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Grupos de Interação e Estudos 2024.2
GRUPOS DE INTERAÇÃO E ESTUDOS PARA 2024.2 PRESENCIAL E ON-LINE
O PET-Letras oferecerá 5 grupos de estudo em 2024.2. As inscrições serão exclusivamente on-line, a partir de 30 de agosto e até 13 de setembro. Confira abaixo os grupos e os links de inscrição!
- Nome do grupo: Fabular outras relacionalidades entre linguagem, discurso e mundo
Descrição do grupo e de seus objetivos: A partir da fabulação suleada de uma análise neomaterialista dos discursos, que conjuga teorizações arqueogenealogicas dos discursos aos chamados novos materialismos, de Janes Bennett e Karen Barad, pós-humanismos, de Rosi Braidotti, e teorias com-postas e ciborgues, de Donna Haraway, o presente grupo de pesquisa (a ser realizado de forma híbrida) convida a refletirmos, na senda dos estudos discursivos, acerca das possíveis relacionalidades entre humanos e não humanos/outros que humanos, das invenções de si diante dos racismos diretos e indiretos em suas topologias, da acontecimentalidade terrestre do discurso e, nele, da agência do não discursivo, deslocando a primazia da linguagem na constituição de algo como a suposta excepcionalidade humana. As discussões pautarão e problematizarão questões como: os universos multiespécie e as figuras de corda, as fabulações e a agência não humana, o regime petrossexoracial, as artes de notar e as intra-ações. Trata-se, portando de discussões pautadas por discurso, antropoceno e capitaloceno; o impacto da virada material nos estudos discursos; linguísticas pós-humanistas; biopolítica, tecnobiopolítica e geontologias; discurso e realismo agencial; precarizações distribuídas entre humanos e não humanos; entre outras possibilidades de emaranhamentos e enlaces.
Proponente: Nathalia Muller Camozzato (Pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Linguística)
Os encontros serão: presenciais
Público alvo: Estudantes de letras ou outros cursos interessados em discutir as relações entre estudos do campo discursivo, linguagem, antropoceno, feminismos, realismo agencial e universos multiespécie.
Nº máximo de participantes: 18
Critério de seleção para os participantes: ordem de inscrição
Data de Início: 18/09/2024
Data de término: 11/10/2024
Carga horária total: 16h
Horário do grupo: Quintas-feiras das 16h às 18h.
Inscrições: http://inscricoes.ufsc.br/fabular
Sala: CCE 233A
- Nome do grupo: Localização e Tradução de Jogos e Quadrinhos
Descrição do grupo e de seus objetivos: A tradução e localização de produtos culturais, como jogos eletrônicos e histórias em quadrinhos, têm se tornado áreas de grande relevância na indústria global de entretenimento. No contexto acadêmico, a tradução e a localização são campos de estudo que oferecem amplas possibilidades de pesquisa, especialmente no que tange às interseções entre linguagem, cultura e tecnologia. Com isso em mente, propomos um Grupo de Estudos sobre localização e tradução de jogos e quadrinhos, a fim de fomentar o debate e o conhecimento sobre estas duas áreas ainda em lenta expansão na UFSC, apesar de seu crescente interesse nos Estudos da Tradução.
Para atingir este objetivo, propomos um cronograma que conta com encontros teóricos, onde debateremos um texto base, selecionado previamente; e também oficinas, onde os participantes farão prática tradutória e refletirão sobre suas escolhas, dificuldades e técnicas — estas que são específicas em cada gênero. As oficinas serão feitas após cada dupla de encontros teóricos, um sobre um subgênero de quadrinho e outro sobre um subgênero de jogo, para que os participantes escolham com qual gostariam de trabalhar, e para que possamos ver as semelhanças e diferenças entre a tradução e localização de tipos específicos de quadrinhos e jogos. Os participantes serão encorajados a conduzir as discussões dos textos teóricos com apontamentos e questionamentos, e a trazer seus próprios textos para o exercício de tradução, mas as coordenadoras também trarão exemplos que já foram traduzidos ou localizados para o português, fomentando assim o debate entre as escolhas dos participantes e as da tradução/localização oficial.
Proponentes: Isadora da Silva Brito (Discente PGET/UFSC), Samantha Marques de Souza (Discente PGET/UFSC) e Sabrina Moura Aragão (Docente PGET/UFSC)
Os encontros serão: presenciais
Público alvo: Estudantes da graduação e pós-graduação com nível B2 de leitura em inglês.
Nº máximo de participantes: 10
Critério de seleção para os participantes: ordem de inscrição
Data de Início: 18/09/2024
Data de término: 11/12/2024
Carga horária total: 13h
Horário do grupo: Quartas-feiras das 18h30 às 19h30min.
Inscrições: http://inscricoes.ufsc.br/traducaoquadrinhos
Sala: CCE 142A
- Nome do grupo: Grupo de Leitura de Graphic Novels em Inglês
Descrição do grupo e de seus objetivos: Grupo de leitura de Graphic novels e quadrinhos. Nessa versão, focaremos em quadrinhos de origem japonesa, quadrinhos baseados em jogos e quadrinhos que foram origem para séries e animes!
O intuito do grupo é podermos conversar sobre um gosto em comum e conseguir praticar a língua inglesa em conjunto com diversas pessoas.
Proponente: Manoela Beatriz dos Santos Raymundo (UFSC/DLLE/Letras Inglês)
Os encontros serão: remotos
Público alvo: Pessoas interessadas no tema Graphic Novels.
Nº máximo de participantes: 15
Critério de seleção para os participantes: pessoas que tenham nível intermediário de inglês.
Data de Início: 19/09/2024
Data de término: 28/11/2024
Carga horária total: 22h
Horário do grupo: Quintas-feiras das 16h às 18h.
Inscrições: http://inscricoes.ufsc.br/graphic2
Sala: CCE 204A
- Nome do grupo: Grupo de Estudos de cultura geek e jogos
Descrição do grupo e de seus objetivos: Objetivo: Desenvolver um projeto interdisciplinar que explore a cultura Geek (animes, RPG, etc.) através de filmes, jogos e eventos, incentivando reflexões acadêmicas, descontração e interação.
Interdisciplinaridade: envolver professores, especialistas de diversas áreas do conhecimento que se relacionem com os módulos propostos.
Rodas de conversas e momentos de conhecimento de conceitos teóricos trazendo reflexão e descontração aberta.
Incentivar a participação ativa dos estudantes em todas as etapas do projeto.
Este ciclo de projeto visa não só explorar a cultura Geek de uma maneira acadêmica, mas também proporcionar aos estudantes uma experiência enriquecedora e envolvente, que integra teoria e prática em um contexto interdisciplinar.
Projeto dividido em módulos temáticos mensais dentro do Mundo Geek.
Proponentes: Paula Scalvin, Izabel Bayerl, Manoela Raymundo.
Os encontros serão: presenciais
Público alvo: Pessoas interessadas em cultura nerd/geek, jogos, filmes, rpg, etc.
Nº máximo de participantes: 30
Critério de seleção para os participantes: nenhum.
Data de Início: 17/09/2024
Data de término: 03/12/2024
Carga horária total: 30h
Horário do grupo: Terças-feiras das 18:30 às 19:30-20h.
Inscrições: http://inscricoes.ufsc.br/petgeek
Sala: CCE 246A
- Nome do grupo: Lírica e sociedade II
Descrição do grupo e de seus objetivos: Trata-se de um grupo de estudos sobre lírica e sociedade, sem caráter expositivo, que busca oferecer um espaço para debates com os alunos para além do contexto da sala de aula e suas rotinas avaliativas.
Proponentes: André Cechinel (DLLV-Letras-UFSC); Marcelo Lotufo (DLLV-Letras-UFSC)
Os encontros serão: presenciais
Público alvo: Estudantes de Letras-Português e interessados de modo geral.
Nº máximo de participantes: 30
Critério de seleção para os participantes: ordem de inscrição.
Data de Início: 19/09/2024
Data de término: 05/12/2024
Carga horária total: 20h
Horário do grupo: 5 encontros: 15h às 17h, nas datas 19/09; 10/10; 31/10; 28/11; e 05/12 (as datas não podem ser alteradas).
Inscrições: http://inscricoes.ufsc.br/lirica2
Sala: CCE 213A
- Nome do grupo: Neurociência e educação: enfrentando os desafios translacionais
Descrição do grupo e de seus objetivos: O desafio translacional da ciência é apontado como um aspecto importante na integração pesquisa/sociedade e na valorização do conhecimento científico. Esses esforços consistem na aproximação entre instituições de pesquisa e contextos extra-laboratoriais como escolas, por exemplo. Em resposta a esse desafio, as pesquisas em educação têm buscado uma aproximação entre seus estudos experimentais e os contextos educacionais cujas necessidades pretende atender. Há aproximadamente 1 década, pesquisadores brasileiros especialistas em áreas distintas como educação, biologia, neurociências, psicólogos, linguistas e outras, fundaram a Rede Nacional de Ciências para a Educação com o objetivo de integrar o conhecimento das diversas áreas e tornar a aprendizagem escolar mais efetiva. Este esforço já foi publicado em livro (Lent et. al., 2018) e deve ser valorizado, atualizado e difundido para a comunidade. Tendo em vista o contexto acima descrito, a presente proposta visa a criação de um grupo de estudo. Almeja-se, dessa forma, contribuir para a formação de professores de um ponto de vista do ensino informado por evidências, que questione crenças e concepções errôneas, fomentando uma postura docente científica (Dersch et al, 2022).
Nos encontros deste grupo de estudo, os professores em formação participarão ativamente de discussões sobre como as pesquisas em neurociência podem informar práticas pedagógicas. Outro objetivo é alcançar diretamente professores da rede básica de ensino por meio de palestras e oficinas, aproximando assim universidade e comunidade.
Para isso, os encontros alternarão discussões teóricas e inserções nas escolas.
Proponentes: Mailce Borges Mota, ph.D (CNPq/DLLE/UFSC); Danielle dos Santos Wisintainer (estagiária de pós-doutorado FAPESC/UFSC); Juliana do Amaral (estagiária de pós-doutorado CNPq/UFSC); Matheus Mangini Bertuzzo (estagiário de pós-doutorado CAPES/UFSC)
Os encontros serão: presenciais
Público alvo: estudantes de graduação e pós-graduação de cursos de licenciatura e bacharelado interessados em educação; estudantes e professores da rede básica
Nº máximo de participantes: 20
Critério de seleção para os participantes: ser estudante de um curso de licenciatura; disponibilidade para realização de atividades dentro e fora da universidade (em escolas parceiras)
Data de Início: 20/09/2024
Data de término: 22/11/2024
Carga horária total: 20h
Horário do grupo: Sextas-feiras das 14h30min às 16h30min
Link: http://inscricoes.ufsc.br/neuroeeducacao
Sala: CCE 207A
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Comparative Analysis of Macbeth Adaptations: Globe 2014 and 2018 Sign Language Synopses
Paula Scalvin da Costa
Bolsista PET-Letras
Letras Inglês – UFSC
Comparing different adaptations of the same play, even within the same project across different years, reveals insightful variations in how directors interpret and present the material. This brief analysis, developed as part of the English Literature III discipline in the Letras Ingles course at UFSC, focuses on two different adaptations of Act I, Scene 4 from Shakespeare’s Macbeth. The scene has been portrayed in numerous ways, each highlighting unique aspects, particularly in the portrayal of Lady Macbeth. One notable adaptation is by Shakespeare’s Globe, which includes a synopsis in British Sign Language (BSL). This choice offers a compelling perspective on narrative communication, especially given the limited availability of comprehensive adaptations in alternative formats. The BSL synopsis creatively enhances accessibility and deepens the appreciation of classic literature. By contrasting this with Shakespeare’s Globe On Screen’s 2014 adaptation directed by Eve Best, this essay explores how different mediums and interpretations influence the portrayal of Act I, Scene 4 in Macbeth.

Descrição da imagem: pintura óleo sobre tela. Lady Macbeth, cabelos vernelhos longos em tranças segura, perto de sua cabeça, uma coroa. A pele é branca e ela veste uma espécie de túnica verde e azul. O fundo da cena é azul escuro. Trata-se do quadro de John Singer Sargent, Ellen Terry as Lady Macbeth, 1889.
In Act I, Scene 4 of Macbeth, Shakespeare vividly depicts Lady Macbeth’s transformation through his choice of words. This pivotal scene reveals her ambitious nature and her willingness to forsake morality for power.
The scene opens with Lady Macbeth reading a letter from Macbeth informing her of the witches’ prophecies. Her initial reaction is filled with excitement and ambition as she contemplates the possibility of Macbeth becoming king. Her language is metaphorical and vivid, conveying eagerness and ruthless ambition; for instance, she resolves to “pour [her] spirits in [his] ear,” signifying her intent to decisively influence Macbeth.
As Lady Macbeth reflects on Macbeth’s nature, her tone becomes persuasive and manipulative. She worries that Macbeth is “too full o’ th’ milk of human kindness” to seize the crown through murder, viewing kindness as a weakness and setting the stage for her manipulative tactics. Her language is strategic, aiming to instill urgency and resolve in Macbeth, using commanding verbs and vivid imagery to persuade him to act against his better judgment.
Towards the end of the scene, Lady Macbeth’s tone darkens significantly. She invokes the spirits to “unsex” her and fill her with cruelty, demonstrating her willingness to renounce traditional feminine qualities and embrace ruthlessness. This pivotal moment marks her desire to transcend gender norms and embody a more masculine form of power. Her words become increasingly violent and resolute, underscoring her commitment to their deadly plan and revealing both her inner turmoil and fierce ambition.
In summary, Act I, Scene 4 of Macbeth is instrumental in illustrating Lady Macbeth’s complex character. Through her shifting tone and choice of words, Shakespeare masterfully conveys her transformation from an ambitious wife to a ruthless manipulator, setting the stage for the tragic events that follow and highlighting her pivotal role in the play’s exploration of ambition, power, and morality.
“Macbeth in BSL: Shakespeare Synopsis Project,” directed by Sophie Stone and released in 2018, focuses on portraying Shakespeare’s classic through the lens of the Deaf community. This adaptation stands out for its exceptional direction and portrayal of secondary characters, unfolding the narrative through their perspectives and setting an ominous tone from the outset. It underscores how perceptions shape understanding.
Key elements include nuanced acting and the strategic selection of characters who observe pivotal scenes. Sign language effectively conveys what characters witness, especially in naming the main protagonists, while subtitles offer basic understanding of signed dialogue, with deeper meanings emerging through careful observation of chosen signs.
The Shakespeare Synopsis project aims to adapt Shakespeare for the public, including synopses tailored for the Deaf community. In this adaptation, secondary characters witness crucial story events, such as Macbeth’s encounter with the witches or, specifically analyzed here, Lady Macbeth’s reading of her husband’s letter.
A notable aspect is the significant sign choice for Macbeth in this BSL production: three extended fingers sweeping across the chest. This gesture symbolizes Macbeth tearing at himself, metaphorically ripping away a part of himself and illustrating the story’s darkness and damning nature, reflecting regional or community-specific differences in adaptation.
Cinematography plays a crucial role, enhancing the dark and eerie atmosphere, capturing the unsettling ambiance within the Macbeths’ residence or intense chaos of battlefield scenes. Subtle costume changes reflect characters’ deteriorating mental states over time, symbolizing unfolding tragedy and emphasizing narrative depth and complexity.
Shakespeare’s Globe On Screen’s 2014 adaptation, directed by Eve Best, stands out for its unique approach to portraying Shakespeare’s classic. Notably, the transformation in tone and voice by the actress during pivotal scenes, such as Lady Macbeth’s letter reading, mirrors her evolving emotions and thoughts.
Key elements include Samantha Spiro’s exceptional portrayal of Lady Macbeth, skillfully articulating her inner thoughts aloud. Costume choices deepen narrative depth, blending casual elegance with everyday life, reflecting Lady Macbeth’s contemplation of kingship. As ambitions darken, her tone overwhelms a once-grand stage setting with character weight, enriching complexity and thematic resonance in unfolding tragedy.
Both adaptations by Shakespeare’s Globe, one in BSL and the other from the 2014 adaptation, share rich, earthy, and somber tones, evoking audience emotions in ways that create a claustrophobic sensation.
In the specific scene of Lady Macbeth reading the letter, both adaptations intensify the proximity of characters as the scene progresses. An intriguing point is the difference in the character within the Macbeths’ household between the synopsis adaptation—a butler—and the play—a woman, reflecting on the performance itself. While the butler’s interpretation in the synopsis is solemn and imbued with morbidity, the portrayal of the woman in the play is naive, perhaps serving to contrast with the inherent morbidity of the actress portraying Lady Macbeth.
The synopsis adaptation by Shakespeare’s Globe offers a condensed, third-person perspective, consistent with the play as a whole, yet Lady Macbeth externalizes her tumultuous and convoluted thoughts. Throughout the scene, one can perceive, “as she reads the letter, I could see her human kindness leaving her body,” a profound statement echoed by the project, providing a parallel perspective on human nature’s complexities within the context of power and ambition.
In exploring different adaptations of Act I, Scene 4 from Shakespeare’s Macbeth this essay has illuminated the multifaceted nature of Lady Macbeth’s character and the interpretative richness brought forth by various mediums and directorial approaches. The comparison between Shakespeare’s Globe’s British Sign Language synopsis and Eve Best’s 2014 On Screen adaptation underscores how different forms of communication and directorial choices can profoundly impact the portrayal of Shakespearean themes such as ambition, power, and gender dynamics.
The BSL adaptation, through its innovative use of sign language and nuanced portrayal of secondary characters, offers a unique perspective that enhances accessibility and highlights the universality of Shakespeare’s themes. In contrast, Eve Best’s adaptation emphasizes the dramatic intensity and psychological depth through compelling performances and visual storytelling.
Both adaptations resonate with their audiences by evoking emotional depth and thematic resonance, albeit through distinct stylistic choices. Whether through the visceral impact of sign language or the visual and auditory immersion of traditional theater, each adaptation enriches our understanding of Macbeth’s timeless exploration of human ambition and its consequences.
Ultimately, the diversity of interpretations showcased in these adaptations serves as a testament to the enduring relevance and adaptability of Shakespeare’s work across different cultural and artistic contexts, inviting ongoing exploration and appreciation for audiences of all backgrounds.
REFERENCES
BEST, Eve (Diretora). Shakespeare’s Globe On Screen Macbeth. William Shakespeare, 2014.
Macbeth in BSL: Shakespeare Synopsis Project. Youtube. Direção de Sophie Stone, 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IJn3qtmh6po&t=25s. Acesso em: 14 jul. 2024.
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Estudos decoloniais: desafios e perspectivas para a compreensão do poder e dos saberes
Por Tay Muller
Bolsista de Acessibilidade PET-Letras
Letras-Libras

Os estudos decoloniais emergem como um campo interdisciplinar que busca questionar e desmantelar as estruturas de poder e conhecimento estabelecidas pelo colonialismo, como explica Quijano (2005), na análise dos elementos históricos e das dinâmicas sociais da América Latina, que serviram como fundamento para a formulação da proposta epistemológica do sociólogo. Ao desenvolver a noção de “colonialidade do saber”, ele se referiu ao poder epistêmico europeu. “O fato de que os europeus ocidentais imaginaram ser a culminação de uma trajetória civilizatória desde um estado de natureza levou-os também a pensar-se como os modernos da humanidade e de sua história, isto é, como o novo e ao mesmo tempo o mais avançado da espécie.”
A partir da perspectiva decolonial, compreendemos quem são os corpos passíveis a ser violados, modificados, agredidos e tendo suas histórias apagadas assim como suas famílias, cultura, religião, crenças e sonhos. Esses corpos são produção da colonialidade e pensados a partir da “marafunda”:
Esse fenômeno, que prefiro chamar de marafunda ou carrego colonial, compreende-se como sendo a condição da América Latina submetida às raízes mais profundas do sistema mundo racista/capitalista/cristão/patriarcal/moderno europeu e as suas formas de perpetuação de violências e lógicas produzidas na dominação do ser, saber e poder. (Rodrigues Júnior, 2017, p.35)
Este movimento intelectual, que ganhou força especialmente nas últimas décadas, propõe uma leitura crítica da história e dos processos sociais, culturais e políticos, com o objetivo de revelar e subverter as hierarquias e desigualdades produzidas e mantidas pelo sistema colonial e seus legados.
A decolonialidade deve ser lida como um ato de responsabilidade com a vida. A ação decolonial é afeto em suas dimensões éticas/estéticas, de modo que o termo não pode ser reduzido a um neologismo que se hipnotiza na fixação de seus traumas, serpenteando em uma interminável retórica. (Rodrigues Júnior, 2017, p. 35)
Os estudos decoloniais têm suas raízes em movimentos de resistência e emancipação dos povos colonizados. Eles se inspiram em obras seminais de pensadores anticoloniais como Frantz Fanon, que pensava esse processo como algo político mas além disso uma transformação profunda, social e culturalmente. Uma mudança no sujeito que passou pelo processo de colonização, que muitas vezes busca aprovação do próprio colonizador.
A discussão desse assunto e, mais ainda, a aplicação dessa teoria dentro e fora da academia, nos permite entender as sociedades a partir de outras perspectivas, alterando estruturas que oprimem os seres que não sejam o modelo. Ela abre possibilidades de conhecer novas culturas e novos seres de forma mais empática. A partir dessa reflexão, podemos nos sentir convidados a repensar nossas atitudes e a forma que fomos colocados e nos colocamos no mundo.
REFERÊNCIA
RODRIGUES JÚNIOR, L. R. Exu e a pedagogia das encruzilhadas. Tese (Doutorado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.
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EDITAL 06/2024/PET SELEÇÃO DE PROFESSOR(A) VOLUNTÁRIO(A) PARA 2024.2 | PORTUGUÊS PARA IMIGRANTES E REFUGIADOS
O PET-Letras torna público o processo seletivo para professores(as) voluntários(as) para o segundo semestre letivo de 2024 para ministrar aulas de português para imigrantes e refugiados.
Podem se inscrever estudantes dos cursos de Graduação e de Pós-Graduação da UFSC ou demais interessados/as/es que atendam aos requisitos apresentados do edital.Serão ministradas aulas de português de nível básico e intermediário para imigrantes e pessoas com visto humanitário em Florianópolis, oferecidas na UFSC (Campus da Trindade), das 19h às 21h (dia a ser decidido de acordo com a disponibilidade dos professores selecionados.
O período de inscrição será das 12h dia 17 de agosto de 2024 às 12h do dia 24 de agosto de 2024 – ONLINE!
CLIQUE AQUI e confira o edital.
NOVO! RESULTADO DA PRIMEIRA ETAPA
Foram aprovadas as seguintes pessoas:
Felippe Sangreman
Ariadne Toledo Nunes Pereira
Fabio Soares
Janete Eloi Guimarães
Amanda Myrella Barbosa dos Santos
Luísa Puerto Machado
Mayara Carvalho de MenezesAs entrevistas serão realizadas no dia 27 de agosto de 2024, terça feira, ONLINE, no período matutino.
Felippe Sangreman – 9h
Ariadne Toledo Nunes Pereira – 9h15min
Fabio Soares – 9h30min
Janete Eloi Guimarães – 9h45min
Amanda Myrella Barbosa dos Santos -10h
Luísa Puerto Machado – 10h15min
Mayara Carvalho de Menezes – 10h30minMais informações no e-mail que foi enviado para as pessoas classificadas.
RESULTADO FINAL
Depois da entrevista, foram aprovadas as seguintes pessoas:
Felippe Sangreman
Ariadne Toledo Nunes Pereira
Fabio Soares
Janete Eloi Guimarães
Luísa Puerto Machado
Mayara Carvalho de MenezesTodas as pessoas aprovadas receberão e-mail com instruções sobre o início das atividades.
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Processos de aquisição da linguagem
Por Izabel Bayerl e Laiara Serafim
Letras-Português
Bolsistas Pet-Letras
Como as crianças aprendem a falar? Por que meu filho repete tudo que eu falo? Por que a criança troca a letra “R” pelo “L”? Por que algumas crianças aprendem a falar mais rápido que outras? Essas são algumas das perguntas centrais que permeiam a área da aquisição da linguagem. Os processos de aquisição são diversos e estão presentes em todas as fases do aprendizado da criança, desde os primeiros sons nos primeiros meses, até a entrada da criança no ensino formal. Aqui, nos dedicamos a explicar de forma breve como ocorre a aquisição e desenvolvimento da fala e quais processos estão envolvidos.
É verdade que desde a barriga a criança já começa a ter contato com a sua língua materna, mas é só por volta dos seis meses que a criança começa a produzir os primeiros sons. Contudo, esses primeiros sons não estão diretamente ligados apenas à língua falada pelos pais, mas refletem também conhecimentos inatos da gramática universal. De acordo com Chomsky (1968), a GU permite que os falantes nativos de uma língua reconheçam e produzam sentenças daquela língua. Essa competência não é simplesmente uma cópia do que é ouvido no ambiente linguístico, mas inclui uma capacidade intrínseca de criar e interpretar estruturas linguísticas de maneira criativa e variável, no entanto, somente os conhecimentos inatos não são suficientes para que a criança adquira a língua, ou seja, ela precisa receber estímulos externos, dos pais e da comunidade.
Já por volta do primeiro ano ao segundo ano de idade a criança começa a produzir as suas primeiras palavras. É um momento mágico e podemos pensar que ela está apenas repetindo aquilo que ouviu dos pais ou familiares. Embora a interação com ambiente seja essencial para que ocorra a aquisição da linguagem, esse processo não ocorre através de escuta-repetição. O que acontece de verdade é que a criança está criando juízos de gramaticalidade e prova disso é que crianças são capazes de produzir palavras e até sentenças que nunca ouviram, como: “Eu trazi” e “eu sabo”. Ao produzir uma sentença como essas, a criança está utilizando de forma generalizada uma regra de conjugação verbal, como a seguir: “Eu nado”, “eu falo”, “eu sabo”. De todo modo, as crianças podem repetir aquilo que ouviram de um adulto, mas isso não significa que a aquisição da linguagem se dá através da repetição, mas sim de uma combinação de vários fatores, dentre eles a internalização da gramática da língua, antes mesmo da criança entrar no ensino formal.
Durante todo o processo de aquisição da linguagem, as crianças utilizam diferentes recursos para produzir palavras e sons que elas ainda não adquiriram, respeitando sempre a sonoridade ou sonância da língua. Esses processos são naturais e fazem parte do desenvolvimento da linguagem. A capacidade da criança de reconhecer e respeitar a cadeia de sonância é um reflexo de como ela internaliza e começa a aplicar as regras fonológicas da sua língua materna ao longo do tempo. Dentre as estratégias de reparo estão: omissão do som, realização de glides (semivogal), realização de outro som próximo na escala de sonância, epêntese (acréscimo de uma vogal), além de alterar a sonorização da palavra.
Com o avanço dos anos a criança começa a produzir sentenças mais extensas e completas. É nessa fase, por volta dos 3 anos, que pode ocorrer a troca entre algumas letras. Entretanto, essa troca é uma das estratégias de reparo utilizadas pela criança para produzir palavras que ainda não adquiriu por completo. Essa troca ocorre entre sons semelhantes. A criança, quando ainda não adquiriu o “R” na sua gramática, pode usar o som do “L” para substituí-lo, pois eles são muito próximos na escala de sonância.
Já na fase da educação formal, diversas questões podem influenciar a capacidade de consciência fonológica das crianças. Por exemplo: aquelas que são filhas de pais analfabetos ou que não fazem uso da atividade de ler e escrever no cotidiano possuem a capacidade fonológica bem menos desenvolvida do que crianças que crescem com maior acesso à cultura escrita, e isso está ligado diretamente com o processo de desenvolvimento da leitura e escrita quando essas crianças chegam à escola.
É possível notar que a aquisição da linguagem possui processos complexos e variados para cada fase da aprendizagem, e esses processos podem ocorrer de forma distinta para cada criança, em tempos diferentes. É importante conhecer quais fenômenos fazem parte de cada etapa para promover estratégias e recursos que estimulem o processo individual de aquisição de cada criança.
REFERÊNCIAS
GROLLA, Elaine; SILVA, Maria Cristina Figueiredo. Pra conhecer: aquisição da linguagem. São Paulo: Contexto, 2014. p. 36-55
LAMPRECHT, Regina (org.) et al. Aquisição fonológica do português: perfil de desenvolvimento e subsídios para a terapia. Porto Alegre: Artmed, 2004. p. 73-94.
RIGATTI-SCHERER, Ana Paula. Consciência fonológica na alfabetização infantil. IN: LAMPRECHT, Regina et al. Consciência dos sons da língua. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2009. p. 130-143.
CHOMSKY, Noam. Linguagem e mente. São Paulo: Editora UNESP, 2009.
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EDITAL 05/2024/PET SELEÇÃO DE PROFESSOR(A/E) VOLUNTÁRIO(A/E) PARA 2024.1 – PRESENCIAL E/OU ON-LINE
O PET-Letras torna público o processo seletivo para professores(as) voluntários(as/es) do PET Idiomas para o segundo semestre letivo de 2024. Podem se inscrever estudantes dos cursos de
Graduação e de Pós-Graduação da UFSC ou demais interessados que atendam aos requisitos apresentados do edital.O período de inscrição será do dia 12 de agosto de 2024 às 12h do dia 30 de agosto, ONLINE.
CLIQUE AQUI e confira o edital.
RESULTADO DO EDITAL
Foram aprovadas as seguintes pessoas:
María Victoria Rivera de Moraes
Rafael Oliveira Simas Almeida
João Paulo Belem de FreitasHenrique Demeneck Onghero (não fará entrevista porque já é professor do projeto)
As entrevistas serão realizadas no dia 02 de setembro de 2024, segunda-feira, ONLINE, no período matutino. Mais informações no e-mail enviado.
María Victoria Rivera de Moraes – 9h
Rafael Oliveira Simas Almeida – 9h15min
João Paulo Belem de Freitas – 9h30minRESULTADO FINAL
María Victoria Rivera de Moraes – NÃO COMPARECEU
Rafael Oliveira Simas Almeida – APROVADO
João Paulo Belem de Freitas – NÃO COMPARECEUHenrique Demeneck Onghero (não fará entrevista porque já é professor do projeto) – APROVADO
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Edital | Proposição de Grupos de Estudo para 2024.2
EDITAL 4/2024 | PROPOSIÇÃO DE GRUPOS DE ESTUDO NO PET
Entre os dias 12 de Agostos e 30 de Agosto de 2024, o PET-Letras receberá propostas para criação de Grupos de Estudos/Interação para 2024.2. Podem apresentar propostas de criação e coordenação de Grupos de estudos os estudantes dos cursos de Graduação e de Pós-Graduação da UFSC demais interessados/as/es, com vínculo com a universidade, que atendam aos requisitos apresentados no edital – CLIQUE AQUI E CONFIRA.
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Sinais no Poder – resenha de “Políticas Linguísticas e Políticas de Interpretação no par Libras-Português no Congresso Nacional”
Por Bruno Camargo
Bolsista PET Letras
Letras – Libras
MONZO, Francis Lobo Botelho Vilas; GOROVITZ, Sabine. Políticas Linguísticas e Políticas de Interpretação no par Libras-Português no Congresso Nacional. In: RODRIGUES, Carlos Henrique; QUADROS, Ronice Müller de (org.). Estudos da Língua Brasileira de Sinais. Florianópolis: Editora Insular, 2023. p. 157-176.

Descrição da imagem: Ao fundo, homens e mulheres assentados na mesa diretora de uma comissão no Congresso Nacional. Em primeiro plano, uma intérprete de Libras realiza a interpretação da discussão./
Fonte: Geraldo Magela/Agência Senado
Esta é uma resenha do capítulo Políticas Linguísticas e Políticas de Interpretação no par Libras-Português no Congresso Nacional, de autoria de Francis Lobo Botelho Vilas Monzo e Sabine Gorovitz. O trecho aqui resenhado se encontra no nono capítulo do sexto volume da série de livros Estudos da Língua Brasileira de Sinais, organizado por Carlos Henrique Rodrigues e Ronice Müller de Quadros e publicado no ano de 2023.
A primeira autora do capítulo é Francis Lobo Botelho Vilas Monzo. Interessou-se pela língua de sinais na adolescência e obteve o certificado Prolibras em 2007. Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2008, mestre em Estudos da Tradução pela Universidade de Brasília em 2022, é analista legislativo do Senado Federal e atua na área de acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência na Casa Legislativa.
A segunda autora da obra resenhada é Sabine Gorovitz. Graduada no ano de 1993 em Línguas Estrangeiras Aplicadas à Economia pela Université Paul-Valéry – Montpellier III, França. Mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília e doutora em Sociolinguística pela Université Paris Descartes, França. A autora é docente vinculada ao Programa de Pós-graduação em Estudos da Tradução da Universidade de Brasília (POSTRAD) e atua no desenvolvimento de pesquisas nas áreas de tradução, interpretação simultânea e comunitária, políticas e direitos linguísticos.
A obra está dividida nos seguintes capítulos: Introdução; Políticas linguísticas e políticas de tradução e de interpretação no par linguístico Libras-português; Contextos de atuação e contratação do intérprete de línguas de sinais no Congresso Nacional; Discussão dos resultados e avaliação da qualidade da interpretação; e Considerações finais.
Políticas Linguísticas e Políticas de Interpretação no par Libras-Português no Congresso Nacional parte da argumentação apresentada na dissertação de mestrado, de mesmo nome, da autora Francis Monzo com orientação de Sabine Gorovitz e tem como objetivo identificar as políticas linguísticas presentes nos contratos de tradução e interpretação em língua de sinais celebrados no Congresso Nacional. A metodologia utilizada para a investigação foi de análise qualitativa e documental. Foram analisados regimentos internos e administrativos das Casas Legislativas que compõem o Congresso Nacional e contratos realizados entre os anos de 2006 e 2021, perfazendo um corpus de 18 documentos.
O capítulo é inaugurado a partir das palavras de Rajagopalan (2013, p. 34), que diz: “todo gesto de cunho político envolve uma questão de escolha entre diferentes alternativas que se apresentam”. O autor sintetiza com excelência as tomadas de decisões que são necessárias para o desenvolvimento das políticas linguísticas e de tradução e interpretação. Nessa perspectiva, Santos e Francisco chamam a atenção para o fato que “políticas linguísticas e políticas de tradução não se resumem às leis” (Santos; Francisco, 2018, p. 2946). No Brasil, ainda que a Constituição Federal enfatize o monolinguismo da Língua Portuguesa existem legislações que reconhecem a existência de outras línguas no país, como a Lei nº 10.436/2002 – Lei da Libras.
No escopo da aplicação dessas políticas de tradução e interpretação no Congresso Nacional, foram identificados dez contextos de atuação dos Tradutores Intérpretes de Língua de Sinais (TILS) em áreas como: plenário; recepções e portarias; setores de comunicação: tv câmara/tv senado; escolas de governo, entre outros. A análise dos contratos de serviços de tradução e interpretação de TILS destacou que a especificidade de cada contexto não é levada em consideração nos editais de seleção, com exceção da atuação nas TVs Legislativas. A contratação para atuação para TV é incluída na prestação de outros serviços diversos na área de televisão, portanto, a descrição das atribuições e funções do profissional é sucinta.
Na seção “Discussão dos resultados e avaliação da qualidade da interpretação”, as autoras debatem os resultados encontrados. Dentre as discussões apresentadas nota-se um avanço desde o primeiro contrato, de 2006, que se adaptaram com surgimento das políticas nacionais da categoria profissional, como o ProLibras e os cursos de formação superior. As autoras afirmam que os contratos mais recentes sequer mencionam as especificidades de atuação em cada contexto, mesmo com as distintas características existentes entre elas. A análise dos contratos também mostrou a não existência de critérios de avaliação da qualidade de interpretação no Congresso Nacional.
As autoras concluem afirmando a falta de políticas explícitas, linguísticas ou de tradução e de interpretação, voltadas ao cidadão surdo. Enquadrado nas regulamentações de acessibilidade, destacam certa tensão entre a concepção da surdez enquanto identidade cultural e o modelo médico de deficiência. De outro modo, identificaram-se avanços conquistados ao longo dos anos, mas que ainda apresentam falhas a serem revistas para contratações futuras.
Políticas Linguísticas e Políticas de Interpretação no par Libras-Português no Congresso Nacional, de Francis Monzo e Sabine Gorovitz, é um material de suma importância para a categoria profissional. A temática das políticas linguísticas e políticas de tradução e de interpretação na esfera legislativa é emergente e o capítulo resenhado é essencial para o desenvolvimento de pesquisas nessa área. O capítulo é um material de grande relevância e impacto para estudiosos dos estudos da tradução e da interpretação em línguas de sinais. Assim, a investigação das autoras presente neste livro, bem como a dissertação homônima, são leituras recomendadas e indicadas aos profissionais e interessados.
REFERÊNCIAS
RAJAGOPALAN, Kanavillil. Política Linguística: do que é que se trata, afinal? In: NICOLAIDES, Christine et al. (org.). Política e Políticas Linguísticas. Campinas: Pontes, 2013. p. 19-42
SANTOS, Silvana; FRANCISCO, Camila. Políticas de tradução: um tema de políticas linguísticas? Fórum Linguístico, Florianópolis, v. 15, p. 2939-2949, 2018.
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Primeiro Ensaio
Por Mahara Soares
Voluntária | PET-Letras
Letras-Português
Ana Martins Marques, poeta, redatora e revisora, publicou “O Livro das Semelhanças”, no ano de 2015. Sendo parte do projeto poético da autora, reconhecida por relacionar o processo de escrita com a experiência do existir, tem como base um sistema metalinguístico utilizado para refletir as diferenças e semelhanças entre o real e a literatura. O livro cria um jogo metapoético que vai além de seu conteúdo, envolvendo os próprios títulos dos poemas numa espécie de construção estrutural. “Livro”, primeira das quatro seções em que a obra se divide, é introduzida com os seguintes textos: Capa, Nome do Autor, Título, Dedicatória, Epígrafe, Primeiro Poema e Segundo Poema. Os poemas têm um sentido de continuação entre si, arquitetam o livro ao mesmo tempo em questionam sua respectiva estrutura e função.

Descrição da Imagem: capa do livro. Fundo azul claro, com manchas pretas. No centro, um quadrado (virado), em branco, traz o título do livro e o nome da autora em fonte fina.
Primeiro poema
O primeiro verso é o mais difícil
o leitor está à porta
não sabe ainda se entra
ou só espia
se se lança ao livro
ou finalmente encara
o dia
o dia: contas a pagar
correspondência atrasada
congestionamentos
xícaras sujas
aqui ao menos não encontrarás,
leitor,
xícaras sujas
(Marques, 2015, p. 18)
No que diz respeito ao aspecto temático, o “Primeiro Poema” aborda a poesia como algo a parte do cotidiano, do mundo do “dia” em que cabem as coisas rotineiras. Assim, entrar no poema seria como abrir uma porta para um mundo que não o real, como (se deixar) ser transportado a outro lugar que não o comum, fugir. Ao mesmo tempo, ironicamente, o leitor encontra elementos corriqueiros ao fazer a leitura, e o eu-lírico escreve enquanto reflete sobre a dificuldade da escrita, explorando a metalinguagem. Vejamos como a autora procede com o “Segundo Poema”:
Segundo poema
Agora supostamente é mais fácil
o pior já passou; já começamos
basta manter a máquina girando
pregar os olhos do leitor na página
como botões numa camisa ou um peixe
preso ao anzol, arrastando consigo
a embarcação que é este livro
torcendo para que ele não o deixe
para isso só contamos com palavras
estas mesmas que usamos todo dia
como uma mesa um prego uma bacia
escada que depois deitamos fora
aqui elas são tudo o que nos resta
e só com elas contamos agora
(Marques, 2015, p. 19)
O poema acima está estruturado em um soneto decassílabo, contendo dois quartetos e dois tercetos, símbolo de uma literatura clássica considerada rebuscada. Apesar disso, a inspiração se encontra apenas parcialmente no aspecto formal, já que o poema não segue à risca o padrão da métrica característica dos sonetos. É possível identificar alguns esquemas de rimas que variam entre rimas internas, enlaçadas, emparelhadas e cruzadas. Há ainda a presença de alguns versos brancos, que não compõem rimas. Nota-se, assim, o esforço da autora em romper o padrão com o padrão, uma estratégia irônica e bem articulada.
A quebra se estende à expectativa do leitor que, ao reconhecer um esquema de rimas, presume que o mesmo se repita, que haja uma sonoridade contínua, mas é surpreendido pela alternância constante e pela “dessonorização” que marca a literatura moderna. Além de não contar com rimas previsíveis, o leitor se depara com a escassez de pontuação, estes fatores o tornam diretamente responsável pela fluência da leitura do poema, ou seja, pelo ritmo, que se adere ao pensamento e vice-versa. Cria-se, assim, o movimento sonoro do poema.
A poesia coloca-se como uma tentativa de preenchimento da realidade por meio da linguagem. A ambiguidade, presente nas comparações e metáforas, explora a confusão entre os elementos reais e os imaginários, conciliando ainda mais os dois mundos, vivido e literário. Ana Martins Marques utiliza de imagens baseadas em analogias, como em “manter a máquina girando” e em “a embarcação que é este livro”, para criar relações subjetivas entre objetos diferentes.
Logo no primeiro verso de “Primeiro Poema”, o eu-lírico expressa sua preocupação com o processo de escrita que enfrenta: “O primeiro verso é o mais difícil”. Entre o bloqueio criativo e a pressão de despertar o interesse de um possível leitor, são infindas as possibilidades e escolhas de construções frasais. Já o “Segundo Poema” tem um início bem contrastante com o do texto anterior: “Agora supostamente é mais fácil / o pior já passou”. Agora a questão deixou de ser sobre como começar e tornou-se sobre como manter, como assegurar a continuidade, como garantir que o leitor seguirá nas páginas. A poeta reflete, então, sobre o material da poesia.
Ao observar os tercetos, encontra-se um tipo de espelhamento do primeiro verso da terceira estrofe e do terceiro verso da quarta: “para isso só contamos com palavras” e “e só com elas contamos agora”. Está exposta, finalmente, a fragilidade da literatura. Seu material são as palavras. Estas, que são usadas para falar de todas as coisas, das importantes e das banais, das úteis e das inúteis, das simples e das complexas. A substância da poesia é a linguagem e, principalmente neste caso, a linguagem usual do cotidiano, “estas mesmas que usamos todo dia”.
Ao mesclar os aspectos formais clássicos da métrica com o conteúdo moderno e a linguagem simples, a autora aproxima seu leitor da poesia, resgatando elementos com os quais ele está familiarizado, experiências pelas quais ele já passou. Esta concepção aumenta a eficácia poética e a fruição do texto literário, pois permite que o leitor se conecte com o livro, desperte suas memórias e preencha as lacunas deixadas pelo escritor.
A obra de Ana Martins Marques imerge o leitor em seu processo de escrita, reflete a literatura enquanto a constrói, brinca com as relações extralinguísticas que estabelece. As característica presentes em seus textos vão muito além das que foram aqui citadas, têm a capacidade de suscitar discussões variadas e profundas sobre diversos assuntos, de deixar registrada a potencialidade de estudos futuros. Entretanto, pode-se dizer que os pontos destacados já são suficientes para afirmar a relevância da referida autora para a literatura brasileira contemporânea.
REFERÊNCIA
MARQUES, Ana Martins. O livro das semelhanças. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
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Percepção musical dos surdos e sua relação com os sons e a vibração
Por Andreza Vitória Bobsin Batista
Bolsista de Acessibilidade PET-Letras
Letras-Libras
Há muitos de identidades surdas. Um surdo pode tocar pandeiro, bateria, chocalho, tamborim, triângulo e tambores de maneira geral por conta da vibração, que deixa tudo mais perceptível para eles. Um surdo tem a visão e vibração, e, por isso, consegue se concentrar na música e dançar.

Descrição da Imagem: um DJ (Afonso Loss) no centro. Ao fundo, pessoas com instrumentos musicais e camisetas onde se lê “Surdodum”
Fonte: produzido pela autora
Os surdos conseguem desfrutar da música por meio de vibrações, por sons e de forma visual. As pessoas surdas sentem a música de dois jeitos diferentes: por meio de vibração ou por meio da interpretação da Língua Brasileira de Sinais- Libras. Por não conseguir ouvir, sentem a música pela vibração no corpo e também pela visão – por exemplo quando uma pessoa utiliza uma dança se movimentando e o surdo visualiza e copia todos os movimentos, gestos e expressões do artista. Deste modo existe uma ajuda para sentir a música, permitindo aguçar o sentido de percepção e ampliando o espectro de captação.
Os eventos que geralmente são promovidos por associações de surdos, e conta com a presença de surdos e ouvinte, os surdos gostam de dançar. A música faz parte da cultura surda e por sua vez que quando eles se reencontram sentem mais necessidade da vibração da música e da dança. A cultura surda é o modo como o surdo compreende o mundo a fim de modificá-lo tornando mais acessível e habitável de acordo com ajustes das percepções visuais que contribuem nas diferentes identidades e comunidades surdas. (Strobel, 2020, p. 30). Sendo assim, essa identidade envolve a língua, as ideias, as crenças, os costumes e os hábitos para os surdos.
‘’[…] As identidades surdas são construídas dentro das representações possíveis da cultura surda, elas moldam-se de acordo com maior ou menor receptividade cultural assumida pelo sujeito. E dentro dessa receptividade cultural, também surge aquela luta política ou consciência o posicional pela qual o indivíduo representa a si mesmo, se defende da homogeneização, dos aspectos que o tornam corpo menos habitável, da sensação de invalidez, de inclusão entre os deficientes, de menos valia social”. (Perlin, 2014, p. 77-78).
No caso da música, ainda, a maioria dos surdos procuram imitar os passos de dança e tenta adivinhar os ritmos musicais que estão sendo tocados. Eles, também observam os outros dançando ou dançam à sua maneira: “bailes e festas de cultura surda não têm regras de ritmo musical correto e muitas vezes, acontece que quando acaba a música, eles continuam dançando” (Strobel, 2008, p. 64).
REFERÊNCIAS
PERLIN, Gladis. História cultural dos surdos: desafio contemporâneo. Educar em Revista, Curitiba, v. 2, n. 1, p. 17-31, ago. 2014.
STROBEL, Karin. As imagens do outro sobre a cultura surda. Florianópolis: Editora Ufsc, 2020.