Por que ler Terra Sonâmbula?

19/07/2021 13:06

Ananda Gomes Henn,
Graduanda em Letras – Português
Bolsista PET-Letras UFSC

            No livro Terra Sonâmbula (1992), do moçambicano Mia Couto, temos contato com um mundo de sonhos que se mistura a uma realidade caótica, de guerras e devastação. Ambientada no Moçambique pós-independência, arrasado pela guerra civil que se estendeu por dez anos, a narrativa começa com o velho Tuahir e o menino Muindinga, que, depois de deixarem o campo de refugiados onde se encontraram, empreendem uma longa caminhada por uma “estrada morta”, onde “[…] o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte” (COUTO, p. 9).

Fonte: Woo! Magazine*

            Essa estrada se faz presente durante todo o livro, infinito caminho do qual os dois personagens não escapam, embora se transfigure no decorrer da história, com sua paisagem mudando toda noite enquanto velho e menino dormem — no fim, percebem que não são eles que passam por ela, mas ela que passa por eles: “(e)ra o país que desfilava por ali, sonhambulante” (COUTO, p. 133).

            Uma das características do livro que mais chama atenção é a circularidade da narrativa. Esse é um elemento estrutural do livro, remetendo às narrativas orais da tradição africana. Outro elemento estrutural interessante é a divisão do livro entre dois percursos narrativos, que eventualmente se conectam através da circularidade da história — há dois narradores: um, em terceira pessoa, que narra de forma onisciente a história das personagens Tuahir e Muidinga; e outro, Kindzu, que em primeira pessoa conta a própria história. Nas duas narrativas esses narradores cedem o poder da palavra a outras personagens que expõem seus pontos de vista, provocando o efeito da polifonia — tão cara à modernidade, mas tradicional das narrativas orais africanas.

Fonte: Companhia das Letras**

            Outro elemento central é, certamente, o imaginário africano, moçambicano, que se faz presente no livro. Esse é um imaginário de convívio com os mortos, de magias, de referências da natureza que não são estáticas, de comportamentos atribuídos à terra, à água, aos animais, que têm uma relação intrínseca com a oralidade, com as crenças populares que perpassam todo dia a dia das pessoas. Existe, portanto, atrás do “mágico” do livro, toda uma tradução cultural de elementos mágicos que não são fantasia, algo que está sendo transposto para a realidade, mas, sim, algo real que está presente no cotidiano daquelas pessoas, que pertencem a uma cultura popular.

            O romance se destaca, portanto, como uma obra prima singular do século XX — e de todos os séculos — sobre personagens que se encontram dando voltas sem chegar a lugar nenhum porque não há aonde chegar, em uma terra esgotada pela guerra e pela violência gratuita. Fazendo uso do português colonizador em seu estado mais belo e poético, Mia Couto escreve uma história Moçambicana sobre uma terra e sobre um povo que carrega — em sua persistente caminhada — a esperança e o desejo por um final onde “[…] restará uma manhã como esta, cheia de luz nova [em que] se escutará uma voz longínqua como se fosse uma memória de antes de sermos gente. […] Essa voz nos dará força de um novo princípio e, ao escutá-la, os cadáveres sossegarão nas covas e os sobreviventes abraçarão a vida com o ingênuo entusiasmo dos namorados” (COUTO, p. 194). Um final-começo.

            Leia este livro!! Além disso, o filme que adapta o livro, lançado em 2007, está disponível na íntegra no Youtube.

 

Referências:

COUTO, Mia. Terra Sonâmbula. São Paulo: Companhia de Bolso, 2015.

*Descrição 1: Desenho reproduzindo uma cena do filme Terra Sonâmbula, retratando o menino Muindinga e o velho Tuahir em pé, cara-a-cara, olhando um para o outro. No fundo o céu em tinta azul se contrasta com a terra, amarela, e entre eles algumas árvores estão representadas de forma abstrata. O menino e o velho são negros, sendo que Tauhir apresenta uma barba espessa e cinzenta. Ambos estão vestindo camisas em tons terrosos; o velho também utiliza um boné estilo cap militar e carrega duas bolsas de ombro.

**Descrição 2: Imagem da capa do livro Terra Sonâmbula. A imagem retrata o desenho de um ônibus ao lado de uma árvore, ambos em preto, como se a cena fosse à noite, e ao fundo um azul profundo representando o céu ao anoitecer. Os troncos da árvore contêm bolas laranja, como se representando luzinhas, e no mesmo tom de laranja está o nome do autor, Mia Couto, no centro inferior da capa. Acima, no tronco da árvore, lê-se “Terra Sonâmbula” em letras garrafais em branco. Abaixo do título, a logomarca da editora Companhia das Letras.

Tags: comunicaPET

RESULTADO: CURSOS DE LÍNGUAS – PET-Idiomas On-line 2021.2

15/07/2021 21:29

O PET-Letras torna público o resultado do sorteio das vagas para a edição remota dos cursos de línguas do PET-Idiomas. No dia 16/07/2021, cada professor(a) entrará em contato com sua turma via e-mail e será disponibilizado o link para acesso à sala virtual. A confirmação da matrícula será no 1º dia de aula.

 

Para conferir a lista com os(as) alunos(as) sorteados(as), CLIQUE AQUI.

“Manhãs de Setembro”, um retrato necessário.

14/07/2021 20:28

Mayumi Motta Esmeraldino,
Bolsista PET Letras
Letras – Francês

A nova série da plataforma digital Amazon PrimeManhãs de Setembro” estreia a cantora Liniker nas telas cinematográficas e nos envolve em um retrato sensível de uma realidade brasileira ainda muito velada.

Cassandra (Liniker) é a personagem central da trama e nos apresenta uma mulher trans em busca da realização de seus sonhos na grande capital de São Paulo. Tudo parece estar percorrendo caminhos de avanço na vida da personagem, até que uma surpresa inesperada bate à sua porta: Leide (Karine Telles), mulher com quem Cassandra envolvia-se antes da transição de gênero e Gersinho (Gustavo Coelho), o filho de dez anos que Cassandra não sabia existir.

Fonte: Imagem da Internet*

Entre um relacionamento às escondidas e a carreira de cantora, Cassandra passa a viver um conflito que poderia ser típico de qualquer heroína: como controlar o incontrolável? Enquanto persiste na realização de seus sonhos e nega qualquer conexão afetiva com Gersinho, o menino busca incessantemente no ‘’pai’’ o amor e afeto que a vida carente não lhe permite encontrar. Apesar de muitas escolhas falhas, que se tornam justificáveis ao espectador, uma vez que as alternativas são escassas, Cassandra parece ativar (inconscientemente) um “instinto materno” com a aproximação inevitável do filho. A partir daí, em apenas cinco episódio, a trama nos surpreende fugindo das vias óbvias de roteiro nos trazendo personagens comuns da vida real, mas igualmente singulares e complexos.

Assim também se destaca Leide, que traz uma outra perspectiva da mesma história, tão dura quanto a de Cassandra. A vida da mãe solteira, pobre, sem amparo social, sem recursos, que por vezes se mostra imoral, mas que luta incessantemente pela sobrevivência de si e de seu filho. A personagem traz uma outra perspectiva da mesma história e se assemelha à Cassandra quando, por vezes, sem mostra também imoral, sem enquadrar-se no senso comum de “boa mãe’’.

“Manhãs de Setembro” vai muito além de visibilizar a dura realidade da mulher trans, preta e pobre no Brasil, ou da mãe solteira sem qualquer rede de apoio que sofre a pressão social de ser uma super heroína. A série retrata a vida de duas mulheres que, com todas as suas diferenças, lutam em igual perseverança contra as inúmeras adversidades de uma vida nada privilegiada. Cassandra e Leide inspiram encontrar algo a mais, algo que dê sentido à vida, algo que as permita ser quem simplesmente são, algo que parece não lhes ser permitido ter: a liberdade. Assim, com seus caminhos tortos cruzados, os personagens da série encontram entre si a afetividade do amor em todas as suas formas, nas mais puras e nas mais profanas, que não parecia ser possível existir em uma vida tão cinza mas também tão viva.

* Fotodescrição: Imagem com fundo desfocado onde há uma parede de tecidos cintilantes cor de cobre dependurados e um guitarrista sentado olhando para baixo enquanto toca a guitarra. Ao centro da imagem, em foco, uma mulher trans preta (personagem Cassandra) de cabelos cacheados cor de cobre presos em um coque meio solto. Ela veste uma blusa preta de mangas longas e segura um microfone à sua frente, cantando de olhos fechados.

Tags: comunicaPET

Edital 03/2021/PET – Seleção de estudantes não bolsistas, voluntários(as)

08/07/2021 13:41

O PET-Letras torna público o processo seletivo para preenchimento de até 05 (cinco) vagas para estudantes não bolsistas — voluntários(as) — do Programa de Educação Tutorial. Podem se inscrever estudantes dos Cursos de Graduação em Letras da UFSC que tenham disponibilidade de 20 (vinte) horas semanais e que atendam aos requisitos apresentados no Edital 03/2021/PET.

Período de inscrição: 12h00min do dia 09 de julho às 12h00min do dia 15 de julho de 2021.

Divulgação das inscrições homologadas: 16 de julho de 2021, após as 18h00min nesta página.

Inscrições Homologadas:

Gabrielle Souza Santos (20104946) – Letras Francês

Jaíne Miranda Vidal Soares (19102714) – Letras Libras (Lic.)

Sofia da Silva Quarezemin (20207200) – Letras Português

Vitória Tassara Costa Silva (20250213) – Letras Libras (Bel.)

Primeira etapa: 19 de julho de 2021 (sem a presença do candidato)

Resultado da primeira etapa: 19 de julho de 2021 após às 18h00min (divulgação do link para acesso a sala e horário da segunda etapa).

PRIMEIRA ETAPA, CLIQUE AQUI!


Segunda Etapa
: 21 de julho de 2021 (entrevista virtual às 14h00min.).

SEGUNDA ETAPA, CLIQUE AQUI!

 

Resultado Final: 22 de julho de 2021 após às 18h00min nesta página.

RESULTADO FINAL, CLIQUE AQUI!

 

Antes de se inscrever, leia atentamente o Edital.

Conheça mais o PET-Letras, assista ao vídeo (legendas disponíveis).

Seleção de estudantes para os cursos de línguas – PET-Idiomas 2021.2

07/07/2021 12:06

Quer aprender uma nova língua ou aperfeiçoar suas habilidades comunicativas?

Então aproveite essa oportunidade: cursos gratuitos de diferentes línguas!

As inscrições do PET-Idiomas estão abertas das 12h00 do dia 08 de julho de 2021 às 14h00 do dia 14 de julho de 2021.

1) As inscrições somente serão realizadas por meio do sistema de inscrições da UFSC no período indicado acima;

2) Cada candidato poderá se inscrever em SOMENTE UMA TURMA e cada turma terá o máximo de 16 alunos;

3) Os cursos são gratuitos e abertos a todos e todas;

4) Os cursos ocorrerão de forma remota, on-line, através da plataforma WebConf, cujo link será disponibilizado para os alunos no início das aulas;

5) As vagas serão distribuídas por meio de sorteio e o aluno deverá verificar as listas das turmas que serão disponibilizados neste site no dia 15 de julho a partir das 18h00;

6) Durante a primeira semana de aulas (ENTRE OS DIAS 19 E 23 DE JULHO), será realizada uma segunda chamada, caso haja desistências (será considerada desistência a ausência à primeira aula, sem justificativa oficialmente registrada);

7) As aulas têm início previsto para a semana do dia 19 de julho de 2021  e término no dia 24 de setembro de 2021, conforme o cronograma de cada turma;

8) A matrícula será realizada na primeira aula e o aluno deverá se comprometer a frequentar as aulas e concluir o curso, sob pena de não mais poder concorrer a vagas em atividades promovidas pelo PET-Letras;

9) A certificação será concedida mediante 75% de frequência aos encontros e aproveitamento satisfatório, avaliado pelo(a) professor(a).

10) Para ingressar no NÍVEL 2 o aluno deverá ter cursado o nível 1 no PET Idiomas ou possuir as habilidades descritas para o nível 1*, as quais poderão ser avaliadas pela equipe do PET-LETRAS.

11) Para ingressar na turma de CONVERSAÇÃO é necessária fluência mínima no idioma. Os(As) estudantes que não forem fluentes não poderão continuar na turma.

Abaixo você encontra a relação de turmas e horários. Inscreva-se APENAS PARA UMA TURMA

Alemão 1 – Quinta-feira, 10h10-11h40 – Profª. Caroline Elisa Murr

Alemão 2 – Segunda-feira, 18h30-20h00 – Prof. Marcus Vinicius Souza Vieira

Alemão Conversação – Terça-feira, 13h30-15h00 – Profª. Aline Anna Oelgemoeller

Espanhol 1 – Sexta-feira, 16h20-17h50 – Profª. Sarah Ortega e Prof. Kelvinxon Salazar

Espanhol 2 – Quinta-feira, 14h20-15h50 – Prof. Andrés Leonardo Salas

Francês 1 – Segunda-feira, 10h10-11h40 – Profª. Carolina Sayão Lobato Coppetti

Francês 1 – Terça-feira, 12h00-13h30 – Profª. Fernanda da Costa e Profª. Mayumi Esmeraldino

Inglês 1 – Quarta-feira, 14h20-15h50 – Profª. Gabriele Leticia Guerra dos Santos

Inglês 1 – Quinta-feira, 12h00-13h30 – Profª. Moara Zambonim

Inglês 2 – Segunda-feira, 13h30-15h00 – Profª. Alyne Müller

Italiano 1 – Quarta-feira, 18h30-20h00 – Profª. Camila Vicentini Camargo

Italiano 2 – Sexta-feira, 08h20-09h50 – Profª. Giorgia Mendes dos Santos

Libras 1 – Quinta-feira, 16h20-17h50 – Prof. Diogo Pereira e Profª. Andressa dos Santos

Libras 2 – Terça-feira, 10h10-11h40 – Prof. Juan Teixeira Arruda Bandeira

Português para estrangeiros – Terça-feira, 18h30-20h00 – Profª. Kerolyn Pereira Sarate (a turma tem foco em falantes de espanhol como língua materna)

ATENÇÃO: A identificação de inscrições duplicadas em mais de uma turma implicará no cancelamento completo da inscrição.

*Ser capaz de compreender e usar expressões familiares e cotidianas, assim como enunciados muito simples, que visam satisfazer necessidades concretas. Poder apresentar-se e apresentar outros e ser capaz de fazer perguntas e dar respostas sobre aspectos pessoais como, por exemplo, o local onde vive, as pessoas que conhece e as coisas que tem. Poder comunicar de modo simples, se o interlocutor falar lenta e distintamente e se mostrar cooperante.

Conheça o escritor Antonio Dikele Distefano

05/07/2021 18:52

Camila Vicentini Camargo,
Bolsista PET – Letras
Letras Italiano

Antonio Dikele Distefano é um escritor italiano, filho de pais angolanos, nascido em maio de 1992 em Busto Arsizio, na Lombardia. Cresceu na cidade de Ravenna, na Emilia-Romagna e com seu trabalho visa fornecer um avanço muito necessário no que diz respeito à representatividade negra em seu país.

Autor dos livros Fuori piove, dentro pure, passo a prenderti?; Prima o poi ci abbracceremo; Chi sta male non lo dice; Non ho mai avuto la mia età e Bozze. Prima e seconda parte, é também diretor da Esse Magazine e roteirista da série Zero, lançada em abril de 2021 na Netflix, baseada em seu penúltimo livro publicado Non ho mai avuto la mia età.

Fonte: Montagem feita pela autora a partir de fotos retiradas do Instagram oficial de Antonio Dikele Distefano e de imagens da internet.*

Publicados pela editora Mondadori, e ainda não traduzidos no Brasil, seus livros abordam temas super importantes como o racismo, os relacionamentos inter-raciais e a questão imigratória na Itália, além de os desafios relacionados à infância e à adolecência, relacionamentos em geral e questionamentos existenciais.

A série Zero, escrita por Dikele Distefano, nos traz uma narrativa um pouco diferente. Trata-se de uma série de super-herói, com elenco majoritariamente negro, em que temos um garoto tímido que consegue ficar invisível para ajudar a salvar seu bairro junto aos amigos que conhece durante o desenrolar da trama.

Já a revista digital Esse Magazine é um espaço de divulgação e discussão sobre a música e a cultura urbana na Itália.

Por enquanto é isso que posso apresentar a vocês! Espero ter trazido boas recomendações e sugiro que não esqueçamos esse nome, pois muitos projetos de Dikele Distefano ainda estão por vir. No mais, vamos torcer para que sua obra seja traduzida, em breve, para o português brasileiro para que alcance, assim, cada vez mais leitores!

*fotodescrição: Há seis imagens na montagem. No canto superior esquerdo, foto de Antonio Dikele Distefano, homem negro, que sorri abertamente apoiando seu rosto em sua mão direita, vestindo camiseta e touca preta. No centro superior, a capa do livro Bozze: Prima e seconda parte, azul clara com um desenho de uma mulher abraçando um homem pelas costas. No canto superior direito, foto de Antonio Dikele Distefano com um semblante sério, vestindo moletom e touca rosa, segurando uma flor rosa em frente ao seu olho esquerdo. No canto inferior esquerdo, a capa do livro Non ho mai avuto la mia età, em que há um menino negro de olhos fechados com um semblante triste, com um dedo de uma pessoa branca apontado para o seu rosto. No centro inferior, foto de Antonio Dikele Distefano tirada de baixo com o céu azul ao fundo, com um semblante sério, mordendo o lábio inferior, vestindo blusa branca e chapéu azul. No canto inferior direito, a capa da série Zero, em que há um grupo de pessoas viradas para a câmera, uma construção cinza ao fundo e em primeiríssimo plano vultos como se pessoas passassem rapidamente diante do grupo.

Tags: comunicaPET

Revista Preguiça do PET-Letras – 3ª edição

30/06/2021 16:29

Preguiça, a revista (des)acadêmica do PET Letras, foi pensada, inicialmente, para proporcionar a interação social e criativa dos alunos de diferentes fases dos cursos de Letras.
Surge, então, como um meio de divulgação local das produções literárias dos estudantes, oferecendo um estímulo à produção criativa, por disponibilizar um veículo institucionalizado para a divulgação de ideias dos alunos; e que gerasse reconhecimento e identificação dos seus autores.
Logo em sua primeira edição, a Revista Preguiça passou a receber textos escritos por alunos de todos os cursos de graduação da UFSC, possibilitando, então, a integração das mais diversas áreas, que se voltam para um mesmo objetivo, a produção literária.

A terceira edição da Preguiça conta com textos de estudantes de graduação em Letras da UFSC, de petianos e petianas e, também, de autores externos à Universidade.

Boa leitura!

Revista Preguiça em PDF

*Ilustração por Lara Norões Albuquerque

Confira as edições anteriores:
Revista Preguiça 1
Revista Preguiça 2

#fotodescrição: Logotipo da Revista Preguiça, que consiste em três rostos iguais de um bicho-preguiça, em escala de cinza, do mais escuro, à esquerda, para o mais claro, à direita.

Conflitos na Colômbia: você sabe o que está acontecendo?

28/06/2021 19:59

Andres Salas Garcés,
Bolsista PET-Letras
Letras Libras

A explosão social insurgida durante a pandemia, há dois meses na Colômbia, é resultado de uma bola de neve manchada de muito sangue e carregada de violência.

Para entendermos o que está acontecendo, precisamos saber que algo comum e predominante na história política colombiana é a eliminação de grupos e de pessoas por causa de sua ideologia. A guerra dos mil dias (1899-1902), por exemplo, foi uma guerra civil causada por as diferenças entre dois partidos tradicionais, o partido Conservador1 e o partido Liberal2, nesta guerra morreram mais de cem mil pessoas e, logo depois, com influência dos Estados Unidos, a separação territorial do que hoje é o  Panamá. Nesse período, quem governava era o partido Conservador e os militantes do partido Liberal foram perseguidos e mortos pela força pública, famílias inteiras foram exterminadas. Isto fez que aqueles militantes se juntassem aos grupos de campesinos que lutavam por seus direitos e começassem a se armar, criando assim, as primeiras guerrilhas.

Fonte

A Guerrilha Liberal tinha ideologia agrária, pois a maioria dos seus integrantes eram campesinos unidos a outros militantes do partido liberal e não eram de esquerda nem direita. Os militantes que decidiram assinar a anistia com o governo, foram massacrados e exterminados na ditadura de Rojas Pinilla3. Trinta anos depois de muita violência, outro grupo armado, mas desta vez com ideais comunistas, começou surgir: as FARC-EP (guerrilha de ideologia marxista-leninista de inspiração bolivariana).

O poder que governava o país, durante esses últimos anos, era passado entre as mesmas famílias ou pessoas próximas a elas, portanto, tinha-se péssimos governantes, mas excelentes negociantes. Isto trouxe muitas problemáticas sociais, além da violência por conta dos grupos armados, que, no exercício de recrutamento de jovens e menores de idade, iam ficando cada vez maiores.

Com uma necessidade realmente urgente de resolver os problemas sociais que o governo já não estava dando conta, nos anos 1980 surgiu o primeiro tratado de paz com as FARC, criando-se o partido político conhecido como UP (União Patriótica), mas a história se repetiu, “no dia 11 de Novembro de 1988, quarenta militantes foram publicamente executados na praça central do município de Segóvia...”, hoje são poucos os militantes da primeira geração desse partido que sobreviveram para contar a história.

As guerrilhas começaram a se apoderar de terrenos e a cobrar impostos para grandes terratenentes, empresas e narcotraficantes que queriam transportar sua mercadoria. O governo, encarregado por Alvaro Uribe Vélez, no ano 2008, criou o grupo “El Porvenir”, deu armas e treinou cidadãos com o objetivo de dar segurança privada para aqueles empresários e terratenentes que eram vítimas das guerrilhas. Mas não só eles foram beneficiados, os narcotraficantes também começaram a financiar esse grupo para receber proteção, dando início ao paramilitarismo. Uribe nunca foi punido por isso, nunca houveram provas suficientes para incriminá-lo, porém os grupos paramilitares com o discurso de limpeza social e acabar com guerrilheiros, foram os responsáveis de 21.000 assassinatos. Mais mortes do que qualquer outro grupo armado no país4. Santiago Uribe, irmão do ex-presidente Alvaro Uribe foi aprendido5 por pertencer a grupos paramilitares6, além de ligações da sua família com narcotraficantes7. Ele tem sido umas das pessoas mais poderosas do país nos últimos 30 anos, depois de dois mandatos consecutivos e de ser rejeitado pela corte suprema da justiça por querer fazer o terceiro mandato, ele tem escolhido os últimos 2 presidentes após dele.

Hoje, a história não é muito diferente, os conflitos entre guerrilhas que nasceu por ideologias diferentes, ainda existem. Atualmente, o governo tenta quebrar os novos acordos de paz com as FARC-EP, enquanto os paramilitares massacram8 ex-guerrilheiros e líderes sociais9, mais ou menos 13 bilhões de dólares são roubados a cada ano por corrupção10 e as médias ao invés de vigiar o governo, o protege porque pertencem às famílias mais poderosas da Colômbia11.

Durante a crise da pandemia, causada pelo novo Coronavírus, o governo criou uma reforma tributária para cobrir as dívidas externas e a crise provocada pela pandemia, e pretendia taxar, entre outras coisas, alguns produtos da cesta básica e os serviços fúnebres12, sendo o detonante para protestos massivos de uma sociedade jovem e crítica. O presidente atual, Ivan Duque, demorou dias para derrubar tal reforma, dias em que policiais escondiam seus códigos de identificação e outros se vestiam de civis para matar13 e abusar sexualmente14 de estudantes e de pessoas que protestavam pacificamente.

Os protestos continuaram, assim como as mortes por parte da polícia, o comandante justificava as mortes por serem financiadas e dirigidas por grupos guerrilheiros em alguns atos vandálicos contra bancos e multinacionais. Segundo o Diretor das Américas da Human Rights Watch, José Miguel Vivanco, em uma entrevista com o comandante da Polícia Nacional Colombiana, não houve provas suficientes para respaldar aquelas justificativas de infiltração de grupos armados no protesto15, ele foi muito criticado por vários meios internacionais por suas afirmações sem fundamentos concretos porque criminalizava o protesto e reprimia o povo.

Representantes da Comissão Interamericana dos Direitos Humanos, em uma tentativa de registrar o que estava acontecendo com os atos de violência durante os protestos, foram impedidos de entrar no país16 quando chegaram no aeroporto no dia 25 de maio de 2021. Depois de insistirem17 repetidamente pela aprovação da visita, ela foi aprovada como condicionada, no dia 06 de junho de 202118.

Hoje, os protestos e bloqueios ainda persistem, esperamos que o governo escute os jovens e pare de matá-los.

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Notas

1 Inicialmente foi fundado com o objetivo de proteger as tradições sociais e religiosas, além de promover o protecionismo econômico voltado para os artesãos e a construção de um estado intervencionista em oposição ao estado liberal de livre comércio.

2 Inicialmente de tendência liberal clássica e posteriormente social-democrata

3 https://www.revistacredencial.com/historia/temas/1949-1953-la-guerrilla-liberal

4 https://rutasdelconflicto.com/masacres

5 https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/12/internacional/1528778541_006928.html

6 http://www.centrodememoriahistorica.gov.co/micrositios/balances-jep/paramilitarismo.html

7 https://www.eltiempo.com/archivo/documento/MAM-1367359

8 https://rutasdelconflicto.com/masacres

9 https://www.france24.com/es/am%C3%A9rica-latina/20210420-colombia-asesinatos-lideres-sociales-exfarc-jep

10 https://www.publimetro.co/co/noticias/2020/07/01/las-lamentables-cifras-de-la-corrupcion-en-colombia.html

11 https://www.america-retail.com/colombia/colombia-las-fortunas-mas-importantes-del-pais-y-sus-aportes/

12 https://noticias.caracoltv.com/economia/en-plena-pandemia-reforma-tributaria-busca-gravar-servicios-funerarios-y-de-cremacion

13 https://es.wikipedia.org/wiki/Anexo:Fallecidos_durante_las_protestas_en_Colombia_de_2021

14 https://www.elconfidencial.com/mundo/2021-05-14/colombia-denuncia-suicidio-menor-sufrir-abuso-sexual-policia_3080279/

15 https://www.youtube.com/watch?v=uCvf7l4co_w

16 https://www.eltiempo.com/mundo/eeuu-y-canada/gira-de-marta-lucia-ramirez-colombia-no-aceptara-visitas-de-cidh-y-oea-590780

17  https://www.eltiempo.com/mundo/eeuu-y-canada/la-cidh-insiste-en-que-quiere-realizar-su-visita-a-colombia-591009

18 https://www.elcolombiano.com/colombia/gobierno-acepta-visita-de-la-cidh-pero-con-condiciones-NM15083482

 

Descrição: Foto a noite com algumas árvores e palmas no fundo, no centro tem um monumento em forma de um braço com uma mão pintada com muitos grafites de muitas cores, figuras e  imagens de alguns estudantes mortos durante o protesto, no lado inferior esquerdo do braço, tem alguns escudos de metal feitos artesanalmente com a face das pessoas que o usavam e hoje estão mortas, todo o braço está iluminado com uma luz azul, a mão está segurando uma tabela que disse “RESISTE” com letras brancas e fundo vermelho e amarelo. Na parte de baixo, há uma multidão de pessoas, uns tirando fotos e outro com um cartaz branco com letras negras.

 

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Inglês como língua de transformação: um manifesto.

23/06/2021 16:02

Vítor Pluceno Behnck,
Graduando em Letras – Inglês
Bolsista PET-Letras UFSC

            De uma coisa você já sabe: a língua inglesa é uma das mais faladas em todo o mundo. De acordo com o website da Encyclopædia Britannica, o Inglês é a primeira ou segunda língua de 1,27 bilhão de pessoas, o que lhe confere o status de língua mais falada no mundo. A predominância do Inglês como Língua Franca, no século XXI, advém de fatos históricos como a vasta colonização britânica ao redor do globo e o estabelecimento dos Estados Unidos da América como centro do capitalismo ocidental, desde a Guerra Fria. Entretanto, é de suma relevância nos questionarmos sobre quais seriam as implicações linguísticas e ideológicas presentes na propagação do Inglês no mundo. Afinal, falar um idioma é, também, um ato político.

            Voltando algumas centenas de anos, podemos, primeiramente, entender de onde vem a língua inglesa, o que é relevante à compreensão do lugar que ela ocupa hoje. O Inglês é uma língua Germânica, prima do Alemão e do Holandês. De acordo com o website EnglishClub.com, a história do idioma tem início com a chegada de três tribos germânicas à Grã-Bretanha durante o século V d.C. Conforme exposto na Figura 1, os anglos, jutos e saxões expulsaram os celtas que habitavam aquelas terras para o oeste e para o norte, em direção ao que hoje compreende o País de Gales, a Escócia e a Irlanda. Segundo o website, os anglos vieram da “Englaland”, e sua língua era o “Englisc”, o que, posteriormente, teria se tornado a Inglaterra (England) e o Inglês (English) que conhecemos hoje.

Mapa de imigração anglo-juto-saxônica no século V d.C.*

Reprodução: EnglishClub.com.*

            A partir de então, a língua inglesa evoluiu para outras formas, como o Old e o Middle English, que serviram de base para o Modern English, sendo esse “um dos Ingleses” que falamos hoje. Por que eu me refiro a “um dos”? Bem, é simples: por ter sido internacionalizada, possibilitando o surgimento de muitos sotaques e variantes do Inglês padrão do Reino Unido ou mesmo dos Estados Unidos. Um dos exemplos mais claros disso é o African American English (AAE, também chamado de Ebonics), que, de acordo com a Linguistic Society of America, é uma variante falada pelas comunidades afro-americanas dos Estados Unidos. Com diferenças fonéticas e inclusive gramaticais, o Inglês Afro-Americano foi, inclusive, considerado uma segunda língua, com status oficial, em programas de ensino bilíngue pelo Oakland School District (Distrito Escolar de Oakland, em Português), em 1996.

            Assim, podemos perceber que as raízes colonialistas advindas do Império Britânico possuem ressonância nos processos linguísticos do Inglês. Não obstante, o imperialismo estadunidense e a propaganda yankee, no mundo capitalista, acabam por exportar não somente um modo de vida e de consumo, mas, também, uma língua, que, nesse caso, é a língua inglesa. Sabemos que aqui, numa ex-colônia europeia do sul global, sofremos as injustiças e desigualdades intrinsecamente ligadas às explorações e abusos do sistema em que vivemos. Devemos, portanto, nos opormos a tudo aquilo que é anglófono, rejeitando a língua do capitalismo e dos grandes burgueses do mundo? Na minha concepção, certamente não.

            Ainda que nos oponhamos ao modo em que isso se deu, ignorar o fato de que o Inglês é uma língua internacional é isolar-se do que está dado; das antíteses e sínteses sociais que nos trouxeram onde estamos hoje. É ignorar as possibilidades que uma das Línguas Estrangeiras mais faladas no mundo pode nos ofertar; e, acima de tudo, é perder a oportunidade de nos comunicarmos com povos que também sofrem as mesmas opressões e as mesmas injustiças desse complexo sistema social, político e econômico que vivemos. A indignação, quando coletiva, ecoa mais forte. Apesar de ser uma ferramenta extremamente atrelada ao colonialismo, ao imperialismo e às muitas mazelas que vivenciamos hoje. Ao aprendermos o Inglês, passamos a ser capazes de nos comunicarmos internacionalmente, subvertendo tudo aquilo que nos fora empurrado goela abaixo por meio um estridente grito conjunto de transformação. É hora de nos apropriarmos dessa ferramenta; afinal, está mais do que na hora de falarmos e de agirmos contra aquilo que nos aflige como indivíduos, sociedade e mundo.

*Foto descrição: Mapa do norte da Europa, contendo o norte da França, da Alemanha, a Dinamarca, a Grã-Bretanha e a Irlanda. Acima da Alemanha está escrito: Modern countries are shown in green / Germany; acima da frança, está escrito France. Na Grã-Bretanha, temos England ao leste, Wales ao oeste e Scotland ao norte; em cima da ilha está escrito “Britain”. Na ilha à esquerda está escrito “Ireland”. Em cima da Dinamarca, em preto, está escrito “Saxons / Angles / Jutes”. No meio, há o North Sea e setas indicando da dinamarca para a Grã-Bretanha; entre essas setas está escrito “Germanic invasions of the 5th century”. No canto inferior direito, há uma seta para cima, apontando o Norte, e o texto “EnglishClub.com”.

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Xenofobia: um tema a ser discutido e uma realidade a ser combatida!

18/05/2021 11:48

Andréia Gomes Araújo,
Bolsista PET Letras
Letras Português

Nos últimos meses, o tema da xenofobia voltou com força à pauta de discussões entre os brasileiros, o reality show Big Brother Brasil (BBB) foi um dos principais gatilhos para que isso ocorresse. Com isso, a página do Instagram “Quebrando o Tabu” reforçou esse diálogo entre o programa e o que acontece com os brasileiros que moram no nordeste do país, nesse caso. Isso foi intensificado com a presença de uma nordestina, paraibana e campinense, na casa mais vigiada do país.

Mesmo que não você não assista ao programa, é provável que de alguma forma esteja por dentro dos últimos acontecimentos do reality. Pouco depois do início do BBB21, Juliette Freire tornou-se o centro das atenções fora da casa, principalmente, por ter que enfrentar a xenofobia. Além das várias outras atribuições positivas, que o povo brasileiro viu nela, as quais não trataremos aqui, a questão do enfrentamento da xenofobia e, por sua vez, da valorização da cultura regional ganhou força.  Em uma das ocasiões, a campinense chama a casa para conversar e diz que está se sentido excluída e que percebe que é por ser nordestina. Em alguns momentos, ela foi ridicularizada pelo seu sotaque, alguns chegaram a imitá-la, confirmando a xenofobia — ainda que alguns discordem, não há outro nome coerente para isso. Juliette gritava do seu jeito para dizer a nós, brasileiros, que ela estava sendo vítima de preconceito dentro da casa.

Fonte: Imagem de Instagram *

É importante chamar atenção para a palavra xenofobia, que em alguns dicionários significa aversão, hostilidade e ódio ao estrangeiro, pois, se pararmos para pensar, entendemos que estrangeiro, na verdade, acaba sendo alguém estranho, aquele que não partilha das características de certo grupo social e, não, necessariamente, alguém de outro país. Assim, a xenofobia pode ser entendida como o conjunto de ações em relação à origem das pessoas.

São diversas as ocasiões em que o nordestino é vítima de ódio por pessoas de outras regiões do país, por exemplo. As redes sociais e os jornais televisivos, por exemplo, estão aí para mostrar essa infeliz realidade, a qual foi intensamente pontuada no BBB21. O programa, embora seja de entretenimento, tem sido importante para trazer à tona diversas discussões sobre o humano e suas relações sociais. As reflexões servem não apenas para que os participantes percebam como agem com os outros a sua volta, mas, também, para que aqueles que assistem ao BBB se percebam em cada participante e atentem para os temas que estão sendo problematizados e discutidos, já que, às vezes, o preconceito está tão enraizado e banalizado que consideramos o ato de rir, imitar e/ou ridicularizar o outro por suas origens culturais e sociais como uma ação natural.

Nós, seres humanos, estamos em um posição privilegiada em relação às outras espécies no que se refere a nossa capacidade de reflexão consciente diante de problemas que precisam ser enfrentados. Vivemos em meio a um universo diverso, onde, cada vez mais, as migrações e o intercâmbio de culturas ganha espaço e se intensifica. Frente a isso, precisamos aprender a conviver e ter comunhão com as diferenças de origem daqueles que estão à nossa volta e não agredir, ferir, rejeitar, excluir e/ou prejudicar ao outro, por exemplo, pelo simples motivo de ele não ser igual a você.

Atualmente, não só a xenofobia ameaça a nossa integridade física e mental, mas diversas outras ações racistas, homofóbicas, discriminatórias, preconceituosas que existem ao nosso redor. Pense nisso! Posicione-se e lute em prol do respeito às diferenças e combata toda e qualquer forma de discriminação! Faça ao outro, apenas, aquilo que você gostaria que fizessem com você!

*descrição da imagem: Na imagem Juliette Freire posa para foto de lado com os braços cruzados, segurando um triângulo. Veste uma roupa preta e chapéu típico da paraíba. Ela tem cabelos longos e lisos e a pele clara.

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