Você conhece as motivações, os significados e as consequências do que fala?

17/06/2020 20:19

Ana Maria Santiago,
Bolsista de Acessibilidade
Letras – Português

Com certeza você já usou ou viu alguém usando alguns termos, tais como “cego” ou “surdo”, como metáforas para burrice, alienação ou até falta de caráter. Exemplos sobre esse tipo de uso não faltam, nos mais diferentes contextos sociais. A internet está cheia deles, seja em sites de notícias ou nas diversas redes sociais. Entretanto, você já se questionou por que isso acontece?

Essas metáforas são tão naturalizadas que parecem algo já dado, simplesmente parte da língua, mas não podemos deixar que isso nos impeça de pensar sobre isso e de mudar de atitude. Além disso, quando essas metáforas são usadas algumas pessoas tendem a pensar que estão sendo inteligentes ou sofisticadas, mas, na verdade, estão sendo capacitistas. Contudo, o que isso significa? Então, vamos entender um pouco mais o porquê você deveria parar de usar esse tipo de metáforas.

O primeiro ponto importante é que a maneira que usamos a língua e, por sua vez, as palavras nunca é aleatória. Nunca! Por si só, o fato de se referir a uma condição, a uma deficiência, ao modo como muitos de nós estamos no mundo, para ofender alguém já é um problema. Deficiência não pode ser sinônimo de ofensa. Se você usa o termo “cego” com o mesmo sentido que alienado ou desinformado, por exemplo, você está associando diretamente que o fato de se ter uma deficiência visual implica em ser alienado ou desinformado; ainda que você não pense assim.

Não importa que não seja a sua intenção. Não importa que você nunca tenha pensado nisso antes. Você está dizendo que essas características pejorativas estão relacionadas a não enxergar, o que também significa que pessoas com deficiência visual seriam alienadas ou desinformadas pelo fato de não enxergarem. Não enxergar, desse modo, é sinônimo de irracionalidade, alienação, ignorância e assim por diante. Como você acha que nós, que de fato somos pessoas cegas, nos sentimos com isso?

Fonte: Cenas do documentário Crip Camp: Revolução pela Inclusão (Disponível na Netflix)*

Vivemos em uma sociedade capacitista que, diariamente e de forma estrutural, entende que as pessoas com deficiência são menos capazes, inclusive menos humanas. Nada mais natural que o uso da linguagem reflita essas visões. Alguns defendem o seu direito a usar metáforas em seu cotidiano, outros, inclusive, dizem que nós que somos pessoas com deficiência exageramos nesse ponto. Todavia, por que não utilizar nossa língua, que é tão nossa, para evitar expressões que não só ofendem pessoas, mas que também ajudam a perpetuar uma estrutura capacitista? Por que insistir nessas metáforas ofensivas? A língua é feita por nós e é dinâmica, a constituímos a partir do que pensamos e do que acreditamos. Então, por que continuar dizendo que acreditamos que pessoas com deficiência são problemáticas ou que carregam características ruins?

Falo aqui da cegueira porque sou uma pessoa cega e isso me atinge de forma direta, mas é igualmente comum usar outras deficiências para ofender e ridicularizar. Repito, isso não é aceitável de jeito algum. Não se justifica. Não existe cegueira intelectual ou surdez seletiva. Essas expressões são apenas reflexo do capacitismo que está arraigado em tudo: em nossa estrutura social, nas instituições e no comportamento. A língua é um instrumento político e pode ser usada para dominação e poder, por isso, cabe a nós desconstruí-la para que não seja mais uma forma de opressão. Pense nisso! Ao disseminar metáforas capacitistas, mesmo sem pensar nelas, você contribui para que as pessoas com deficiência sejam discriminadas e postas à margem da sociedade.

*fotodescrição: A imagem é uma montagem com cinco cenas em preto e branco do documentário “Crip Camp: Revolução pela Inclusão”. À direita da imagem estão duas fotos maiores, uma sobre a outra. Na foto superior, temos um homem negro carregando no colo um homem branco. Ambos muito sorridentes. Ao fundo da foto aparece um homem à direita em uma cadeira de rodas e à esquerda duas mulheres sentadas, uma delas olhando para um outro homem se apoiando em uma bengala. Atrás deles árvores, um vasto gramado e uma grande casa. Na foto inferior, diferentes garotas reunidas sorriem. Uma está de joelhos, três em cadeiras de rodas e três sentadas no chão. Vemos os pés de mais garotas que não estão aparecendo. Estão num grande gramado com arbustos ao fundo e à esquerda. Ao chão há alguns copos e caixas de bebidas, dando a entender que estão num piquenique. À esquerda da imagem, estão três fotos menores. Na foto superior, vemos algumas pessoas diante de grades com a casa branca ao fundo. Duas pessoas estão em cadeiras de rodas, uma mulher e um garoto. O garoto segura um cartaz onde está escrito: “SIGN 504 REG.S NOW” com um símbolo de cadeirante na parte inferior. Na foto do centro, vemos um rapaz negro atrás de uma cadeira de rodas, sem camisa, segurando um violão com sua mão direita, o qual está sobre seu ombro direito. Sua mão esquerda está na cadeira de rodas onde há um garoto sorrindo. Ao fundo, uma estrada de terra que parece ser no campo, com algumas casas à sua direita. Na foto da parte inferior, há um garoto negro com um chapéu de palha e uma camisa de bolinhas brancas com uma jaqueta por cima. À direita dele, há uma menina em uma cadeira de rodas cochichando no ouvido de outro rapaz que também está na cadeira de rodas que quase não aparece. Ao fundo pessoas sentadas no chão e em pé no gramado.

Tags: comunicaPET

Pranayamas: O que são? Para que servem?

16/06/2020 16:59

Ana Gabriela Dutra Santos,
Bolsista de Acessibilidade
Letras – Libras

Os pranayamas são respirações conscientes e controladas feitas durante as práticas de yoga. Eles podem ser realizados em todos os momentos do dia. Pranayama deriva de duas outras palavras de origem sânscrita, prana que significa energia vital e yama que significa controle. A respiração, quando feita de forma adequada, nos auxilia a aquietar a mente, a equilibrar nossas emoções, a manter o corpo e organismo saudáveis, entre outras vantagens. Assim, os pranayamas são exercícios respiratórios capazes de trazer diversos benefícios.

Vejamos três pranayamas diferentes para que você possa fazer no seu dia a dia:

1- Chaturánga Pranayama (Respiração Quadrada) – Vídeo disponível, clique aqui!

Este pranayama auxilia no controle da mente, pois ele acalma a respiração e permite que as etapas da respiração tenham efeito no corpo (inspiração, retenção com pulmões cheios, expiração e retenção com pulmões vazios). Assim, este pranayama auxilia no autocontrole, equilíbrio emocional, estabilidade, entre outros, permitindo que você se sinta mais tranquilo/a.

  • Inspire durante quatro (04) segundos;
  • Retenha os pulmões cheios por quatro (04) segundos;
  • Expire durante quatro (04) segundos;
  • Retenha os pulmões vazios por quatro (04) segundos.

Observação: O tempo pode ser alterado conforme você se sinta confortável, pode passar para cinco (05) segundos, seis (06) segundos ou mesmo três (03) segundos. O importante é que todas as etapas da respiração tenham a mesma duração.

2- Maha Pranayama ou Prana Kriya (Respiração Completa) – Vídeo disponível, clique aqui!

Esta respiração é bastante usada nas práticas de yoga, pois ela permite que os pulmões recebam o máximo de ar possível, fazendo com que o ar entre e saia em sua completude, utilizando-se a caixa torácica como um todo. Além disso, esta respiração pode acalmar o sistema nervoso central, sendo bastante recomendado para pessoas com hipertensão e com problemas cardíacos, pois trabalha com os músculos, articulações do aparelho respiratório, cartilagens e sistemas circulatório e digestório.

  • Inspire levando o ar primeiramente para o abdômen, expandindo-o, e, após isso, permita que o ar chegue até o início do tórax, afastando suas costelas, e, em seguida, preencha a parte superior do tórax.
  • Expire, soltando primeiro o ar da parte superior do tórax, e, após isso, solte o ar da parte inferior do tórax e, em seguida, o do abdômen, fazendo os movimentos inversos da inspiração.

Observação: Você pode colocar as mãos sobre o abdômen para senti-lo se expandir, bem como sobre as costelas para as sentir se afastando e, por fim, sobre a parte superior do tórax (peito) sentindo-o se expandir (a expansão da parte superior é suave, pouco perceptível).

3- Eka Surya Bedha Pranayama (Respiração apenas pela Narina Solar) – Vídeo disponível, clique aqui!

Este pranayama pode aumentar a energia corporal, acordar a mente e aquecer o corpo. Excelente para praticar pela manhã ou antes dos estudos e trabalho, pois ajuda a despertar. Assim, este pranayama é uma ótima dica para quem está devagar ou com preguiça de fazer suas atividades. Não é muito indicado para se praticar a noite, mas, se o fizer, tenha consciência de que, possivelmente, ficará mais desperto.

  • Com a mão em Chin Mudrá (o mudrá da foto) feche a narina esquerda;
  • Inspire e expire pela narina direita, pode acrescentar retenções durante a respiração.

Fonte: Arquivo Pessoal. Ana Gabriela em postura do Yoga*

Espero que façam esses pranayamas e sintam os benefícios que eles podem trazer. É importante lembrar que existem diversos pranayamas, não apenas esses três. Se sentirem interesse e quiserem aprender mais sobre estas respirações, sugiro que procurem um/a professor/a de yoga e que peçam a ele/a que lhes ensine e explique sobre outros pranayamas.

Namastê!

Fotodescrição: Ana Gabriela está sentada sobre um tapetinho azul. Ela está de calça legging cinza e blusa de frio de cor salmão claro. Ela está sentada com as pernas flexionadas de forma que a sola do pé esquerdo encosta em sua coxa direita e a perna direita está na frente da perna esquerda. Seu cabelo está solto sobre seus ombros. Seus olhos estão fechados e ela está com sua mão esquerda apoiada no joelho esquerdo e sua mão direita em Chin Mudrá (dedos polegar e indicador com as pontas unidas formando um círculo e dedos mínimo, anelar e médio estendidos) em que o dorso dos dedos médio, anelar e mínimo pressionam a narina esquerda, fechando-a. Atrás de Ana Gabriela há um sofá nas cores marrom escuro e claro e ao fundo uma cortina branca.

Tags: comunicaPET

Dedico este texto aos não tão amantes da literatura

15/06/2020 21:25

Sarah Ortega,
Bolsista PET-Letras
Letras – Espanhol

Na bolha social de uma estudante de Letras, a leitura, nesta época de quarentena, tem aumentado exponencialmente. A curiosidade e, ouso dizer, até mesmo, a necessidade para compreender, refletir ou usá-la como válvula de escape para as diferentes realidades caóticas que estamos e sempre estivemos — mas que para alguns foi aflorada somente pela pandemia — é um sustento para uma mente saudável. Contudo, ao mesmo tempo, observo mais atentamente alguns, inclusive familiares, para quem a literatura não se fez amiga e é para eles que escrevo. Hei de recomendar alguns clássicos nacionais que rompem com o estereótipo de que a leitura seria monotonia e incompreensível subjetividade.

A leitura de clássicos literários é, muitas vezes, associada a um livro gigantesco, tedioso e de difícil entendimento, mas que de alguma forma se fez famoso. Não se engane, alguns fazem jus à fama, mas aqui vou recomendar aqueles que, a meu ver, dão gosto de ler, que afloram diferentes sentimentos e com uma quantidade nada “indecente” de páginas.

Fonte: Arquivo pessoal. Montagem com Caio, Lygia e Nelson, feita pela autora*

Um gênero que em minha opinião é divertidíssimo para começar é a peça de teatro. Acredite! Ler é tão intrigante quanto fazer performance. Assim, escolho o queridinho, mas polêmico, Nelson Rodrigues e seu livro Beijo no Asfalto. Dramaturgo que teve suas peças adaptadas em novelas da Rede Globo de Televisão, Nelson é para aquela tia conservadora que gosta de ouvir uma fofoca trágica. Acredite! O final da obra irá impactá-la.

Aproveitando o solo de leituras provocativas, Morangos Mofados de Caio Fernando de Abreu não poderia faltar, com críticas ácidas e dissimuladas, é um ótimo livro para ler em uma bela tarde de inverno acompanhado de um chá, mas cuidado para não queimar a língua com a escrita excitante do autor.

Por último, deixo o palco com a grande escritora paulista Lygia Fagundes Telles, uma grande contista brasileira que ganhou o Prêmio Camões e qualquer coração humano que a ler. Essa mulher não tem piedade de seus leitores. Com uma narração, muitas vezes, simples, esconde uma vastidão de dúvidas e possíveis acontecimentos, aquela pegada de “Capitu: traiu ou não?”, fica a escolha do leitor — traiu não, mas deveria; e, se traiu, traiu pouco —, mas como a própria escritora diria em seu conto Potyra — para mim não há outra frase que mais traduza sua literatura: “Não peça coerência ao mistério nem lógica ao absurdo”.

Compartilhe essa matéria com seus familiares e os incentive a se entregar a leitura!

Leia bastante, não somente nessa quarenta! Fica a dica!

* fotodescrição: imagem em fundo preto com riscos cinzas. Há uma colagem em preto e branco com três rostos. No canto esquerdo está Caio Fernando de Abreu, é um homem branco, com sobrancelhas grossas e cabelo raspado, usa óculos e tem suas mãos cruzadas de forma a tapar seus lábios inferiores. Em seu lado direito, e ao meio, está Lygia Fagundes Telles, uma mulher branca com finas sobrancelhas, usa batom, tem um cabelo liso e dividido de lado. Ao seu lado direito, no canto esquerdo da imagem, está Nelson Rodrigues, é um homem branco que tem sobrancelhas grossas, cabelo liso penteado para trás e tem sua mão esquerda posicionada com o polegar para o alto e o indicador para frente.

 

Tags: comunicaPET

Que tal um livro antirracista para esta quarentena?

10/06/2020 18:20

Moara Zambonim,
Bolsista PET-Letras
Letras – Português

Enquanto ondas de protestos antirracistas se espalham ao redor do mundo em decorrência do assassinato de George Floyd — homem negro norte-americano morto pela polícia no dia 25 de abril de 2020 — muito tem se falado da necessidade de engajamento de pessoas não-negras nos debates raciais.

Uma vasta lista de autoras, vinculadas principalmente ao feminismo negro, tem se popularizado nos últimos anos no Brasil. O movimento é embalado por obras de linguagem acessível e dinâmica, com visões acadêmicas e literárias usadas para discutir fenômenos complexos como o racismo e o sexismo.

Dentre essas autoras, destaco o trabalho da intelectual afro-americana bell hooks. A autora escolhe esse pseudônimo em homenagem à sua bisavó, Blair Bell Hooks e ainda afirma escrevê-lo em letras minúsculas numa tentativa de dar mais foco às suas ideias do que à pessoa por trás delas. Em especial, o seu livro “O Feminismo é Para Todo Mundo”,  publicado em 2000.

Fonte: Arquivo Pessoal*

Ao falar sobre a necessidade de lutarmos pelo fim da violência, por exemplo, a escritora pontua que mulheres e homens “nesta sociedade, aceitam e perpetuam a ideia de que é aceitável que uma parte ou grupo dominante mantenha seu poder sobre o dominado por meio de força coercitiva” (HOOKS, 2019. p. 98).

Para todos aqueles que se interessam pelos movimentos das últimas semanas — não os entendem bem, estão intrigados ou têm curiosidade —, a leitura de bell hooks pode ser um bom começo!

* Fotodescrição: Sobre um tapete branco, estão dispostos uma xícara branquinha com café, ao lado de um pé de moleque e o livro da bell hooks “O feminismo é para todo mundo”. Abaixo do título, lê-se “políticas arrebatadoras.” A capa é laranja escura e traz uma foto da autora, com seu rosto cortado pela metade, na vertical. Da xícara, saem rabiscos beges, imitando a fumaça do café.

Quem tem medo do racismo?

09/06/2020 18:26

Nicole da Cruz Rabello,
Bolsista PET-Letras
Letras – Inglês

Neste texto, vou lhes apresentar a obra “Pequeno Manual Antirracista” de Djamila Ribeira, mas primeiro quero lhe instigar a pensar sobre o porquê esse título — “Quem tem medo do Racismo?” — chama a atenção! A palavra Racismo é muitas vezes tratada como tabu dentro da comunidade branca, pois muitos não querem se ver como racistas. Contudo, não percebem que suas falas e atitudes contém racismo. Por isso indago, quem são essas pessoas que tem medo? Não são só os negros vítimas dessa violência, mas também os agressores brancos que não querem ter esse título associado a eles.

Fonte: Pinterest – imagem de um garoto negro como alvo *

Entretanto, por que falar de racismo em meio a uma pandemia? Ora, com a crescente veiculação midiática de casos de racismo, principalmente nas redes sociais, vemos que o  racismo no Brasil e no mundo está sendo, cada vez mais, exposto. A população se armou, não com armas, mas com câmeras para registrar as agressões e as discriminações físicas e verbais que antes passavam desapercebidas. E os agressores, por não terem sua identidade revelada, acabam por não serem responsabilizados nem sofrerem as devidas ações judiciais/jurídicas cabíveis em casos de racismo. Todavia, por que filmar e expor esses “cidadãos”? Não é apenas uma forma de expor a sua imagem ou degradá-la? Não, isso é feito para que esses atos racistas não se repitam nem passem impunes pelo sistema judiciário, e para que esses agressores não perpetuem esses atos repulsivos, abusivos e desnecessários.

Racismo e injúria racial são crimes no Brasil, mas qual a diferença entre os dois? De modo geral, injúria seria ofender a honra do indivíduo por sua raça, cor, religião ou origem; e  racismo seria uma ação discriminatória direcionada a um grupo ou coletivo específico, sendo este mais grave e inafiançável. No entanto, se fizermos uma breve pesquisa na internet perceberemos que, ainda que a população negra corresponda a 56% da população do Brasil, os casos de racismo e injúria que, de fato, vão a julgamento são poucos. E esses poucos, segundo o Laboratório de Análises Econômicas, Socias e Estatísticas (Laeser), evidenciam que 70% das ações por crime de racismo ou injúria racial no país tendem a pender em favor do réu, totalizando 66,9% dos casos vencidos pelo réu e 29,7% de casos vencidos pela vítima .

De acordo com uma pesquisa feita pela Globo News, no Rio de Janeiro, de 1988 a 2017, somente 244 processos de Racismo e Injúria Racial foram concluídos, dando uma média de 8 casos por ano. E destes processos, 40% dos casos foram considerados improcedentes pelo judiciário cível e 24% foram absolvidos na área criminal. No Tribunal de Justiça do Rio, apenas quatro casos de racismo foram julgados em 2017 e oito em 2016.  Em uma reportagem do site Geledés, os números no Tribunal de Justiça da Bahia são ainda mais baixos, de 2011 a 2018 houve apenas um processo julgado por ano.

Bom, depois de mencionar todos esses dados, quero que você reflita novamente! O sistema judiciário brasileiro é racista? Bom, já consigo imaginar sua resposta. Então vamos ao foco da minha reportagem, que tem como objetivo te ajudar a visualizar e combater os casos de racismo. Como? Sendo ANTIRRACISTA.

Vinda de uma comunidade pobre, a jovem Djamila apenas conseguiu entrar na Unifesp aos 27 anos, com uma filha, e pelo sistema de políticas de ações afirmativas, pois cota não é esmola, mas, sim, uma reparação social e histórica para com a comunidade negra. Ela é filósofa, feminista, escritora e acadêmica. Ela se tornou famosa por seu forte engajamento cyber ativista nas redes sociais. Atualmente, Djamila faz palestras pelo mundo falando sobre feminismo, raça e gênero, além de ser colunista no jornal Folha de São Paulo. Seu livro “Pequeno Manual Antirracista” foi publicado em 2019, pela Companhia das Letras.

Fonte: Google Images – foto de Djamila e sua obra **

Este livro, com linguagem simples e didática, é um guia para as pessoas pararem, refletirem e observarem os casos de racismo ao seu redor, mas não só observar, mas, sim, evitar, reagir e dialogar sobre. O Pequeno Manual Antirracista traz em seu conteúdo temas chave do dia a dia para as pessoas identificarem o porquê são racistas. Por exemplo a cultura da hipersexualização e marginalização do negro e da negra na mídia como bêbado, relaxado, gay afeminado e periférico, desdentado ou a mulata bonita de corpo esbelto e sensual.

Há também a expressão “wikipreta” onde Djamila tira o fardo de apenas as pessoas negras terem que saber tudo sobre sua cultura, etnia e história. Instigando e estimulando que o branco vista a camisa antirracista e comece também a dialogar, discutir e estudar sobre questões raciais dentro do seu grupo social e familiar, tirando essa responsabilidade da comunidade negra e dividindo-a com a comunidade branca. Um dos temas abordados é a falta de leitura de obras de autores negros e de autoras negras, dentro e fora da academia, isto é, a falta de representatividade negra desde a literatura infantil até a acadêmica e canônica.

Entretanto, vale destacar que o tema mais importante no livro, na minha opinião de leitora negra, é a abordagem feita sobre o reconhecimento por parte do branco de seus privilégios para que, através disso, ele também possa combater o racismo dentro das escolas e ambientes de trabalho. Isso nos leva a mais perguntas: quantos negros e negras você vê ocupando um cargo de diretoria ou chefia? E quantos negros e negras você observa trabalhando como copeiras/os, faxineiras/os ou garçons/etes? Faço essas indagações, pois já fui confundida, muitas vezes aqueles que estão nessas profissões, mas, por outro lado, em nenhum momento fui confundida com aqueles que ocupam cargo postos socialmente como mais importantes.

Leia, preencha-se, observe-se e mude, mas, não só você, e, sim, o ambiente ao seu redor.

Combata o racismo, seja antirracista.

*Fotodescrição da Imagem 1: A imagem é um quadro pendurado em uma parede de tijolos a vista, a arte no quadro foi feita digitalmente. Imagem de fundo laranja com um menino negro, em pé, aparecendo do joelho para cima. O menino tem uma expressão neutra. Ele veste uma camisa preta com o desenho de um alvo de tiro em branco no centro do seu peito. No meio do desenho do alvo há um ponto vermelho indicando o local central do alvo de tiro.

** Fotodescrição da Imagem 2: Imagem de fundo rosa, ao centro Djamila Ribeiro, uma mulher negra, jovem, com os cabelos trançados curtos e presos para cima. Ela usa um brinco comprido e fino de cristais na orelha direita e está com o rosto levemente virado para a esquerda. Ao lado da imagem está a foto do livro, com a capa amarela e os dizeres em preto “Djamila Ribeiro”, em cima com letras grandes, ao centro “Companhia das Letras”, em letras pequenas, e abaixo “Pequeno Manual Antirracista”, em letras grandes. Ao redor das palavras estão pequenos riscos de distintas tonalidades de tons de pele.

Tags: comunicaPET

A poesia italiana de Antonia Pozzi: uma dica de leitura

08/06/2020 18:33

Camila Vicentini Camargo,
Bolsista do PET-Letras
Letras – Italiano

Enquanto estamos em casa tentando enfrentar tudo da melhor maneira que conseguimos, nada melhor do que, quando possível, nos cercarmos de arte, música, filmes e… poesia. Pensando nisso, decidi apresentar um pouquinho do trabalho da poetisa italiana Antonia Pozzi.

Ouvi falar dela, pela primeira vez, no filme Me Chame Pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino. Se trata de uma adaptação do livro homônimo publicado em 2007 pelo egípcio André Aciman. Em dado momento, uma personagem agradece ao amigo pela recomendação de leitura de um livro de poesias.

Lembro de ter anotado o nome para pesquisar mais tarde e devo dizer que foi a melhor coisa que fiz, porque, hoje, considero suas poesias as mais lindas de todos os tempos. São poesias de versos livres, sem compromisso com rimas ou estrutura regular — uma forma muito atraente, a meu ver, de se ler poesia.

Antonia Pozzi nasceu em 1912, em Milão. Suas poesias foram publicadas em quantidade limitada em 1939, pelos seus pais, cerca de um ano após seu suicídio. Em 1943, o livro foi reimpresso, em edição ampliada, devido à positiva receptividade. Apesar das obras ainda não disponíveis no português brasileiro, você pode encontrar aqui alguns textos traduzidos pela portuguesa Inês Dias.

Fonte: Montagem feita por Camila a partir de fotos retiradas da internet*

Tamanha é a força e a beleza das palavras de Antonia. Seu tom melancólico se alia ao frescor de uma natureza sempre presente e seu tom de enfrentamento se alia à vulnerabilidade da vida cotidiana. E por trás de cada texto, há um universo a ser — mais do que decifrado — sentido.

Eu simplesmente amo tudo o que essa mulher fez e espero que você goste também! Acredito que tirar um tempinho para ler coisas que nos fazem bem e para conhecer novas artes é fundamental nesse momento de tantos medos e incertezas.

Boa leitura!

*fotodescrição Sequência de três fotos em preto e branco montadas lado a lado na horizontal. Na foto da esquerda, vemos Antonia Pozzi de pé em uma grama alta, com as mãos nos bolsos da calça. Está sorrindo, com a testa levemente franzida pelo sol que bate em seu rosto. Antonia está vestindo uma calça branca e camisa branca de manga curta. Atrás dela, vemos um arbusto e, à direita da foto, parte desse arbusto faz sombra em sua perna esquerda. Na foto do meio, em primeiro plano, vemos Antonia sorrindo, com as pernas abertas sentada em uma pedra, segurando um pedaço de neve em sua mão direita. Está vestindo um coturno preto, meias listradas, uma calça larga de alfaiataria que vai até um pouco abaixo do joelho, um casaco também de alfaiataria e uma echarpe estampada nas pontas. Em segundo plano, há um espaço coberto pela neve, como uma suave colina. Ao fundo, há pinheiros. Na foto da direita, vemos Antonia em cima de uma bicicleta, num estreito caminho de areia. Atrás dela o caminho faz uma leve curva para a direita. Antonia segura nos guidões da bicicleta, enquanto apoia seu pé esquerdo no chão e esboça um leve sorriso. Antonia veste calça e sapatos pretos, camisa branca de manga curta e gravata preta. À direita da foto, um arbusto com flores parte do chão até a altura do rosto de Antonia. À esquerda da foto e atrás de Antonia, vemos outros arbustos com menos flores, do outro lado do caminho de areia. Ao fundo, vemos algo como um campo, e algumas árvores de tronco fino.

Tags: comunicaPET

A vida e a obra de Oscar Wilde: quem ele foi e quem ele representa hoje?

05/06/2020 19:51

Luciana dos Santos,
Bolsista PET-Letras
Letras – Inglês

Oscar Wilde foi um autor irlandês do século XIX muito aclamado pela crítica. Contudo, não só a crítica julgou Wilde. O público também o julgou, o aplaudiu e o observou quando ele estava no pelourinho. Hoje, a sua figura tem outras representações e interpretações. Pode-se dizer que, na visão de alguns, o autor que foi do céu ao inferno, foi salvo como um mártir.

A biografia de Wilde poderia muito bem ser o plot de uma de suas peças de teatro. Filho de uma poetisa e um médico, Wilde teve uma origem privilegiada e o fim de sua vida foi caracterizado pelo anonimato e pela pobreza, sendo a sua própria vida uma das histórias de ascensão e queda mais marcantes na história da Literatura. Os acontecimentos que determinaram a sua queda foram em decorrência do envolvimento de Wilde com Lord Alfred Douglas, ou “Bosie”, relação que fez com que ele perdesse sua reputação e seu prestígio. Quando o pai de Bosie, Marquês de Queenberry, chamou Wilde publicamente de sodomita, Wilde deflagrou um processo contra ele por difamação. Contudo, ao final do primeiro julgamento, Wilde passou, de parte ativa no processo, ao banco dos réus, pelo crime de comissão de “ato libidinoso com homens”, devido a diversas provas de que Wilde se envolvia romanticamente com outros homens. Nisso, Wilde foi condenado à prisão, tendo que cumprir dois anos de trabalhos forçados, de 1895 a 1897.

Wilde e “Bosie” em Oxford, por volta de 1893 (British Library)*

Enquanto cumpria sua pena na prisão de Reading e quando se exilou após ganhar liberdade, Wilde escreveu sobre a experiência do cárcere. Dentre esses escritos, há o poema A Balada do Cárcere de Reading (The Ballad of Reading Gaol), inspirado no enforcamento de um dos prisioneiros, e algumas cartas que foram publicadas em jornais, nas quais ele denuncia casos de maus-tratos contra crianças, além das condições precárias de subsistência, e outras irregularidades na prisão. Ademais, outros detalhes de sua vida na prisão foram divulgados com a publicação póstuma de De Profundis, forma como é conhecida uma longa carta chamada Epistola: in Carcere et Vinculis que Wilde escreveu para Bosie enquanto estava na prisão. Esses escritos reforçam a visão de que Wilde era vítima de um sistema social repressivo e cruel, que ele fez questão de criticar e expor antes, e, principalmente, depois da sua experiência no cárcere.

Trevor Fisher (2008) compreende a evolução da reputação de Wilde em quatro fases: (1) estudante universitário em Oxford; (2) escritor com uma carreira literária de sucesso; (3) época das disputas judiciais e, em seguida, seu encarceramento; e (4) uma trágica figura cultural e literária. Na sua fase literária de escritor de sucesso, destacam-se obras como O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray); diversas peças que o autor escreveu, como A Importância de ser Prudente (The Importance of Being Earnest); contos, como O Crime de Lord Arthur Savile (Lord Arthur Savile’s Crime); e ensaios, como A Alma do Homem sob o Socialismo (The Soul of Man Under Socialism), no qual Wilde também tece críticas sociais.

Fonte: Arquivo pessoal de Luciana dos Santos**

Atualmente, sobre a imagem de Wilde vista pelo público atual, o que se predomina é a impressão de que ele foi um mártir por conta de seu comportamento que, hoje em dia, conhecemos como homossexualidade. Nos tempos de Wilde, pouco se falava sobre isso — nem se nomeava —, e havia muita repressão contra pessoas como ele, inclusive por meio de instituições jurídicas, com base em normas decretadas. Na atualidade, em nosso país, não se tratam mais de infratores da lei, mas continuam sendo indivíduos atacados e perseguidos em nossa sociedade, situação que persiste mais de dois séculos após o encarceramento de Wilde.

Oscar merece por muitos motivos ser lido, conhecido e reconhecido. Ele foi um artista extremamente talentoso e à frente de seu tempo: uma mente brilhante que foi vítima de um sistema, mas que deixou um belo legado. Vamos conhecer melhor Oscar Wilde? Que tal começar a lê-lo?

Referência

FISHER, Trevor. Oscar Wilde and the Dynamics of Reputation. The Wildean, No 33, pp. 57-65, Jul. 2008.

*fotodescrição: Wilde e Douglas aparecem juntos na foto antiga amarelada. Wilde tem cabelos escuros e está à esquerda, sentado em um banco, de pernas cruzadas, e olhando para nós. Ele está com a mão direita levantada e segurando um cigarro entre os dedos indicador e médio. Seu braço esquerdo dá a volta nas costas de Bosie, que está sentado ao seu lado esquerdo. Ele veste um paletó escuro com linhas verticais. À direita, sentado no banco, está Bosie, que tem cabelos claros e cruza as pernas, olhando o horizonte. Suas mãos estão em cima de um chapéu em seu colo. Ele veste uma calça bem clara e um paletó, um chapéu e uma camisa mais escuros.

**fotodescrição: Imagem com quatro livros sobre um fundo bordô texturizado. No topo da imagem, a parte de cima de um livro, com o nome Oscar Wilde em branco no topo com fundo preto, e “De Profundis” logo embaixo em preto em um fundo amarelo. Abaixo, o subtítulo “e outros escritos do cárcere”. À esquerda, um livro com um desenho de Oscar com a mão no queixo olhando para nós num fundo bege claro. Embaixo, está escrito “Contos Completos” em branco num fundo preto. À direita, um livro com uma capa com desenhos que remetem às penas de um pavão, com linhas cinza claro, fundo cinza chumbo e formas circulares vermelhas. Na parte de baixo da capa, há um retângulo vertical branco, onde está escrito em preto: Oscar Wilde, e, embaixo, O Retrato de Dorian Gray. No meio, em cima de todos os livros há um livro com uma foto preto e banco de Wilde no centro da capa, que tem um fundo cinza. Ele está usando um casaco de pele preto e olha para nós. No topo da capa, lê-se National Bestseller, e em baixo Oscar Wilde, em preto. Na parte de baixo da capa, está escrito o nome do autor da biografia Richard Ellman em preto.

Tags: comunicaPET

Como Você Anda Cultivando a sua Finitude?

04/06/2020 20:16

Juliana Maggio,
Bolsista do PET-Letras
Letras-Português

Seguimos com a constante impressão de que os dias passam em um piscar de olhos, que as semanas se encurtam entre uma reunião e a ida ao supermercado, que os meses e anos voam. Que será isso? Quantas coisas deixamos para depois, quantas tarefas optamos por pular ou, ainda, por fazer rápido, na intenção de aproveitar logo o descanso. Que descanso? Tempo de fato livre tem sido artefato de luxo em tempos contemporâneos.

Com o avanço da vida moderna e das tecnologias, os dias se reduzem a instantes valiosos, até mesmo monetariamente falando. Se hoje você fosse questionado sobre o que entende de tempo, como poderia conceituar o passado, o presente e o futuro? Estes são tempos do tempo, normalmente só nos permitimos pensar sobre o assunto quando se trata de verbos, mas e quando falamos do tempo? Segundo pensadores, vivemos em um constante instante que se reduz ao presente, isto é, o passado fica para trás cada vez mais que o instante-presente avança, já o futuro é tão longínquo e incerto, que não o conseguimos alcançar.

Nesta incessante busca por mais tempo, acabamos por vezes nos perdendo em coisas pequenas, que ao longo do tempo, percebemos que eram rasas. Essa noção de agitação, acaba causando uma sensação de ansiedade e, consequentemente, medo. Medo de perder tempo — medo até da solidão —; o que pode soar estranho em se tratando de uma era em que estamos conectados em tempo integral, uns aos outros, nas mídias digitais.

Foto da petiana Juliana assistindo Quanto Tempo o Tempo Tem, sentada no sofá marrom de costas para a câmera. Ela segura com as duas mãos o celular aberto no documentário da Netflix. Na tela, pode-se ver uma cena que mostra uma cidade em movimento e, no centro mais direita, lê-se os nomes dos produtores do documentário. Juliana está vestindo blusa de ombro a ombro rosa claro e uma calça preta, no colo tem uma almofada florida de fundo bege. A esquerda na foto, aparece seu cabelo castanho longo e liso e sua pele clara.

Mas afinal, quanto tempo o tempo tem? Esse é questionamento do documentário de mesmo nome, de Adriana L. Dutra e Walter Carvalho. Eles procuraram ao redor do mundo pessoas que pudessem responder a essa questão e, então, criaram esse documentário que aborda desde os pensamentos filosóficos às estatísticas sobre o funcionamento do tempo. O que tivemos foi um belo e rico material que não só se preocupou em falar sobre o tempo e seus anseios, mas também sobre conceitos como o de Transhumanismo, que significa melhorar o que a natureza fez. Isso porque somos parte da natureza, então a devemos melhorar e alterar através da tecnologia.

Imaginar um cenário em que vários computadores estarão infiltrados em nossos organismos já não é tão absurdo, visto que a medicina já se utiliza de algumas dessas tecnologias para melhorar a expectativa de vida das pessoas. E falando em expectativa de vida, esse é outro tema abordado no documentário, lá conseguimos perceber que a quarta idade já chegou para muitas nações (não devemos generalizar, pois os índices de desigualdade social só aumentam no mundo). Para muitos, os 80 anos são os novos 60.

Então, deixo aqui como sugestão para esses dias tão incertos, o documentário Quanto Tempo o Tempo Tem. E mais, o que você anda fazendo com o seu tempo? Como o administra? Como o concilia com o laser?; visto que a calmaria trás clareza, centralidade e reenergização. O que nos torna humanos é a finitude. Então a devemos aproveitá-la ao máximo, de preferência com qualidade.

“O tempo é precioso […]
viver com intensidade, isso que é a coisa mais preciosa que existe.
[…] dar valor a cada instante da existência, isso é que  vale”.
Monja Coen Sensei.

Fonte: Foto de Arquivo pessoal*

* fotodescrição: Foto da petiana Juliana assistindo Quanto Tempo o Tempo Tem, sentada no sofá marrom de costas para a câmera. Ela segura com as duas mãos o celular aberto no documentário da Netflix. Na tela, pode-se ver uma cena que mostra uma cidade em movimento e, no centro mais direita, lê-se os nomes dos produtores do documentário. Juliana está vestindo blusa de ombro a ombro rosa claro e uma calça preta, no colo tem uma almofada florida de fundo bege. A esquerda na foto, aparece seu cabelo castanho longo e liso e sua pele clara.

 

Tags: comunicaPET

Sobre salvar vidas e alimentar almas

03/06/2020 19:46

Vítor Pluceno Behnck,
Bolsista do PET-Letras
Letras – Inglês

Enquanto milhares de pessoas sofrem e perdem a vida por conta do novo Coronavírus (COVID-19), aqueles podem e conseguem, dentro das suas limitações, permanecer em casa, encontram-se num estado de isolamento não só físico, mas existencial: dentro de nossas casas, parece que nada mais faz sentido. Como ser produtivo enquanto a consciência pesa porque milhares têm de se expor e arriscar suas vidas na rua, já que são obrigados a alimentar o sistema que esperam que os alimentem de volta? Qual o sentido de manter essa lógica produtivista num momento em que o mundo para, e que a melhor maneira de salvar vidas é permanecendo reclusos em nossas casas?

Dentre tantas questões, aqueles que conseguem permanecer protegidos buscam refúgio naquilo que nos faz nos entendermos como humanidade: a arte. Nesse momento, são os filmes, as novelas, os livros, as séries e as músicas, por exemplo, que dão a tônica de nossos dias, permitindo-nos realizar uma “fuga” da realidade ou, até mesmo, repensar a nossa própria existência e, assim, ressignificar esses momentos que potencialmente são social e individualmente traumáticos. É um tanto irônico que, numa época onde a Ciência é percebida como indispensável para a prosperidade humana por sua fiel descrição dos fatos e da natureza — e que de fato é —, as mais abstratas e singulares maneiras de descrição da realidade e dos sentimentos, que são as manifestações artísticas, preenchem uma lacuna substancial na vida de milhões de pessoas enquanto cientistas buscam respostas sobre como resolver os problemas que estamos enfrentando.

(Reprodução: Instagram – @susanocorreia / Susano Correia.
Obra “homem morando onde não lhe cabe mais”. Óleo sobre tela, 88 cm x 115 cm. 2019.)*

(Reprodução: Instagram – @susanocorreia /  Susano Correia.
Obra “homem sufocado com sua própria delicadeza”. 2019.)**

Ao conceber o título desse texto, “Sobre salvar vidas e alimentar almas”, pensei em propor a reflexão: qual o papel que nós, profissionais da área de Linguística, Letras e Artes, desempenhamos durante uma pandemia global que duramente acomete milhares de pessoas diariamente e, ainda por cima, causa dor e sofrimento inclusive àqueles que não podem se despedir de seus entes queridos como habitualmente se fazia? Enquanto enfermeiros, médicos e demais profissionais da saúde lutam para salvar vidas, qual o nosso papel e de que modo podemos alimentar as almas que sobrevivem ao COVID-19, mas que talvez tenham dificuldades em sobreviver ao estranhamento da vida pós-pandêmica?

Uma coisa é certa: a arte, em todas suas facetas e modos de ser, desempenhará um papel ainda mais fundamental nos próximos anos ao tentar digerir o trágico embrolho histórico que estamos experienciando. No meio da “descoisificação”, da desconstrução e do repensar sobre tudo que entendíamos como cultura, sociedade e política, o esforço se voltará à tentativa de encontrar o que restará de humano na humanidade. E mais uma vez, a máxima de Ferreira Gullar ecoará novamente, e perceberemos que a arte existe porque a vida não basta.


(Reprodução: Instagram – @gabuffon / Gabriela Buffon. Obra “Mentecaptos”.
Colagem, 15 cm x 15 cm. 2020.)***

(Reprodução: Instagram – @gabuffon / Gabriela Buffon. Obra “O diálogo do olhar”.
Lápis de cor, carvão vegetal, lápis dermatográfico e colagem, 29,7 cm x 42 cm. 2020.)****

Por fim, gostaria de deixar a indicação de artistas e divulgadores de arte na internet. Começando pelos artistas citados na matéria: ambos catarinenses, Susano Correia (Instagram @susanocorreia) é artista natural de Florianópolis formado em Artes Visuais na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC); e Gabriela Buffon (Instagram @gabuffon) é acadêmica da primeira fase de Artes Visuais na UDESC.

Além deles, recomendo o canal ViviEuVi  no YouTube, que possui um imenso e rico repertório de curiosidades e análises artísticas; e o aplicativo Google Arts & Culture (disponível para iOS e Android), que permite visitar museus e conhecer artistas pelo seu smartphone, dentre outros recursos. Vários museus estão realizando curadorias no Instagram, como @masp, @museelouvre, @vangoghmuseum, e o projeto de extensão do Instituto Federal Catarinense – Campus Concórdia, @museus.virtuais.ifc.

Fique em casa, e não esqueça de alimentar sua alma!

Fotodescrição: *Pintura de tinta a óleo de fundo azul escuro. Em destaque, um homem de pele branca com um aspecto sujo está nu. Ele está com os braços e a cabeça dentro de uma casinha, sendo que está com o rosto na porta com uma cara de desconforto, e os braços estão passando pela parede lateral da casa. A casinha paredes brancas, uma porta, uma janela quadrada ao lado dessa porta, e uma janela redonda mais acima, perto do telhado.

**Pintura de tinta a óleo com fundo azul claro. Em destaque é possível ver um homem, do peito para cima, de pele esbranquiçada. Ele está olhando para cima e possui o topo de sua cabeça pontuda. Sua boca e olhos estão abertas com flores que se assemelham a margaridas saindo dessas cavidades.

***Colagem de fundo branco. Na figura de fundo, há três colunas com 5 linhas cada, de pares de diferentes pessoas conversando com várias expressões faciais. No canto inferior esquerdo, há uma assinatura escrito “Norman Rockwell”. Acima dessa figura, centralizado, há várias letras de revistas coladas formando as palavras “Economiopia / Desenvolvimentir / Utopiada / Consumidoidos / Patriotários / Suicidadãos”.

****Obra abstrata de fundo branco em folha A4 com técnica de lápis de cor, carvão vegetal, lápis dermatográfico e colagem. Centralizado, há um desenho em preto que se assemelham a letra C, e nas extremidades círculos vermelhos. Algumas linhas pretas e vermelhas estão dispostas pela figura. É possível perceber formas abstratas em azul e verde dentro da letra C em destaque, e alguns rabiscos em amarelo no canto inferior esquerdo. Também é notável algumas formas redondas pela obra, que se assemelham a olhos. Na parte inferior da figura há um recorte em papel colado em que pode-se ler “O diálogo”. De cima para baixo, do lado direito, há as seguintes palavras coladas:”matriz / básico / capítulo / processo”. No canto inferior direito, a assinatura da artista: “Gabriela Buffon, 2020” em marrom.

Tags: comunicaPET

O fenômeno atual do “fascismo” e seus elementos em algumas palavras soltas

02/06/2020 15:39

Carlos Rodrigues,
Tutor do PET-Letras

Fascistas não passarão!
Sim, a história foi e será implacável!

Um dos importantes historiadores do fascismo, Stanley Payne, após dedicar boa parte de sua vida a identificar, descrever e conceituar o fascismo, considera que tal definição e compreensão não é algo simples nem fácil. Para ele, tal conceito político pode até ser usado, de certo modo, como um “termo vago”. Sabe aquele paradoxo socrático: “só sei que nada sei” (ipse se nihil scire id unum sciat)? Então, arrisco-me dizer que ele se aplica bem aqui: quanto mais estudo o(s) fascismo(s) menos o(s) compreendo em si mesmo(s), em sua lógica absurda.

Embora tenha sido combatido e derrotado, os elementos do fascismo italiano, vez por outra, teimam em ressurgir em algumas sociedades, como é o caso do Brasil de hoje, em que o fascismo vem recebendo seguidores, bem como atualizações e novas roupagens. Para continuarmos essa conversa, precisamos entender que uma primeira aproximação à compreensão do que é fascismo deve, a meu ver, enxergá-lo como um regime político situado em um dado tempo e espaço históricos. O facismo “primordial” é um fato experimentado no contexto italiano de Mussolini, de certa maneira instaurado em 1922 e concluído em 1943.

Todavia, o fascismo não é meramente um fato histórico, mas, sim, um processo historicamente constituído e manifesto, o qual pode ser identificado em distintos tempos e espaços para além da conhecida e famosa Itália Fascista. Ao assumir isso, torna-se possível não somente compreender historicamente esse regime político, mas perceber como seus elementos fundantes e característicos não tiveram início, meio e fim apenas no âmbito da Itália de Mussolini, tendo existências diversas, perpetrando e reerguendo-se em outros momentos, ainda que com novas máscaras e vestimentas.

Podemos imaginar que é como se a história se encarregasse de uma constante mudança marcada de idas e vindas, de um eterno retorno do velho transvestido de novo. É um pouco da ideia de Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794) aplicada à compreensão do devir da história. Explico. É como se o princípio da conservação de massa de Lavoisier — representado na célebre frase: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” — pudesse ser parafraseado e transposto à percepção do tempo histórico: “Na história humana, nenhuma fatídica realidade se perde, todas elas se transmutam e retornam”.

Enfim, diante dessa denominada “ameaça fascista” tão presente e intensa em nossos dias, é necessário fazer algumas perguntas no intuito de encontrar possíveis e plausíveis respostas: o que é fascismo? O que ele representa? Como ele se manifesta? Quais  elementos permitem compreendê-lo e identificá-lo?

Segundo o historiador italiano Emílio Gentile, podemos pensar o fascismo italiano, o mais conhecido e famoso de todos — primeiro experimento totalitário concretizado na Europa Ocidental —, a partir de três dimensões:

  • organizativa (como um movimento de massas organizadas e representadas por um partido-milícia, com a missão de regeneração nacional por meio da aniquilação de todo e qualquer adversário, bem como dos direitos do homem e do cidadão em prol da “nova civilização”);
  • cultural (como ideologia de característica anti-ideológica; cultura fundada em certo pensamento mítico e baseada na militarização da política, na sacralização do estado e na primazia absoluta da nação como uma comunidade etnicamente homogênea que deve ser formada por meio da aculturação e subordinação total dos indivíduos e das massas ao Estado e em prol do “homem novo”); e
  • institucional (como regime totalitário que se funda em um aparato de polícia para reprimir, controlar e/ou suprimir o individual e o coletivo; centralização do Executivo, que subordina a si o Judiciário e que defende a existência de um partido único, o qual existe em simbiose plena com o Estado que se encarrega da supressão das liberdades individuais).

Vale destacar que tais dimensões estão coordenadamente integradas e evidenciam a “sacralização da política” promovida pelo(s) facismo(s) e realizada, ao menos, por elementos totalitaristas, nacionalistas, antiliberais, antimarxistas, antipartidários, imperialistas e, até mesmo, racistas que deram forma e, portanto, caracterizaram o fascismo italiano, assim como outros fascismos.

Por outro lado, é importante entender que quando atacamos as pessoas que personificam determinadas “ideologias” e deixamos de combater sistemas já institucionalizados que geram e perpetuam vertentes fascista(s), autoritária(s), conservadora(s) e afins, estamos errando o alvo.

Ah, não posso deixar de dizer também que há, sim, uma diferença radical e antinômica entre o que foi o fascismo e o que seria a proposta do comunismo. Por isso, fascistas (assim como faziam “nazistas e franquistas”) queriam combater e eliminar — a todo custo e de maneira agressiva, violenta, militante e militarizada — qualquer traço que remetesse ao comunismo: o anticomunismo era uma de suas bandeiras, que fique bem claro, apenas uma delas.

O “fascismo” identificado e, até mesmo, reivindicado por grupos e representantes da política brasileira se aproxima, ao mesmo tempo que se afasta, dos demais regimes fascistas historicamente delimitados. Um rápido e despretensioso olhar permite-nos enxergar, nesse propagado “novo fascismo”, tanto uma série de elementos caros ao fascismo histórico quanto elementos que não são partilhados com certos regimes fascistas anteriores, um desses elementos não compartilhados é esse nacionalismo populista que defende à chegada ao poder por meio das eleições, a qual os governantes de inspirações e aspirações “(neo)fascistas” usam para bradar aos quatro ventos que são representantes legítimos do povo.

Por último, quero dizer que o que é denominado “fascismo” em nossos dias nem sempre é fascismo de fato e verdade, mas, nem por isso, é menos nocivo. Assim sendo, a campanha “antifascista” atual, que povoa as redes sociais, é um elemento indispensável à denúncia de irregularidades, de ameaças e de riscos, assim como à conscientização da sociedade tão desamparada e, até mesmo, confusa. Portanto, a campanha é um fôlego e uma esperança de combate aos reacionários — que são hostis à democracia, ameaçando-a —, em meio ao caos que está instaurado no Brasil e que vem sendo, dia a dia, regado a fake news, a mortes pela pandemia da COVID-19, a desemprego, a desigualdade de oportunidades, a crise econômica, a shows de horrores, estrelados pela trupe de governantes, a ausência de um governo do/para/pelo povo e assim por diante.

Tags: comunicaPET