O amor, o nunca e a arquibancada

19/09/2022 08:26

 Por Angelo Perusso

PET-Letras

Letras Português

 

Todos nós já usamos a palavra “nunca” em tom de banalidade. Quem nunca (olha ela aí de novo) disse que nunca mais beberia depois de um porre, e duas sextas-feiras depois estava com a garrafa de bebida nas mãos novamente? Ou então disse que nunca mais voltaria com o ex, ou que não mais ficaria com alguém, e cedeu às tentações meses ou até dias depois de dizer “nunca mais”? Fazemos isso porque não sabemos o significado real dessa palavra, e só há uma coisa no mundo que pode nos ensinar: a morte. Todo “nunca” dito é vazio, um mero modo de dizer; mas quando alguém que amamos se vai, esse é um “nunca” definitivo. O abraço, o beijo, a piada fora de hora, o bilhete carinhoso, o cuidado, nunca mais. A morte é como o passado, onde cada momento vivido se torna um eterno “nunca”. Você pode beber novamente aquela Coca-Cola gelada que salvou seu ânimo numa tarde quente, mas nunca mais vai sentir a mesma sensação daquela vez, não do mesmo jeito. Assim como você pode recriar o seu primeiro beijo trinta anos depois a fim de reviver a paixão, mas, por mais incrível que seja, o primeiro beijo, nunca mais. A vida mora no instante que precede o “nunca”.

Porém o amor tem o dom de lembrar. Nossa memória, por mais frágil e abstrata que seja, é o melhor meio de manter vivos aqueles que se foram, de reviver na mente o “nunca”. O casal Mumtaz Amca e Ihsan Teyze são a prova disso. Esse casal de velhinhos era o casal mais apaixonado pelo futebol e pelo Fenerbahçe  que já viveu. Os pombinhos nunca perderam um jogo em casa do clube do coração. De mãos dadas, fizesse chuva ou sol, frio ou calor, tio Mumtaz e tia Ihsan estariam nas arquibancadas, nas poltronas 32 e 33,  recebendo doses semanais de vida através do amor que partilhavam um pelo outro e pelo jogo de bola. O mundo todo se apaixonou pela linda história de amor dos dois, e um dia, a foto que flagrou tantos sorrisos e abraços, flagrou tia Ihsan sozinha na arquibancada, com a poltrona vazia ao seu lado. Mumtaz havia se tornado “nunca”. Mas tia Ihsan, sábia que era, foi ao estádio em todos os jogos como sempre fez, na poltrona que sempre sentou, como uma forma de mostrar ao amor de sua vida que ela não deixaria de preservar o amor por ele. A cada gol do Fenerbahce, Mumtaz e Ihsan viveram mais um pouco.

Descrição da Imagem: A foto, na parte de cima, retrata Ihsan e Mumtaz, um casal de idosos. Mumtaz, à direita, é um senhor de mais ou menos oitenta anos, com o rosto cheio de rugas e sorridente, vestido com uma boina preta e a camiseta do Fenerbahce, que tem listras verticais azuis e amarelas; do seu lado direito está Ihsan, senhora de cabelos curtos e loiros e rosto sorridente e enrugado, da mesma faixa de idade, vestindo a camiseta igual a de Mumtaz. Na parte de baixo da imagem está a arquibancada azul do estádio do clube, em que, na poltrona 32 e 33, está um pôster com a foto descrita na parte de cima.

Em 2020, tia Ihsan foi encontrar seu amor no “nunca”, e de onde quer que isso fique, os dois comemorarão milhões de gols do Fenerbahçe. Quando Ihsan deixou a segunda poltrona vazia, foi a vez do clube, que recebeu seu amor por tanto tempo, retribuir o carinho. O Fenerbahçe retirou as poltronas 32 e 33 das arquibancadas e colocou um banner com a imagem dos dois, de mãos dadas, sorrindo na arquibancada turca, com os dizeres: “Nunca esqueceremos vocês. Ihsan e Mumtaz são a lembrança, para todo fã de futebol, que a arquibancada é o lugar do amor e da vida”.

Pessoas surdas influenciadoras da comunidade LGBTQIA+

01/09/2022 17:05

Gustavo da Silva Flores,
Estagiário de Acessibilidade
Letras-Libras

Talvez você ainda não saiba, mas junho é conhecido como o “Mês do Orgulho”, um momento especial para dar ainda mais visibilidade à luta da comunidade LGBTQIA + por igualdade e respeito. Mas por que Junho? Essa história começa na madrugada do dia 28 de junho de 1969. Neste dia, aconteceu a chamada “Revolta de Stonewall”, em Nova York, quando um grupo de pessoas decidiu enfrentar os policiais que costumavam entrar em bares LGBT para prender o público que ali frequentava, mesmo que não estivessem violando a lei.

Episódios como este nunca mais deveriam se repetir, mas infelizmente ainda vemos casos parecidos nas notícias. Desconstruir qualquer resquício de preconceito na nossa sociedade é uma pauta urgente! Se o nosso objetivo é um futuro mais justo e livre de desigualdade, precisamos de representatividade em todos os âmbitos, hoje. Desde o trabalho até o conteúdo que você consome na internet, é necessário garantir a diversidade e aprender com quem realmente entende do assunto.

O significado da sigla LGBTQIA+ :

 

L = Lésbicas: São mulheres que sentem atração afetiva/sexual pelo mesmo gênero, ou seja, outras mulheres.
G = Gays: São homens que sentem atração afetiva/sexual pelo mesmo gênero, ou seja, outros homens.
B = Bissexuais: Diz respeito aos homens e mulheres que sentem atração afetivo/sexual pelos gêneros masculino e feminino. Ainda segundo o manifesto, a bissexualidade não tem relação direta com poligamia, promiscuidade, infidelidade ou comportamento sexual inseguro. Esses comportamentos podem ser tidos por quaisquer pessoas, de quaisquer orientações sexuais.
T = Transgênero: Diferentemente das letras anteriores, o T não se refere a uma orientação sexual, mas a identidades de gênero. Também chamadas de “pessoas trans”, elas podem ser transgênero (homem ou mulher), travesti (identidade feminina) ou pessoa não-binária, que se compreende além da divisão “homem e mulher”.
Q = Queer: Pessoas com o gênero “Queer” são aquelas que transitam entre as noções de gênero, como é o caso das drag queens. A teoria queer defende que a orientação sexual e identidade de gênero não são resultado da funcionalidade biológica, mas de uma construção social.
I = Intersexo: A pessoa intersexo está entre o feminino e o masculino. As suas combinações biológicas e desenvolvimento corporal — cromossomos, genitais, hormônios etc. — não se enquadram na norma binária (masculino ou feminino).
A = Assexual: Assexuais não sentem atração sexual por outras pessoas, independente do gênero. Existem diferentes níveis de assexualidade e é comum essas pessoas não verem as relações sexuais humanas como prioridade.
+: O símbolo de “ mais ” no final da sigla aparece para incluir outras identidades de gênero e orientações sexuais que não se encaixam no padrão cis-heteronormativo, mas que não aparecem em destaque antes do símbolo.

Fonte: Fundo Brasil

Assim como vivemos em uma sociedade diversa, existe uma grande diversidade dentro da comunidade surda e pessoas LGBTQIA + também fazem parte dela. Muitas são profissionais de diversas áreas e estão compartilhando seu conhecimento nas redes sociais, em Libras e em português, com propriedade e lugar de fala. Pensando nisso e em celebração a essa data, vamos compartilhar alguns perfis de pessoas surdas influenciadoras e que se identificam como LGBTQIA +, para você seguir, aprender muito e compartilhar com seus amigos e amigas. Vamos expandir essa rede de representatividade, educação, respeito e amor!

1- Andreia de Oliveira (@falamesmaoideia):

Para começar, ela compartilha conteúdos muito legais sobre feminismo, comunidade surda e LGBTQIA +, além de vídeos superengraçados com a avózinha dela!

Fonte: foto de arquivo pessoal.

2- Kitana Dreams (@kitanadreams):

É drag queen, YouTuber, influenciadora e maquiadora. Ela produz um conteúdo super educativo e divertido de acompanhar, além de dar ótimas dicas!

Fonte: Imagem da Internet

3- Leo Castilho (@leocastilho):

É slammer, influenciador, ator, performer e produtor. Ele cria conteúdos super relevantes sobre a cultura e comunidade surda de um jeito descontraído e legal de acompanhar.

Fonte: Imagem da Internet

4- Léo Viturinno (@leoviturinno):

É Youtuber, professor universitário, tem seu próprio curso de Libras e ainda compartilha um monte de conteúdo bacana e educativo sobre variados temas.

Fonte: Imagem da Internet

5- Stefany Kreds (@stefanykrebs11): 

Uma super atleta de Futsal e Futebol! Já conquistou muitas medalhas em vários campeonatos diferentes.

Fonte: Imagem da Internet

6- Gabriel Isaac (@isflocos):

É criador de conteúdo digital, ator, influenciador e tradutor. Ele fala tudo sobre o mundo surdo, cultura LGBT, conteúdos leves e divertidos! Garantimos que você vai curtir!

Fonte: Imagem da Internet

7- Yanna Porcino (@meussinaisexpressam):

Por último, mas não menos importante…. Se o que você curte é um bom convite à reflexão, conheça a Yanna, que é poetisa, tradutora e consultora de Libras. Ela produz um conteúdo encantador sobre autoconhecimento, cultura surda e LGBTQIA +, representatividade e muito mais! Tudo isso de uma forma super fluida. Uma artista nota mil!

Fonte: Imagem da Internet

Vale ressaltar que a diversidade deve ser celebrada e valorizada todos os meses do ano, não apenas em Junho. Lembre-se sempre que ela está presente em diferentes grupos e isso não seria diferente dentro da comunidade surda

 

Descrição de imagens:

Imagem 01: Foto de duas pessoas abraçadas em uma festa, lado esquerdo um homem de camiseta bege segurando um copo e lado direito uma mulher branca de cabelo cacheado castanho escuro e com as pontas azul. Ela está sorrindo e veste uma jaqueta azul e óculos de grau. Ao fundo há pessoas e luzes de festa.

Imagem 02: Foto de uma drag queen sorridente. Ela tem um cabelo ondulado lilás médio jogado para a direita e à esquerda tem uma flor laranja. A maquiagem é rosa pink e ela usa um vestido laranja com flores. O fundo da foto é levemente rosado.

Imagem 03: Foto de um homem de cabelos curtos e cacheados, ele está vestindo uma regata cinza e usa uma bandana branca no pescoço. Os braços estão erguidos com as mãos atrás da cabeça e ao fundo dele tem o desenho de um arco-íris e quadros sobrepostos a uma parede cor de rosa.

Imagem 04: Foto de um homem moreno com cabelo curto cacheado, de barba curta e usando brinco de argola pequeno na orelha esquerda. Ele veste uma camiseta vermelha e ao fundo desfocado uma prateleira com livros e parede com quadros.

Imagem 05: Foto de uma mulher sorridente, com cabelo todo preso em um rabo de cavalo, ela está com as mãos abertas atrás das orelhas e veste uma camiseta verde do Palmeiras. Ao fundo está a arquibancada do estádio.

Imagem 06: Foto de um homem sorridente, com o rosto levemente virado para a esquerda, ele usa óculos de grau redondo com armação preta, brinco pequeno, cabelo liso ondulado, barba, casaco branco e atrás dele uma parede amarela.

Imagem 07: Foto de uma mulher negra com cabelo estilo black. Ela está com as mãos tocando levemente o pescoço. Ao fundo um muro amarelo e na frente dela há um pequeno ramo de flores amarelas.

Tags: comunicaPET

Você já ouviu falar sobre o paradoxo dos gêmeos?

26/08/2022 18:04

Andres Garces,
Bolsista PET Letras
Letras Libras

Uma das questões mais interessantes — que entendi há alguns meses— é que o tempo não é linear, ou seja, ela pode variar para cada objeto no espaço. E, dependendo da velocidade do objeto ou da pessoa, o tempo pode ir mais lento ou mais rápido. 

Isto me deixou pirado… e me fez refletir sobre essa questão e suas possíveis implicações! Por isso, decidi compartilhar algumas ideias relacionadas a esse paradoxo dos gêmeos que envolve noções de relatividade, tempo, espaço, velocidade etc.

Pode-se dizer que tudo começou com a equação feita pelo famoso físico alemão Albert Einstein, a relatividade especial. De maneira bem simplificada, ela fala que a velocidade depende da percepção de cada pessoa. Pense se você não vivenciou a seguinte experiência:  você está sentado na janela do ônibus — ou de outro veículo — com outro paralelamente alinhado e, de repente, sente que esse outro ônibus começa a se mover, mas, em seguida, você se dá conta de que era o seu ônibus que estava se movendo e que o outro estava parado? Pois é, algo normal. Duas pessoas que estão com uma velocidade constante podem dizer que não estão se movendo, mas é tudo ao seu redor o que está se movendo. É por essa mesma razão que quando você se deita na cama antes de ir dormir, sente que está quieto(a) e não que está viajando a 1.666 km/h que é a velocidade de rotação da terra.

Contudo, sempre existe um “porém”. E a única velocidade absoluta no vácuo ante qualquer pessoa ou objeto, independente do seu movimento, é a velocidade da luz. Mesmo se estivermos viajando a 460 km/h em um trem na China e emitirmos uma luz estando nele, o lógico seria que a velocidade dessa luz se acrescentasse a velocidade do trem, certo? Mas com a luz não funciona assim, se nós medirmos a velocidade da luz nesse momento — VT (velocidade do trem) e C (velocidade da luz)— o resultado vai ser sempre o mesmo: VT + C = C. Isto traz consequências muito doidas, do meu ponto de vista, pois significa que o tempo não é um relógio que faz tick-tock para todos no universo, já que o tempo varia dependendo da velocidade da pessoa ou objeto. Então, a velocidade cria algo que se chama: dilatação temporária, quer dizer, quanto mais rápido viajar uma pessoa, mais lento vai passar o tempo para ela. 

Fonte: Imagem extraída de vídeo do YouTube**

Após essas reflexões, agora chegaremos  neste paradoxo criado a partir das descobertas anteriores.

Marcos e Polo são gêmeos, por motivos desconhecidos, Marcos decidiu fazer uma viagem para o espaço deixando o seu irmão Polo na terra. Marcos com ajuda de alguns engenheiros construiu uma nave que consegue chegar até 90% da velocidade da luz, e nela fez um trajeto de ida e volta. No momento de a nave do Marcos pousar de volta na terra, perguntamos para o Polo quanto tempo ele ficou afastado do seu irmão e ele responde que a viagem do Marcos foi de 5 anos, mas o Marcos no seu relógio e calendário, fala que foram alguns meses menos que isso. 

Concluindo, o Marcos volta sendo mais jovem do que seu irmão gêmeo Polo.

Fonte: Imagem da Internet**

O aprendizado da nova percepção do tempo não-linear, dá-nos entender o pouco que conhecemos do universo e das leis que nos governam. Ele é gigante, massivo… e nós, realmente mínimos, quase insignificantes. Contudo, o nosso ego é maior do que nossas próprias calças e a destruição do nosso planeta será a confirmação disso.

*Descrição da imagem 1: Fundo embaçado com céu azul e montanhas rochosas. Na frente, tem um desenho de um trem vermelho e cinza com duas carroças. Na caixa da fumaça do trem, está sentado um homem branco, cabelo curto, de camisa cinza, jeans e sapatos azuis. Na frente dele, há uma pedra cinza marcando seu trajeto  com uma linha vermelha que vem desde a cabeça do homem até o chão. De letras amarelas, acima das carroças: Vtren, com uma seta amarela abaixo. Na parte superior: Vpedra=Vtren+Vlanz; na parte superior direita, acima da trajetória da pedra: Vlanz, com uma seta amarela abaixo.

**Descrição da imagem 2: Desenho de céu azul, do lado esquerdo tem um foguete novo de cor branca apontando para o o céu, diante dele, dois homens jovens da mesma estatura, com cabelos castanhos. O homem da esquerda está vestido de astronauta, roupas de cor azul e vermelha, o outro homem está de terno marrom e estão apertando as mãos. Do lado direito da imagem, tem um foguete deitado e ainda com fumaça. Mais adiante dele, estão os mesmos homens, só que o astronauta com o cabelo um pouco mais claro e o outro homem de terno bem mais velho, careca e grisalho.

Tags: comunicaPET

As facetas da polarização política no Brasil: estamos em perigo?

18/08/2022 21:49

Mariane Pordeus,
Estagiária de Acessibilidade
Letras-Libras

A poucos meses das eleições de 2022, o Brasil já contabiliza 26 assassinatos por motivação política ou pelo exercício da atividade pública — de acordo com as pesquisas do jornal “O Estado de São Paulo”, o Estadão. Desde o ano de 2018, os homicídios por causa ideológica partidária têm se tornado mais frequentes.

Pode-se considerar que homicídios que tem por finalidade eliminar o adversário por divergências militantes opostas são o sintoma da política no Brasil contemporâneo, onde a população é categorizada como parte de um grupo extremo ou de outro. Para entender esse cenário, é importante contextualizar uma questão indispensável: o Brasil possuiria uma “democracia imperfeita”, ou seja, demonstra algumas fragilidades em comparação a outros países — esse índice provém da revista The Economist, publicação inglesa que avalia as democracias de 167 países desde o ano de 2006, com base em algumas regras internacionais.

Sendo assim, é comum que pessoas com posicionamentos políticos distintos apresentem comportamentos, cada vez mais, desiguais e intolerantes, configurando um posicionamento de extrema polarização política, em que há o esvaziamento ou silenciamento do centro para que os opostos se expandam e se fortaleçam. Trata-se de uma mudança de perspectiva, na qual o outro não é visto como adversário, mas como inimigo que deve ser exterminado. A postura de ódio citada no início, desta publicação, é uma demonstração real de como a convicção extremista pode ser fatal para a nossa “democracia imperfeita”.

Fonte: Imagem da Internet 01*

O extremismo pode ser seriamente arriscado, afinal se você está em extrema direita ou extrema esquerda, eventualmente pode ser que o diálogo não ocorra. Se não há debate, e apenas imposições antagônicas ao outro polo, é a morte das ideias! Assim, o diálogo não é incentivado e as vozes do meio são abafadas pelos gritos extremos, onde os beneficiados são os próprios políticos, partidos e grupos que se nutrem da intolerância para receber apoio crescente a sua vertente, afinal é mais fácil aceitar uma medida extrema quando se têm um inimigo que precisa ser eliminado a qualquer custo. A problemática dessa face extremista estaria na falsa democracia, visto que esta polarização desviaria a problemática real para enfatizar questões de cunho moral, em que propostas concretas não são viabilizadas, mas, sim, discussões redundantes acerca de temáticas relacionadas a costumes e comportamentos.

É importante destacar que, nós humanos, temos uma tendência a supervalorizar informações que corroboram as nossas convicções, enquanto aquelas que as contrapõem são descartadas facilmente; por isso, ainda hoje, muitos se prendem a desinformação veiculada por Fake News, porque é naturalmente confortável manter o posicionamento em vez de revê-lo. Há também o fator do pertencimento. Quando olhamos para o passado podemos perceber que somos seres coletivos e que buscamos fazer parte de um grupo, sempre nos adaptando ao meio e às circunstâncias necessárias à sobrevivência. Muitas vezes, isso implicava em renunciar à própria individualidade para compor um grupo com regras, crenças e valores.

Contrapondo à nossa realidade atual, este fenômeno seria perceptível em grupos sociais, onde há os polarizadores extremistas e aqueles que são voluntariamente subordinados com o único objetivo de manter o próprio prazer de fazer parte de algo, mesmo que não compreendam ou concordem plenamente. Pode-se considerar que essa face conivente não argumenta com o adversário, apenas o adjetiva, ou seja, em vez de fundamentar argumentações válidas, é mais fácil, odiosamente, adjetivar o outro como o “fascista”, “machista”, “comunista”, enfim, pouco se pensa em situações assim.

Em contrapartida às faces insalubres da polarização, é substancial evidenciarmos que há algo benéfico nisso tudo, tendo em vista que a divisão da sociedade em polos distintos faria parte do desenvolvimento da democracia. Desde que haja uma busca por soluções para os problemas recorrentes da sociedade, sem se deixar inflamar pelo discurso de ódio generalista, com respeito a democracia e diálogo em prol do bem comum, então está tudo bem! Dessa maneira, pessoas racionais e diversas que conseguem ver positividade na pluralidade social, onde pessoas com ideias diferentes não são inimigos, desarmam a armadilha extremista e por meio da face dialógica, escuta honesta e paciente conseguem negociar seus conflitos. Trata-se de uma sociedade humana, que apresenta necessidades contraditórias que precisam ser resolvidas, para isto a democracia se apresenta como campo aberto ao confronto e debate saudáveis.

Fonte: Imagem da Internet 02

É importante ter em mente que ambos os lados precisam buscar soluções para a sociedade e isso precisa ser o foco. É preciso considerar que a verdade não está necessariamente nos extremos, pois precisa ser construída coletivamente partindo-se de pontos de vista diferentes. Essa capacidade de ser, pensar e agir coletivamente é o diferencial que temos como seres comunicativos e políticos, ainda que todos inconclusos. Então, quando for tomar partido, lembre-se: os polos podem até ser distintos, mas o Brasil é uma nação só e no final quem paga a conta somos nós mesmos.

Nesse período eleitoral, busque uma postura crítica diante dos planos de governo apresentados, pondere as pautas e avalie o cenário político brasileiro dos últimos anos. Assim, quando a polarização se colocar como ferramenta de mera segregação, posicione-se em prol de uma sociedade democrática!

Descrição da imagem 01*: No centro superior da imagem o título “polarização política” escrito em preto destacado com grifo amarelo, abaixo uma charge com pessoas conversando. A cabeça das pessoas é de cubo mágico embaralhado.

Descrição da imagem 02*: Desenho de duas pessoas conversando calmamente, a pessoa da esquerda é roxa e seu balão de fala tem na cor laranja, a pessoa da esquerda é amarela e o seu balão de fala tem fundo azul, cada balão de fala tem desenhos diferentes como uma lâmpada, seta, rabiscos, interrogação também com cores diferentes. No espaço em comum entre os dois balões de fala há desenhos em roxo com fundo branco.

Sugestões de leitura:

NOSSA, Leonencio. Brasil tem 26 assassinatos por intolerância política em 2022. UOL, 2022. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2022/07/18/mortes-por-intolerancia-politica-no-brasil-ja-superam-as-de-4-eleicoes-nacionais.htm> Acesso em: 6 de agosto de 2022.

A new low for global democracy. THE ECONOMIST, 2022. Disponível em: <https://www.economist.com/graphic-detail/2022/02/09/a-new-low-for-global-democracy> Acesso em: 6 de agosto de 2022.

KNIESS, Andressa Butture. A polarização política no Brasil. IBPAD, 2022. Disponível em: <https://ibpad.com.br/politica/a-polarizacao-politica-no-brasil/> Acesso em: 6 de agosto de 2022.

Polarização política no Brasil. DESPOLARIZE, 2022. Disponível em: <https://despolarize.org.br/despolarize-divulga-pesquisa-polarizacao-politica-no-brasil/> Acesso em: 6 de agosto de 2022.

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A desvalorização da literatura nacional e o incentivo à pirataria: você faz parte disso?

04/08/2022 11:28

Vitória Cristina Amancio,
Estagiária de Acessibilidade
Letras-Libras

No Brasil, a taxa de consumidores de livros é equivalente a 52% da população, porém a maior parte da literatura consumida é estrangeira, e é muito comum que, ao elogiar um livro nacional, use-se a frase “tão bom que nem parece brasileiro”. A supervalorização da literatura de fora, tem resultado em uma grande desvalorização de livros do território nacional, impactando diretamente no trabalho dos escritores.

Fonte: Imagem da Internet*

Atualmente, existem vários empecilhos para publicar um livro no Brasil. O preço para publicação de um livro tem aumentado muito nos últimos vinte anos, fazendo com que essa se torne menos acessível e que os formatos ditos “tradicionais” de publicação se tornem restritos a escritores já conhecidos, ou a pessoas que já possuem um público para quem irão vender facilmente seu trabalho. 

O custo do material e a dificuldade de acesso às editoras têm impulsionado os escritores a procurar por uma nova forma de publicação em um formato mais acessível tanto para o escritor, quanto para o consumidor da literatura, os “e-books”. 

Estes são livros em formatos digitais, na maioria das vezes disponíveis em lojas como Amazon, Google Books, Apple Books e outras plataformas digitais. Depois de adquirido, pode ser lido em qualquer lugar em formato digital, como por exemplo o seu celular. Os aplicativos para leitura são gratuitos e muitos possuem a função de áudio para que possam ser acessíveis e lidos a qualquer momento. Os preços dos “e-books” costumam ser muito mais acessíveis do que os livros físicos, 

Escritores tendem a gastar muito na divulgação de seus livros para conseguirem um retorno financeiro e reconhecimento, seja o seu livro no formato físico ou digital, e sua forma de publicação independente ou por uma editora.  Ainda assim, sofrem frequentes perdas ao terem seus livros sendo pirateados na internet.

Confira o relato da autora Priscila Gonçalves, escritora e editora de livros nacionais:

CLIQUE AQUI PARA ASSISTIR AO VÍDEO**

 (CLIQUE AQUI PARA JANELA COM TILS  (CLIQUE AQUI PARA LEGENDA EM PT)

Veja bem, a cultura que se propaga tem sido a de que a literatura estrangeira é superior e melhor do que a nacional. Propaga-se que a literatura nacional não conseguirá ser tão boa quanto a de fora, logo absorvemos a ideia de que esta é muito cara, mesmo que esteja com o mesmo preço de um livro internacional, e assim acabamos sendo dirigidos à um site ilegal para cosumirmos esses livros de forma gratuita.

Sem saber das dificuldades que os escritores tiveram, acabamos, muitas vezes, tirando o seu “ganha pão” e estimulamos essa triste cultura que diz que “viver de arte é impossível”. 

E você, já pensou em como desapegar dessa cultura? 

Quais das nossas simples atitudes diárias têm contribuído para a desvalorização da arte brasileira? 

 

Sugestão de Leitura

GRUENFELD, THAIS. A PUBLICAÇÃO INDEPENDENTE FEMININA: DOS DESAFIOS DE MERCADO AO PRECONCEITO TEMÁTICO. Orientador: Prof. Dr. Emerson Brito. 2022. 40 f. TCC(graduação) (Bacharel em Jornalismo) – Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, São Paulo, 2022.

*Foto descrição: fotografia de uma estante branca, com livros coloridos. Entre eles, uma mão segura um aparelho de leitura digital onde encontra-se escrito “E-Reader”.

** Foto descrição: Mulher branca, de cabelos pretos com mechas coloridas em roxo, com o fundo de uma estante repleta de livros. Ao seu lado há uma janela de Libras para garantia de direitos linguísticos da comunidade surda.

O ideal de feminilidade em “A Falência”, de Júlia Lopes de Almeida 

20/07/2022 10:38

Sofia da Silva Quarezemin,
Bolsista PET-Letras
Letras Português

No romance “A falência” (1901), Júlia Lopes de Almeida conduz a história de uma família da elite cafeeira do Rio de Janeiro, entre 1891 e 1893, documentando, com seu narrar realista, diversos aspectos da sociedade da ainda jovem República. O enredo se desenvolve principalmente no núcleo da família de Francisco Teodoro, um português que migrou para o Brasil e construiu seu negócio com a prosperidade do Brasil no mercado cafeeiro. O empresário casou-se com Camila, uma moça de família de poucos bens, com quem teve 4 filhos: Mário, único filho e primogênito; Ruth, adolescente apaixonada pelas artes; e as gêmeas Rachel e Lia, ainda crianças. 

Como eram comuns as relações extraconjugais, Camila mantém um relacionamento de longa data com o médico, amigo da família, Gervásio, em quem Francisco Teodoro deposita total confiança. Em um golpe especulativo, o patriarca da família Teodoro perde toda sua fortuna e se suicida, levando Camila, suas filhas e as agregadas da família a buscarem formas de superar o sofrimento da perda e a escassez.

Fonte: Imagem da Internet *

Nesse cenário, as principais problemáticas abordadas na história da protagonista são as demandas femininas. Aqui, quero pontuar algumas das implicações relacionadas ao papel do gênero, analisando a personagem Camila. Contudo, o enredo aborda também as tensões raciais da época, além da relação entre trabalho e dignidade.

O que acompanha Camila, ao longo de toda a trama, é o seu relacionamento com o Dr. Gervásio, enquanto está casada com Francisco Teodoro. Nessa obra, a autora expõe a contradição da opinião popular sobre o adultério, denunciando a diferença de julgamento sobre desvios de moral cometidos por homens e mulheres. Para os maridos, há sempre uma justificativa, seja ela pautada na ideia de que a infidelidade faz parte da natureza masculina, seja pautada no fato de que o homem é o maior detentor de poder dentro do matrimônio e pode quebrar o contrato social do casamento sem sofrer as consequências disso:

Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros corpos… e aí estava como dele só se dizia bem! Ele amara outras pela volúpia, pelo pecado, pelo crime; ela só se desviara para um homem, depois de lutas redentoras; e porque fora arrastada nessa fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, aí estava boca do filho a dizer-lhe amarguras […].  (ALMEIDA, 1901, s.p.).

Com isso, Camila justifica sua infidelidade com a de Francisco, o que, segundo Zahidé Muzart, em Um romance emblemático de Júlia Lopes de Almeida: crise e queda de um sistema, é a atitude da autora em olhar para o adultério com compreensão, uma vez que “a personagem trai o marido, mas é igualmente traída não só pelo cônjuge, como pelo próprio amante […]. E o mais grave, [o amante] separou-se da esposa por ela lhe ter sido infiel.” (MUZART, 2014, p. 140)

Além do âmbito do adultério, no que toca à relação da protagonista com Gervásio, podemos perceber uma tentativa do médico em aplicar sobre ela uma espécie de segunda socialização feminina, afirmando que ela se tornou mais bela e sofisticada com o passar dos anos em que manteve contato com ele (ALMEIDA, 1901, s.p.). Ele atua sobre a protagonista de forma a moldar o seu comportamento, julgando-a como inadequada, sem bom gosto ou bons modos, ensinando-a sobre arte e etiqueta. 

Melina Bassoli, no texto O que é socialização?, defende que “nenhum desses interesses são de nascença. Todos eles são aprendidos, são estimulados ou desestimulados, encorajados ou reprimidos” (BASSOLI, 2021, s.p.). Nesse sentido, Camila passa por um segundo momento de assimilação da feminilidade promovido por Gervásio, mais sofisticado e adequado ao ambiente do que o primeiro processo de socialização feminina, experienciado na infância, que a deveria a preparar para cumprir o papel esperado para uma esposa da elite brasileira no final do século XIX.

Muito do que é experienciado por Camila também se baseia na sua beleza, motivo pelo qual Francisco se casou com ela e pelo qual ela é cobiçada por outros homens. Em momentos de tensão ou sofrimento, a personagem busca validação por meio de sua aparência, como quando teve seu relacionamento extraconjugal desmascarado e questionou suas caçulas: “E se eu fosse feia… bem feia… se… por exemplo, eu tivesse bexigas e ficasse marcada, sem olhos, com a pele repuxada… ainda assim vocês gostariam de mim?” (ALMEIDA, 1901, s.p.). Em um outro momento, Camila enxerga seu corpo no espelho como um “milagre da juventude”, motivo pelo qual ela teme o envelhecimento. Para a protagonista, perder esse precioso bem, a beleza, significa deixar de ter valor para o mundo, para as pessoas com quem convive e para si mesma. Sobre essa mistificação da beleza como validadora da existência da mulher na sociedade, Naomi Wolf, no best-seller O mito da beleza, argumenta:

O envelhecimento na mulher é “feio” porque as mulheres adquirem poder com o passar do tempo e porque os elos entre as gerações de mulheres devem sempre ser rompidos. As mulheres mais velhas temem as jovens, as jovens temem as velhas, e o mito da beleza mutila o curso da vida de todas. E o que é mais instigante, a nossa identidade deve ter como base a nossa “beleza”, de tal forma que permaneçamos vulneráveis à aprovação externa. (WOLF, 1992, p.17).

Essa suscetibilidade à aprovação externa causa uma desconexão da personagem com suas qualidades intelectuais, psicológicas e sociais, transformando-a em refém da própria aparência. Isso fica mais evidente quando ela perde o que permitia a manutenção da sua beleza e dos seus luxos em geral: o dinheiro. A falência cai sobre a família como um choque social, e recai sobre Camila como uma crise da própria imagem. Ela se submete às vontades do filho Mário e busca a salvação em Gervásio porque não consegue encontrar forma de sobreviver à situação por conta própria, uma vez que as únicas coisas que está habituada a fazer são ser bela e amar

Fonte: Imagem da Internet **

Com as demais personagens femininas do conto, Camila, num ímpeto de acabar com a tradição dos homens comandando sua vida e das filhas, decide retomar o ofício que desempenhava antes de se casar com Francisco Teodoro e de ingressar na elite. Nas palavras de Muzart, ela “revê a própria vida, conscientizando-se da realidade e volta-se para a comunidade de mulheres (Nina, Noca, Ruth), traz as gêmeas que foram para a casa da baronesa […] e planeja alfabetizá-las e educá-las, ela mesma” (2014, p. 140).

Esse fortalecimento individual da personagem na conclusão do romance se dá, também, pelo fortalecimento do grupo a que pertence e do qual tira motivações para empreender a tomada de poder sobre sua própria vida. A que nível isso se estende, não nos fica claro, mas nos permite pensar nas intenções da autora em demonstrar e afirmar a educação e o trabalho como via de libertação e independência feminina, olhar esse que perdura na contemporaneidade e que alavancou movimentos organizados de mulheres ao longo do século XX.

Referências

ALMEIDA, J. L. A falência. Leitura realizada no DLNotes. Núcleo de Pesquisa em Informática, Literatura e Linguística: Universidade Federal de Santa Catarina, s.a.

BASSOLI, M. O que é socialização? 2021. Disponível em: <https://medium.com/qg-feminista/o-que-%C3%A9-socializa%C3%A7%C3%A3o-781835d07281#0107> . Acesso em: 10 jul. 2022.

MUZART, Z. L. Um romance emblemático de Júlia Lopes de Almeida: crise e queda de um sistema. Navegações, v. 7, p. 134-141, 2014. Disponível em: <https://doi.org/10.15448/1983-4276.2014.2.21026>. Acesso em: 10 jul. 2022.

WOLF, N. O mito da beleza. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

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* Foto descrição 01: Se trata de uma fotografia antiga, em preto e branco ou sépia, da estação ferroviária do Rio de Janeiro no final do século XIX. A construção é bastante grande, com estilo colonial, e a foto é tirada durante o dia, com diversas pessoas, cavalos e carruagens circulando pelo pátio em frente à estação.

** Foto descrição 02: Fotografia em preto e branco da escritora Júlia Lopes de Almeida, em que ela se encontra sentada em uma cadeira, ao lado de uma mesa, virada para a câmera. Ela é uma mulher branca, tem cabelos longos em um coque, usa um vestido longo e escuro e tem uma expressão facial séria, talvez de desagrado. Sobre a mesa, uma toalha, alguns livros e um vaso com flores. 

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O que eu aprendi com bell hooks

14/07/2022 21:12

Vítor Pluceno Behnck,
Bolsista PET-Letras
Letras – Inglês

Da Pedagogia Engajada ao ensino e aprendizagem sem limites, os catorze ensaios do livro Ensinando a Transgedir, escrito pela norte-americana bell hooks (assim mesmo, em letras minúsculas), apresentam diversos e ricos posicionamentos e relatos acerca da pedagogia crítica. Nesse texto, busco traduzir em palavras alguns dos tantos ensinamentos que esta obra me trouxe — e tentarei demonstrar o porquê acredito que essa seja uma obra indispensável para qualquer educador no século vinte e um.

Primeiramente, é interessante ressaltar como a história pessoal da autora se intersecciona com o ideal norteador de toda sua obra: o pensamento crítico. Um fato marcante, em sua história, é que hooks frequentou a educação básica nos Estados Unidos durante o regime de segregação social, como ela comenta na Introdução de Ensinando a transgredir:

essa transição das queridas escolas exclusivamente negras para escolas brancas onde os alunos negros eram sempre vistos como penetras, como gente que não deveria estar ali, me ensinou a diferença entre a educação como prática da liberdade e a educação que só trabalha para reforçar a dominação. (hooks, 2020, p.12).

Mais tarde, na universidade, hooks relata seu espanto com seus professores reforçando a ideia de que o objetivo principal da educação era aprender obediência e autoridade. A partir dessa experiência avassaladora, a autora começou a escrever seu primeiro livro durante a graduação, o que a levou para a perspectiva da pedagogia engajada e à noção de que havia — e adiciono, ainda há — uma séria crise na Educação.

hooks foi profundamente tocada pelo trabalho de Paulo Freire e Thich Nhat Hanh, que a influenciaram a combater o sistema bancário de educação[1]. Assim, a autora propôs um modelo educacional holístico, considerando que a sala de aula “será também um local de crescimento para o professor, que será fortalecido e capacitado por esse processo” (hooks, 2020, p. 35). Deste modo, ela reforça a ideia da “do-discência” proposta por Freire (2021), em que o professor aprende ao passo que ensina, e os estudantes ensinam ao passo que aprendem.

Como pontuei anteriormente, acredito que a Educação — sobretudo no Brasil — enfrenta uma severa crise. E não se trata de uma crise somente de recursos ou políticas públicas, mas uma crise ideológica. Forças políticas nefastas declaradamente autoritárias minam o sistema educacional já precarizado, impondo perspectivas neoliberais que exacerbam as desigualdades mascaradas pelo discurso simplista e meritocrata.

Portanto, hooks é voz dissidente desse projeto de educação bancário e desigualitário. Entender a educação como prática de liberdade é um passo essencial para a formação de “do-discentes” críticos e engajados com a realidade de seus estudantes, tornando a sala de aula um espaço que acolha os indivíduos em sua totalidade, e não como meros projetos de mão-de-obra qualificada. hooks nos permite transgredir a “coisificação” de toda uma classe que merece ser tratada com boniteza e consciência. Ensinar a transgredir é preciso, e mais do que isso: é cada dia mais urgente.

Fonte: Querido Clássico, 2022.*

[1] “Paulo chamou de “educação bancária” àquela que considerava que “o educador é sempre o que educa, e o educando o que é educado; o educador é o que sabe, e os educandos os que não sabem”; o educador é o que fala, os educandos os que escutam docilmente; os educadores sujeitos, os educandos objetos”. Contrapondo-se à educação bancária, propunha que os educadores fossem humanistas, que empreendessem uma educação problematizadora, revolucionária, que se identificassem com seus educandos. Tudo isso levaria a libertação de ambos” (HADDAD, 2019, p. 95).

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários a prática educativa. 70 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.

HADDAD, Sérgio. O educador: um perfil de Paulo Freire. 1a ed. São Paulo: Todavia, 2019.

hooks, b. Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade. 2a ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017.

*Fotodescrição: imagem de fundo rosa caro com palavras escritas em letras cursivas. No centro, há uma colagem da autora bell hooks, que possui pele negra, cabelo crespo preto e veste uma blusa de manga comprida florida, com a cabeça apoiada em seu queixo. Atrás dela, há asas de borboletas na cor vermelho escuro.

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Trupe da Aurora: a arte como ferramenta de cura

29/06/2022 13:51

Laiara Serafim,
Bolsista PET-Letras
Letras Português

Na canção “Comida”, lançada em 1987, a banda Titãs já cantava que “a gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte”. Originada do latim ars, que significa literalmente “técnica”, “habilidade natural ou adquirida” ou “capacidade de fazer alguma coisa” (Origem da palavra arte, 2016), a palavra arte é multifacetada, desde a “Arte poética” de Aristóteles até seus mais de 25 significados listados no dicionário de português; além de inúmeras outras possíveis combinações na língua. 

No entanto, um fato imutável é de que a arte está presente no mundo desde os tempos mais primordiais da humanidade, tendo os primeiros registros artísticos conhecidos como arte pré-histórica. Desde então, é inegável que a arte tem se tornado uma ferramenta essencial na vida cotidiana. Considerando a arte no campo do teatro, é possível afirmar que sua história teve início na Grécia Antiga, em torno do século VI a.C. Nessa época, eram realizados rituais em louvor ao deus mitológico Dionísio, divindade relacionada à fertilidade, ao vinho e à diversão (Aidar, 2020)

Etimologicamente originado do Grego theatron — literalmente “lugar para olhar”: de theasthai, “olhar”, mais  –tron, sufixo que denota “lugar” — (Teatro, 2014), o teatro estava presente em grandes momentos da história, como os clássicos teatros grego e romano, passando pelo teatro medieval com dramas litúrgicos, as renomadas obras de Shakespeare, o declínio da tragédia clássica e o nascimento drama burguês, e chegando ao Brasil pelo chamado “teatro de catequese” (Aidar, 2020), até se tornar o teatro que conhecemos hoje — com obras-primas nacionais como “o auto da compadecida” de Ariano Suassuna — e atingir os novos meios de comunicação: cinema, rádio, televisão e redes sociais. 

De qualquer modo, para além de todos esses grandes momentos históricos, de artistas brilhantes e de peças atemporais, o teatro vive em nosso meio. Nas brincadeiras de criança, nos sonhos de jovens, na criatividade de adultos ou na vitalidade de idosos. 

Fonte: arquivo pessoal*

E, em meio a esse complexo artístico que o teatro engloba, foi a iniciativa de  Léia Batista — escritora, dramaturga, atriz, professora de teatro e mulher muito apaixonada pela arte — de fomentar a cultura em Araranguá, uma cidade no sul do estado de Santa Catarina, com menos de 70 mil habitantes, que me fez enxergar a necessidade de falar sobre o tema.  Trabalhando inicialmente com o teatro infantil, Léia teve sua primeira peça, O cantador de histórias – uma volta em mil mundos, encenada nas escolas. Segundo a própria escritora, “o teatro, além de uma ferramenta de cura, é também uma ferramenta de educação”. E foi com esse pensamento que ela continuou a levar mensagens sobre bullying, sentimentos, amizade e respeito às diferenças para as crianças. Possuindo mais de vinte roteiros no palco, Léia não parou com as peças infantis e decidiu levar a arte para todas as esferas da sociedade, criando, assim, o grupo de teatro Trupe da Aurora, que conta com voluntários de todas as idades, apaixonados pela arte e dispostos a aprender. As aulas de teatro acontecem uma vez por semana. Nelas, Léia propõe dinâmicas de relaxamento, concentração, voz e expressão, nas quais os atores desenvolvem e descobrem inúmeras habilidades. Assim, Léia vai apresentando o roteiro proposto e o adaptando conforme a quantidade de voluntários. 

No último dia cinco de junho, no auditório Plinio Linhares, na cidade de Araranguá, o grupo fez uma apresentação que teve a sua venda de ingressos esgotada. Intitulada “Uma peça não muito íntima”, a comédia, com roteiro escrito por Léia Batista, contou, com muito bom humor, a história da separação mal resolvida de um casal e como duas peças íntimas — uma calcinha vermelha e uma cueca — trouxeram à tona tantas questões de uma família real. 

Fonte: arquivo pessoal**

Trazendo muitas questões importantes, como sexualidade, amizade, relação dos pais com os filhos e, sobretudo, o perdão, a peça contou com dez atores. Luci Alexandre, que interpretou Odette — a ex-esposa que nunca perdoou o ex-marido —, nos conta que os ensaios duraram mais de um ano, tempo aumentado por conta da pandemia. Questionada sobre como o teatro tem impactado a sua vida e como ela percebe essa cura através da arte, Luci Alexandre nos deu o seguinte relato: 

O trabalho da Léia é agregar arte à nossa comunidade, falta incentivo à cultura no nosso país e isso precisa ser feito por conta. Quando estamos nas aulas, fazendo as dinâmicas, estudando o texto, aprendemos a nos autoconhecer. O teatro ajuda no desenvolvimento da memória, melhora a comunicação, tira o medo de nos expressarmos na frente das pessoas. Nós fazemos os exercícios, depois sentamos e discutimos sobre isso. Aprendemos a analisar, ouvir o próximo e desenvolvemos senso crítico também. Somos um grupo unido, a formação de uma nova família.  O mundo é muito individual no dia-a-dia, mas, no teatro, é preciso que o outro vá bem para que você vá bem também e isso nos desperta o sentimento de coletividade, de união. Ficamos felizes com o sucesso do outro. (Alexandre, 2022).

Já em conversa com Léia Batista, a escritora nos deu o seguinte depoimento: 

Estamos curando um paradigma de que a arte não sobrevive em cidade pequena, mostrando que com um grupo nós conseguimos. Teatro é ferramenta de cura no sentido em que ele começou a cura em mim primeiro. Cura para mim como artista, que tinha o desejo de viver da arte e também para as crianças que eu tocava através das palavras e das peças. Quando estamos no palco fazendo as pessoas rirem, ou até chorarem, nós estamos transformando vidas, dos outros e a nossa. (Batista, 2022).

Em uma perspectiva pessoal, posso afirmar que o grupo Trupe da Aurora me tocou de diversas formas. Primeiro, com as boas risadas arrancadas pelos roteiros excepcionais da Léia e interpretações divertidíssimas dos atores. Segundo, por reconhecer temas tão importantes na sociedade e entender a arte como essa ferramenta de transformação social. Foi uma experiência incrível assistir ao vivo a apresentação de “Uma peça não muito íntima”, vibrar e rir junto com todo o público presente, além de me encantar com os traços da história que me lembraram grandes obras da nossa literatura, como “O auto da compadecida”, já mencionado anteriormente. Mas, sobretudo, por encontrar pessoas tão apaixonadas pelo que fazem, perceber que a arte (sobre)vive em todos os lugares e continua curando vidas: a de Léia Batista, a dos atores, a minha e, se você se render à arte, a sua também. 

Descrição de imagem*: fotografia de um palco de teatro, onde seis pessoas estão atuando. No canto direito, uma mulher está sentada em uma poltrona cor de rosa claro. Mais ao lado, outras duas mulheres que vestem roupas coloridas conversam com um homem que está em cima de uma escada de aço. No canto esquerdo, dois jovens um garoto e uma garota — conversam entre si. Um pouco mais à frente, há uma mesa coberta com tecido vermelho e, ao fundo, uma parede de tijolos encerra a decoração da cena. 

Descrição de imagens**: da esquerda para a direita. Na primeira linha: imagem 01: fotografia de cinco atores do grupo de mímica. No canto superior esquerdo, aparece um jovem usando um chapéu preto, maquiagem e roupa de palhaço preto e branco, ele tem uma expressão séria no rosto. Ao centro da imagem, aparece um outro jovem de pé com expressão emotiva, usando uma boina vermelha, maquiagem de palhaço e uma camisa listrada em preto e branco. No lado direito da imagem, aparece uma jovem de pé e expressão sorridente, usando um chapéu de bobo da corte, um jaleco branco, gravata colorida e maquiagem de palhaço. No canto inferior esquerdo, uma jovem está abaixada, ela veste uma saia listrada em preto e branco, usa maquiagem de palhaço e uma flor branca no peito. Ao lado esquerdo, também abaixada, aparece uma outra jovem, com maquiagem de palhaço, vestindo uma saia de bolinhas preto e branco e um lenço vermelho no pescoço. Imagem 02: fotografia de uma peça do pequeno príncipe. Ao lado esquerdo, uma mulher veste peruca laranja com orelhas marrons, representando a raposa. Ao lado direito, um garotinho veste uma peruca loira e um sobretudo azul, representando o pequeno príncipe. Ao fundo, aparecem várias estrelas de papel amarelo.  Na linha de baixo: imagem 03: Fotografia de duas pessoas sobre um palco, encenando a peça Romeu e Julieta. No fundo, aparecem cortinas vermelhas e pretas. Mais a frente, no centro, aparece uma jovem de braços abertos, usando um vestido vermelho de mangas brancas. Atrás dela, um jovem também de braços abertos, usa uma túnica vermelha. Imagem 04: fotografia de oito atores sobre o palco na peça “Uma peça não muito íntima”. Da esquerda para a direita, aparece uma mulher vestindo um sobretudo vermelho, ao lado aparece uma garotinha. Em seguida, aparecem duas mulheres com roupas coloridas. Ao lado delas, aparece um homem de camisa listrada, ao lado dele, há uma outra mulher de casaco rosa e saia.No fundo, no canto direito, aparece um garoto vestindo uma camiseta azul. Na frente de todos eles aparece Léia Batista, escritora das peças, usando um longo vestido verde. Ela está com os braços abertos e um sorriso no rosto. 

Referências: 

DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO. Origem da palavra arte. Disponível em: https://www.dicionarioetimologico.com.br/arte/. Acesso em: 21 jun. 2022.

ORIGEM DA PALAVRA. TEATRO [Edição 69]. Disponível em: https://origemdapalavra.com.br/artigo/teatro/. Acesso em: 21 jun. 2022.

AIDAR, Laura. História do teatro. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/historia-do-teatro/. Acesso em: 21 jun. 2022.

AIDAR, Laura. História do Teatro no Brasil. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/historia-do-teatro-no-brasil/. Acesso em: 21 jun. 2022.

ALEXANDRE, Luci. Entrevista concedida à Laiara Serafim. Araranguá, 17 jun. 2022

BATISTA, Léia.  Entrevista concedida à Laiara Serafim. Araranguá, 17 jun. 2022

 

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O Gênero Terror: Por que o medo atrai público e por que gostamos de sentir medo?

20/06/2022 15:19

Manoela Beatriz dos Santos Raymundo,
Bolsista PET-Letras
Letras Inglês

Você já se perguntou o por que o medo atrai tanto público? Então, vamos conversar um pouco sobre isso. O gênero terror sempre foi um atrativo para muitos, que foi por séculos se modificando e enriquecendo obras literárias, cinematográficas e afins. Entretanto, muitos ainda confundem o gênero terror com o horror. Por mais que andem juntos em certas obras, o terror não implica necessariamente o sobrenatural ou o irreal, como é costumeiro do horror, por exemplo Frankenstein de Mary Shelley

Fonte: Imagem da Internet*

O terror, mesmo que muitas vezes associado ao horror, não fica para trás quanto à questão de aterrorizar o público. São muitas as ferramentas usadas para causar medo. O detalhamento exagerado, seja de locais ou de emoções, usado muito por Edgar Allan Poe em suas obras traz uma sensação sufocante ao leitor, as descrições psicológicas que beiram a insanidade de cada narrador apresentado por Poe traz desconforto, sendo um dos principais recursos usado por ele.

Se opondo ao detalhamento exagerado de Poe, temos outra ferramenta muito usada: a falta dele. Alguns escritores acreditam que o desconhecido é o maior medo do homem, e isso é muito visto em “Caixa de Pássaros” de Josh Malerman, em que a agonia e a ansiedade vem juntas com o medo ao presenciarmos o “monstro” do livro. Sem ter descrição de como a criatura é, a imaginação do próprio leitor o condena, pois o maior medo que alguém pode sentir é aquilo que você mesmo imagina ser assustador.

Fonte: Imagem da Internet**

Mas afinal, por que sentimos medo? E por que, mesmo sendo considerado uma sensação ruim, gostamos de gêneros como o terror e o horror? O medo é uma reação desencadeada pelo sentimento de perigo, seja real ou imaginário. Essa reação nos leva a um estado de adrenalina, fazendo com que o corpo libere endorfina (substância ligada também ao prazer). Então, assim como existem pessoas que gostam da adrenalina na prática esportes de risco, há também aqueles que gostam da adrenalina decorrente do sentir medo, seja assistindo um filme, lendo um livro, ouvindo uma música ou analisando uma pintura ou desenho. Esse desconforto gera medo, desencadeando a adrenalina do corpo e nos fazendo sentir prazer em sentir medo.

É interessante pensar como somos atraídos pelo medo e pelo desconhecido. Talvez um dos motivos de autores como Stephen King, Joe Hill e Neil Gaiman serem tão populares nos dias de hoje, séries como Stranger Things, Supernatural, American Horror Story e A Maldição da Residência Hill bombarem tanto, é o fato de estarem trazendo o gênero terror para além do público que normalmente se atrai ao gênero. O terror vem crescendo, e junto dele, mais e mais, recursos para se causar medo vem sendo usados. Agora me diga, o que te causa medo?

Descrição 01*: Desenho em fundo branco de um corvo pousado em cima de um crânio humano, ambos olhando levemente para cima. Há uma assinatura no canto inferior direito do desenho.

Descrição 02*: Capa do livro “Caixa de Pássaros” de Josh Malerman. Temos um fundo em tons de cinza com o título “Caixa de Pássaros” no centro, com a letra “O” representando uma lua e dois pássaros voando da esquerda para a direita por cima da letra. No topo da capa está escrito: “Um livro que deve ser lido de uma vez só. Ninguém havia escrito uma história de terror como essa antes – Hugh Howey, Autor de Silo.” Logo abaixo do título está escrito: Não abra os olhos, em fonte grande. E na base da capa, está o nome do autor: Josh Malerman

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Slam Estrela D’Alva: participe com a gente no dia 05 de julho!

15/06/2022 15:35

O próximo Slam está previsto para ocorrer na terça-feira, dia 05 de julho de 2022, às 18h00min., no Varandão do CCE UFSC.

As inscrições para Slammers já estão abertas! Para se inscrever é necessário preencher o formulário e enviar três poemas, sendo que não são aceitos poemas com discurso de ódio.

Inscrições de Slammers: clique aqui!

Sobre o primeiro Slam!

No dia 31 de maio, o Programa de Educação Tutorial dos Cursos de Letras (PET-Letras) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) realizou, no Varandão do CCE, o primeiro Slam da UFSC. O Slam Estrela D’Alva: competição de poesia falada popular na UFSC é uma ação integrante de um dos projetos estruturantes do PET-Letras, o “PET-Eventos: planejamento e organização”.

O Slam Estrela D’Alva, apresentado pelo petiano Angelo Perusso, contou com nove slammers competindo, sete poetas se apresentando no “verso livre”, cinco jurados e uma plateia de mais de 80 pessoas. O evento contou com a interpretação Libras-português realizada pelas estudantes do Bacharelado em Letras Libras e estagiárias de acessibilidade do PET-Letras: Mariane Pordeus e Vitória Amancio.

Fonte: YouTube do PET-Letras

Diversas questões sociais, políticas e econômicas foram abordadas pelos competidores que trouxeram à tona suas críticas e suas reflexões sobre a periferia, a violência, a ancestralidade, o racismo, a cidadania e a desigualdade social, por exemplo. Após as três rodadas de apresentação, seguidas das notas dadas pelos jurados, o vencedor do Slam foi Jaci, seguido por MVHS, em segundo lugar; e por WD em terceiro.

Fonte: Arquivo Pessoal