá em casa já se teorizou de tudo, mas nunca chegamos perto do que era de verdade.

Aos 76 anos, Sérgio José Toniolo, um senhorzinho muito carismático, cola de 400 a 500 adesivos por dia pelas ruas de Porto Alegre, e afirma que, quando mais novo, chegou a colar 1800 por dia. O senhorzinho vai andando pela rua, abaixa, cola o adesivo, então passa o pé em cima para firmar bem e, assim que está bem colado, parte para o próximo. Mas o que há de mais interessante nisso tudo é a história que o levou a desenvolver esse curioso hábito. Toniolo era policial civil no período ditatorial. Revoltado contra o sistema, como ainda o é, escrevia crônicas em que reivindicava direitos ao povo, colocava o dedo na ferida do governo. Tanto os jornais quanto a própria polícia proibiam suas crônicas de serem publicadas, mas foi só em 1982, quando Toniolo tentou se lançar como deputado estadual e teve sua candidatura embargada ilegalmente, que o homem de 37 anos começou a pichar.

Fonte: Imagem da Internet

Em 1984, Toniolo teve a ideia que fez com que seu nome ficasse conhecido em Porto Alegre. Enviou para todos os jornais da cidade o aviso de que no dia 17 de janeiro, às 17h horas, ele picharia o Palácio Piratini, que é a sede do governo do estado do Rio Grande do Sul. No dia anterior, Toniolo deu até entrevista para uma rádio, que também entrevistou o chefe da Casa Militar, que afirmou que estariam esperando Toniolo “de braços abertos”. Ninguém, absolutamente ninguém na cidade inteira, apostava que ele fosse conseguir. Chegado o dia, Toniolo ficou dentro da igreja que fica ao lado do Palácio, e um minuto antes das cinco o homem saiu da igreja e foi em direção ao palácio, chegando ao cordão de policiais da Brigada Militar, ele disse “boa tarde, irmãos”, e os policiais caíram no seu disfarce de padre. A TV, os porto-alegrenses viram a parede do Palácio Piratini amanhecer com uma pichação que dizia “TONIOL” porque na hora de fazer o “O” ele foi descoberto e detido pela polícia, mas aí, a desmoralização já estava completa, e também estava completo o grande feito de Toniolo: a primeira pichação com hora marcada da história.

Hoje, 40 anos após começar, Toniolo afirma: “Meu protesto não adianta nada, eu não convenço ninguém.”. De acordo com o pichador, protesto que tem impacto verdadeiros são aqueles com cartazes e gritos, que lotam as ruas, mas cada um tem que fazer alguma coisa, e esse é o jeito dele de participar. Além disso, afirma ele, se parar agora, vai engordar. A maioria dos cidadãos de Porto Alegre nem sabem que Toniolo existe, mas todos por lá conhecem seu nome.

Fonte: O próprio Toniolo, em Entrevista ao jornalista em quadrinhos Pablito Aguiar.

*Descrição da imagem: A foto mostra um gramado verde, sobre o qual há uma escultura, que é composta de colunas dispostas na diagonal para a esquerda, de cor cinza, que atravessam um disco largo e marrom. No centro do disco marrom há uma pichação, em cor branca, que contém o seguinte texto: TONIOLO. Mais ao fundo, vemos algumas árvores, o céu cinzento e prédios no canto superior direito.

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Dia das Mães: origens e reflexões sobre essa comemoração

10/05/2022 17:23

Emmanuele Amaral Santos,
Bolsista PET-Letras
Letras Português

Oficializado, em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, o segundo domingo de maio foi “[…] consagrado às mães, em comemoração aos sentimentos e virtudes que o amor materno concorre para despertar e desenvolver no coração humano […]”, como declara o texto da lei que regulamenta o feriado de Dia das Mães no Brasil.

Tanto a escolha da data quanto a ideia de homenagear os “sentimentos e virtudes” da maternidade surgiram politicamente a partir de Anna Jarvis, uma mulher estadunidense que se baseou nas vivências religiosas e pessoais da própria mãe, como uma oração apresentada para Anna ainda na infância e participação em um grupo de mulheres que se dedicaram aos cuidados de soldados no contexto da Guerra Civil Americana.

O Dia das Mães foi oficializado em todos os estados americanos apenas em 1911, e, pouco tempo depois, a própria Anna Jarvis chegou criticar o propósito comercial que a data rapidamente ganhou nos EUA, assunto discutido pela pesquisadora Katharine Lane Antolini  na obra Memorializing Motherhood: Anna Jarvis and the Struggle for Control of Mother’s Day (“Em Memória da Maternidade: Anna Jarvis e a Luta pelo Controle do Dia das Mães”). Além de trazer os comentários de Anna sobre os chamados “aproveitadores do comércio” como as floriculturas que aumentam seus preços na época do Dia das Mães, o livro também reflete sobre o processo histórico de idealização da data e as suas repercussões contraditórias que levaram Anna a pedir desculpas por ter “criado” a comemoração.

Fonte: Recorte de uma imagem da internet*

É interessante refletir sobre como esse modelo estadunidense de feriado foi importado para o Brasil, tanto na perspectiva religiosa quanto na repercussão mercadológica. Na propaganda da década de 1960/70 que ilustra este texto, por exemplo, percebe-se o uso das rosas como imagem da maternidade remetendo à Maria na simbologia cristã e à ideia de presente como já ressaltou a própria Anna Jarvis.

Atualmente, outros desdobramentos comerciais dessa celebração no Brasil podem ser percebidos em propagandas que ora reforçam o estereótipo da mãe como guardiã e cuidadora do lar para a venda de eletrodomésticos ora refletem superficialmente sobre contextos contemporâneos de independência financeira feminina e maternidade solo. Deste modo, o segundo domingo de maio ainda parece enfrentar uma dualidade mercadológica e cristã semelhante a que marca a sua origem, o que demonstra que a luta pelo controle do Dia das Mães ainda está em aberto.

 

 

*Descrição de imagem: Reprodução digital de uma propaganda em preto e branco sobre o Dia das Mães. À direita da imagem, uma mulher sorridente com cabelos ondulados levantando uma criança de colo acima de sua cabeça, olhando para ela como se estivesse brincando. A criança usa um macacão e segura um pequeno pano. No canto superior esquerdo, está escrito “O Dia das Mães…” em fonte cursiva e sublinhado e, logo abaixo, em outra tipografia: “Dia de gratidão”, na primeira linha, e “dos filhos…”, na seguinte. No canto inferior esquerdo, aparece o desenho de um ramo com rosas e folhas.

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O retorno ao presencial: uma expectativa realizada

27/04/2022 16:11

Débora Klug,
Bolsista PET-Letras
Letras Português

Parte deste texto foi desenvolvida em um carro em movimento. Em uma viagem de 850 quilômetros pela frente, e um destino muito esperado: Florianópolis. O momento chegou, com dois anos de atraso, mas chegou, estamos finalmente retornando às atividades presenciais. Muita coisa aconteceu nesses anos, e trazemos as cicatrizes provindas das crises que vivenciamos. Foram dois anos que, para mim, pareceram cinco; mas ao mesmo tempo tenho a impressão de que foi um período em suspenso, aéreo, inacessível e inconcluso. O que fazer com as coisas que eu vi, ouvi e vivi na pandemia, mas que parecem tão distantes? E o que fazer com o que estamos vivendo agora — o retorno ao presencial —, mas que também parece tão distante?

Alguns acreditam que a pandemia causou uma individualização maior de nós mesmos, o “eu” foi forçado a se separar de “outros”, e deixou essa marca de distanciamento, que foi, obrigatoriamente, físico, mas também psíquico. E, agora, o iminente parece distante.

Fonte: Imagem da Internet*

Eu — assim como muitos outros estudantes — ingressei na universidade na modalidade remota. Nunca havia vivido a dinâmica presencial, não tinha ideia de como ela funciona. Era difícil imaginar a presencialidade sem ser tomada por ansiedades e expectativas. Por outro lado, algo que a pandemia nos obrigou foi a lidar com expectativas frustradas. Uma vida toda sonhando com o ingresso na universidade, precedido da tensão do pré-vestibular, com as promessas de compensação repousando nos momentos do primeiro encontro com os colegas, das comemorações da calourada, da participação ativa nas dinâmicas acadêmicas. Entretanto, a realidade foi uma tela, foi virtual. Adaptações foram necessárias, e, apesar disso, ainda havia uma empolgação com o início da vida universitária. Contudo, a modalidade remota logo saturou e levou à exaustão. O tempo em excesso nas telas foi desgastante, cansou os olhos e cansou a mente. A capacidade de concentração foi se fragmentando, e realizar obrigações simples passou a ser um desafio torturante.

Por diversas vezes eu pensei em desistir dos estudos. Conversando com os professores nas aulas, percebi a preocupação deles quanto ao aumento da evasão nas disciplinas. Vivemos momentos difíceis. O que me motivou a continuar foi a expectativa do retorno ao presencial. E cá estamos nós. É empolgante e energizante, ao mesmo tempo em que há uma sensação de estranhamento. Ter contato com o espaço físico da universidade é muito diferente, em comparação com a prisão dos escritórios, quartos, salas etc. em que fomos obrigados a permanecer trabalhando nesses últimos dois anos. Para mim é revigorante o ato de caminhar nos corredores espaçados, ou entre as calçadas envoltas de grama e árvores. Trocar de sala e transitar geograficamente entre espaços, e não virtualmente; através de passos e não de cliques.

Conhecer, finalmente, as pessoas que estiveram comigo nesses momentos remotos, vê-las fisicamente, corporalmente, é algo que parecia ser inimaginável. Mas agora é real, realmente real, e não virtual. É emocionante.

Por fim, desejo a todos, todas e todes um ótimo retorno, nunca esquecendo, claro, das medidas de proteção!

*Descrição da imagem: Uma foto da entrada principal do campus da UFSC em Florianópolis, no bairro Trindade. A rua centralizada na imagem possui uma fila de carros estacionados à esquerda. Na direita é possível ver algumas pessoas transitando na calçada. Em volta há grama e árvores, e no último plano da imagem é possível ver parte de um morro. No foco principal da foto há duas colunas, uma do lado direito e outra do lado esquerdo da rua, que sustentam uma placa grande e retangular azul, onde se lê em letras brancas “Bem-vindo à Universidade Federal de Santa Catarina”.

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A linguagem cinematográfica influencia a legendagem?

04/04/2022 18:42

Mirelle Araujo Ehrardt,
Bolsista PET-Letras
Letras Alemão

Na atualidade, após a revolução tecnológica que democratizou o acesso às tecnologias e intensificou os processos de globalização e internacionalização, convivemos diariamente com conteúdos audiovisuais, os quais são, muitas vezes, produzidos em países hegemônicos, política e economicamente, que exportam e difundem entre os demais suas produções culturais e seu modo de pensar e de viver.

No cinema, nas séries, nos filmes, na TV, no YouTube, nos videogames — os conteúdos audiovisuais estão em todos os lugares e alcançam um amplo público, o qual necessita da ação tradutória, seja por meio da dublagem, seja por meio das legendas, para compreender a mensagem transmitida. A tradução audiovisual, nesse sentido, torna-se cada vez mais necessária, além de ser, segundo Jorge Díaz Cintas (2004 apud MARTINEZ, 2007), a mais importante, em termos numéricos, visto que esta atinge um público superior ao de outras formas de tradução.

Fonte: SAP*

Principalmente no que se refere à legendagem interlingual, a tradução audiovisual apresenta peculiaridades e desafios próprios, os quais também a diferenciam das demais formas de tradução. Ao envolver diferentes canais semióticos, apresentando tanto os códigos visuais e os códigos acústicos verbais da obra original somados aos códigos verbais escritos, a legendagem aparece, segundo Henrik Gottlieb (1994 apud MARTINEZ, 2007), como uma forma de tradução diagonal. Nessa forma de tradução, o discurso oral é transmitido para a língua-alvo no formato de um discurso escrito, como em uma diagonal, ao mesmo tempo em que se mantém o texto oral na língua estrangeira, ao contrário do que ocorre em traduções lineares como na interpretação (majoritariamente, texto oral ➝ texto oral) ou na tradução literária (majoritariamente, texto escrito ➝ texto escrito). As diferenças inerentes às duas modalidades textuais tornam-se ainda mais explícitas para o espectador na obra legendada, o qual, ao desconhecer as peculiaridades da legendagem, pode sentir um estranhamento com relação às legendas, principalmente quando compreende o idioma falado.

Fora isso, é função do tradutor legendista considerar, entre outros fatores, a velocidade média de leitura, o tempo de entrada e de permanência da legenda em tela, as limitações de espaço, o número limitado de caracteres por linha, de modo a não causar um esforço cognitivo exagerado do espectador para a leitura das legendas, gerando desconforto. Ao levar isso em consideração, fica clara a impossibilidade de transcrição completa do roteiro original na legendagem, o que impõe a necessidade do tradutor legendista encontrar soluções adequadas, utilizando-se, além da criatividade, de um amplo conhecimento tanto da língua estrangeira, quanto da língua materna, no caso da legendagem intralingual.

O conhecimento teórico e linguístico, nesse sentido, são fundamentais, assim como a competência tradutória, entretanto, outro tipo de conhecimento também é primordial para a profissão do tradutor legendista: a compreensão da linguagem cinematográfica. Tal forma de linguagem, a qual surge com o advento do cinema e se expande para outros meios, como por exemplo jogos, propagandas, entre outros, aparece na transformação artística do mundo visível, da imagem do mundo real, “que resulta de  uma  intenção  de  comunicar  um  significado” (AUMONT, 1995, p. 165 apud SILVA, 2012, p. 221). À vista disso, o filme, como um sistema de imagens, tem em si um objetivo narrativo, ou seja, dependendo da forma de narração escolhida, a organização desse sistema de imagens se configura de uma forma determinada, com o objetivo de transmitir um dado significado.

Como exemplo dessa forma de linguagem visual, podemos citar o close, momento em que o rosto do personagem ocupa quase todo o campo visual da tela, fazendo com que o espectador direcione toda a sua atenção para a parte do corpo humano que mais expressa sentimentos, com a intenção clara de levá-lo ao campo emotivo, fazê-lo entender os sentimentos do personagem. Outro exemplo, são as mudanças de enquadramento em técnicas conhecidas como Plongée e Contra-Plongée: no Plongée, palavra francesa que significa mergulho, em que a imagem, geralmente um personagem, é apresentada ao espectador de cima para baixo, ilustrando sua posição de inferioridade; já no Contra-Plongée, ocorre o inverso, a câmera mostra o objeto de baixo para cima, criando um efeito de superioridade e poder.

Por conseguinte, para que a legendagem consiga transmitir para o espectador a mensagem contida na obra original, o tradutor legendista deve estar atento, não só aos desafios linguísticos que sempre se apresentam na tradução, mas também aos significados transmitidos pelos códigos visuais, artisticamente contidos na linguagem cinematográfica. Assim, é notável a complexidade do trabalho do tradutor legendista, profissão que, assim como a dos demais tradutores, merece mais visibilidade e consideração.

Referências

AUMONT, J. et al. A esttica do filme. Campinas: Papirus, 1995.

DÍAZ CINTAS, J. Subtitling: the long journey to academic acknowledgement. In: The Journal of Specialized Translation, n. 1, p. 50-69, 2004.

GOTTLIEB, H. Subtitling: Diagonal translation. In: Perspectives: studies in translatology, v. 2, Dinamarca: Museum Tusculanum Press, p. 101-121, 1994.

MARTINEZ, S. L. Tradução para legendas: uma proposta para a formação de profissionais. Orientador: Márcia do Amaral Peixoto Martins – 2007. Dissertação (Mestrado em Letras) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.  Disponível em: https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/colecao.php?strSecao=resultado&nrSeq=10689@1. Acesso em: 25 mar. 2022.

SILVA, Odair J. M. Das origens do cinema às teorias da linguagem cinematográfica: um breve panorama sobre os modos de abordagem do texto fílmico. Visualidades, Goiânia, v. 7, n. 2, 2012. DOI: 10.5216/vis.v7i2.18196. Disponível em: https://www.revistas.ufg.br/VISUAL/article/view/18196. Acesso em: 25 mar. 2022.

*Descrição da Imagem: a imagem é uma fotografia, em que se vê uma mulher de costas para a câmera, sentada em frente a um computador. A mulher, que se encontra no canto esquerdo da imagem, usa uma blusa vermelha e um fone de ouvido. É possível ver uma tira na parte de trás de seu pescoço, a qual pertence provavelmente a seu crachá. Ela tem o cabelo castanho claro curto e liso. Não é possível ver seu rosto. Na tela do computador a sua frente, vê-se a cena de um programa em que cinco personagens, duas mulheres e três homens, com roupas coloridas, conversam. Na parte inferior da tela, é possível ver a legenda em inglês da cena, a seguir: “And this twit refuses to give me my coat.”. Ao lado, na imagem, é possível ver um pedaço de outro computador, em que se encontra um programa de legendagem.

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