-
Os símbolos no cinema: por que vilões bebem leite?
Por Manoela Beatriz dos Santos Raymundo
Graduanda em Letras Inglês – Licenciatura
Bolsista PET-Letras
A simbologia no cinema surge de diferentes maneiras: desde coisas mais conscientes, como referências diretas a outras obras, até aspectos que atiçam o inconsciente do espectador, como, por exemplo, a comida. A comida é um símbolo que pode ser usado de diversas maneiras dentro de uma obra, mas implica, muitas vezes, em dar efeitos de mais vida e profundidade ao entendimento que temos de como o personagem age ou vive. Por exemplo, um personagem que come rápido e sempre com as mãos, como comida de rua e salgadinhos, cria um efeito de pressa, de estresse. Nesse caso, ao não se alimentar “adequadamente” mostra que está constantemente ocupado demais para se preocupar com isso.
Em algumas ocasiões, essa simbologia serve não só como ferramenta para aprofundar a personalidade do personagem, mas também para sentirmos um estranhamento pelas ações do personagem, como por exemplo, no caso do consumo de leite e sua relação com as práticas de exceção. Já parou para pensar o por que de alguns vilões dos filmes bebem leite? O Capitão Pátria, da série The Boys, Alex DeLarge, de Laranja Mecânica, e o Coronel Hans Landa, de Bastardos Inglórios. Os três exemplos geram um sentimento de desconforto no espectador pelo sentido que nós damos ao alimento leite e ao que o associamos quando pensamos na bebida. O leite é nosso primeiro alimento, ligado à maternidade. Porém, quando bebido por adultos, gera um estranhamento quando comparamos a simbologia do leite às ações e feitos dos personagens – como por exemplo a cena de Alex DeLarge e sua gangue no filme Laranja Mecânica.
Na cena, Alex, interpretado por Malcolm McDowell, e seus comparsas bebem um copo de leite em um bar – a Leiteria. O leite, batizado com diversas substâncias, pode ser vendido a pessoas menores de idade por não ser uma bebida alcoólica e, sim, uma “bebida de crianças”, nos mostrando a natureza de Alex e seus companheiros que agem com ultraviolência no decorrer do filme.

Imagem 1: Alex DeLarge, interpretado por Malcolm McDowell, personagem do filme Laranja Mecânica, dirigido por Stanley Kubrick e lançado em 1972. A imagem mostra Alex, no centro da imagem, junto de seus dois comparsas, um em cada lateral, todos bebendo um copo de leite.
Uma sensação parecida pode ser vista na série The Boys, com o super-heroi Capitão Pátria, interpretado por Antony Starr, tendo uma relação perturbadora com a bebida. Durante a série, mostra-se o quão infantil o Capitão Pátria pode ser quando contracenando com Madelyn Stillwell, interpretada por Elisabeth Shue. Capitão Pátria inveja o relacionamento de Stillwell com seu filho recém-nascido, algo que ele, por ter sido criado em laboratório, não teve. Ele sempre aparece encarando a chefe quando ela está amamentando a criança, e, até mesmo, pega uma das garrafas de leite do neném e bebe em algum ponto da série. O sentimento de estranhamento com o Capitão Pátria bebendo leite se torna ainda mais profundo quando vemos que é realmente leite materno, intensificando toda a simbologia atribuída à bebida.
Por outro lado, além das mensagens mencionadas acima acerca da bebida, temos mais uma visão da simbologia que o leite pode nos trazer, simbologia essa que é fortemente apresentada em Bastardos Inglórios. No filme, o Coronel Hans Landa, um coronel do exército nazista, pede um copo de leite durante uma cena de interrogatório logo no início do filme. Existem duas leituras, ambas, de certa maneira, contraditórias e complementares. A primeira é que o leite, bebido por alguém de alto escalão como Hans Landa, passa uma imagem amenizada da autoridade que o Coronel implica, tentando transparecer uma postura menos rígida. A segunda, e mais presente no texto do filme e de outras obras, é a mensagem de falsa superioridade, atrelada diretamente ao nazismo e aos discursos da chamada “supremacia branca” que a bebida sugere.
Imagem 2: Coronel Hans Landa, interpretado por Christoph Waltz, personagem do filme Bastardos Inglórios, dirigido por Quentin Tarantino e lançado em 2009. A imagem mostra Hans Landa sentado em frente a uma mesa de madeira, enquanto outra pessoa, um camponês francês, serve um copo de leite para ele.Outra cena digna de menção tratando desse tema vem do filme Corra, do diretor Jordan Peele, onde a vilã Rose Armitage, interpretada por Allison Williams, é mostrada comendo cereais e leite, porém não de maneira usual. Rose toma o leite separado dos cereais coloridos, mostrando a pureza do leite – novamente, remetendo às práticas racistas, deixando os cereais coloridos em um pote separado, para não se misturarem ao leite.

Imagem 3: Rose Armitage, interpretada por Allison Williams, personagem do filme Corra, dirigido por Jordan Peele e lançado em 2017. A imagem mostra Rose, sentada em uma cama, em frente a um laptop, pegando um copo de leite puro a sua direita. Rose está vestida completamente de branco, cabelo preso em um rabo de cavalo e com fones de ouvido.
Esses exemplos mostram que leite (ou qualquer outra substância, coisa, ação) não é tão inocente e vem sendo usado como símbolo de supremacia e autoridade há um bom tempo. Essas leituras mostram o poder da comida, mas, sobretudo, dos símbolos.
-
PET-IDIOMAS | CURSOS 2024.1
As inscrições do PET-Idiomas (curso gratuito de línguas) para toda a comunidade estão abertas das 14h do dia 05 de março de 2024 às 14h do dia 11 de março de 2024.
Os cursos são os seguintes:
Idioma Turno Dia da Semana
Horário Ministrante Início Término Modo Sala / Link Inglês Nível 1 Noturno Quinta Feira 18h30 – 20h Henrique Onghero 21/03 23/05 Presencial A definir Inglês Nível 2 Vespertino Sexta Feira 16h – 17h30 Eduarda Christina Schuhmann 22/03 31/05 Online A definir Libras Nível 1 Noturno Quinta Feira 20h – 21h30 Gustavo da Silva Flores 21/03 23/05 Online A definir Libras Nível 1 Vespertino Terça Feira 13h30 – 15h Andreza Vitória Bobsin Batista 19/03 21/05 Presencial A definir 1) As inscrições somente serão realizadas por meio do sistema de inscrições da UFSC.
Os links para inscrição são os seguintes:
INGLÊS NÍVEL 1 | http://inscricoes.ufsc.br/inglesbasico
INGLÊS NÍVEL 2 | http://inscricoes.ufsc.br/inglesdois
LIBRAS NÍVEL 1 | http://inscricoes.ufsc.br/libras2024
LIBRAS NÍVEL 2 | http://inscricoes.ufsc.br/libraspresencial
2) Cada candidato poderá se inscrever em SOMENTE UMA TURMA e cada turma terá o máximo de 16 alunos;
3) Os cursos são gratuitos e abertos a todos e todas;
4) Os cursos ocorrerão de forma remota, on-line, através da plataforma WebConf, cujo link será disponibilizado para os alunos no início das aulas;
(Os cursos ocorrerão na modalidade presencial, as informações referentes ao bloco e sala de aula que ocorrerão as aulas serão disponibilizados para os alunos posteriormente.)
5) As vagas serão distribuídas por meio de sorteio e o aluno deverá verificar as listas das turmas que serão disponibilizados neste site no dia 13 de março de 2024 a partir das 18h.
Confira as informações completas do edital AQUI.
NOVO! LISTA DE SELECIONADOS/AS/ES PROS CURSOS DE IDIOMAS!
-
“Como surgiu esse sinal?” – resenha de “Processos morfológicos de formação de itens lexicais em Libras”, de Janine Oliveira e Markus Weininger
https://podcasters.spotify.com/pod/show/pet-letras-ufsc/episodes/Como-surgiu-esse-sinal—resenha-de-Processos-morfolgicos-de-formao-de-itens-lexicais-em-Libras–de-Janine-Oliveira-e-Markus-Weininger-e2hikff
Por Bruno dos Santos Camargo
Letras – Libras
Voluntário PET Letras
Descrição da imagem: Imagem recortada de uma pessoa de camiseta preta fazendo o sinal de LETRAS-LIBRAS com as mãos / Fonte: Jornalismo ACS/UFGD
O artigo Processos morfológicos de formação de itens lexicais em Libras: o caso particular da aglomeração, de Janine Soares de Oliveira e Markus Johannes Weininger, busca destacar os itens lexicais empregados no contexto do curso de Letras-Libras da Universidade Federal de Santa Catarina. Este artigo foi publicado na Revista Sensos, no ano de 2016, volume VI, número 2. Observando que o léxico destacado não se compõe a partir de elementos livres nem de processos de derivação, com uma análise minuciosa, constatou-se a presença de características próprias da aglomeração na estrutura morfológica destes sinais.
A autora, Janine Soares de Oliveira, é professora do Departamento de Libras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutora em Estudos da Tradução pela UFSC, é Mestre em Ensino de Matemática pelo CEFET-RJ e graduada em Matemática pela Universidade Federal Fluminense. Desenvolve pesquisas na área de tradução de textos especializados, organização de corpus e análise linguística de unidades terminológicas em Libras.
Já o autor do artigo é Markus Johannes Weininger, professor do Departamento de Língua e Literatura Estrangeiras e do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da UFSC. É Doutor em Linguística pela UFSC e Mestre em Ciências Políticas pela Ludwigs Maximilian Universität, Alemanha. Dentre as inúmeras áreas de atuação, também pesquisa sobre os aspectos linguísticos, tradução e interpretação de língua de sinais
Segundo os autores, no ano de 2006, com o surgimento do curso de graduação em Letras-Libras da UFSC, uma expansão lexical gigantesca ocorreu à medida que pessoas Surdas passaram a ocupar o meio acadêmico. Conforme conceitos, especialmente linguísticos, iam sendo apresentados na Língua de Sinais, novas propostas de sinais surgiam por todo o país. Contudo, os critérios morfológicos empregados na formação destes sinais não podiam facilmente ser distinguidos, uma vez que trata-se de uma língua jovem e de modalidade gesto-visual, requerendo uma análise mais cuidadosa em cada sinal.
A metodologia do trabalho se deu a partir da análise de 234 vídeos presentes no Glossário Letras-Libras entre os anos 2008 a 2010. O corpus limitou-se aos materiais que não tratassem de nomes de pesquisadores, sinais repetidos ou de polos da Universidade, com isso somaram 100 vídeos úteis para constituição do artigo. Partindo dos descritores de Stokoe, foi realizada a descrição de 31 trilhas utilizando o software ELAN para a análise de cada conceito presente nos vídeos.
Um exemplo apresentado foi o sinal que hoje conhecemos como LETRAS-LIBRAS; os autores passaram a investigar morfologicamente os aspectos formacionais deste item lexical muito utilizado nos dias de hoje. Originalmente, este sinal tinha o aspecto de dois sinais distintos empregados para referir-se ao curso, LETRAS e LIBRAS. Porém, com o passar do tempo e devido ao processo de economia linguística, foram unidos aspectos dos dois sinais e incorporados a um único item lexical.
Foram consideradas as seguintes possibilidades de sinais: itens lexicais formados a partir de outros sinais de duas mãos, itens formados por formas livres com
mudança de algum parâmetro fonológico e itens formados por forma livre ou presa na mão dominante com outras características presentes na mão não-dominante. 53% dos sinais do Glossário Letras-Libras (2008-2010) foram considerados enquanto aglomeração no seu aspecto morfológico.
Não obstante a importância da discussão do texto, uma dificuldade encontrada na leitura se deu a partir da falta de vídeos, ou outras estratégias – como signwriting, que possibilitasse a visualização dos sinais identificados nas glosas. Quando não utilizavam glosas, fotos dos sinais eram empregadas. Entretanto, consistiam em fotos em preto e branco e com baixa qualidade, que dificultavam a percepção do sinal por conta disto.
Trata-se de um artigo interessantíssimo e que traz na prática as aplicações teóricas desenvolvidas por diversos autores ao longo dos Estudos Linguísticos da Libras e marca, em especial, o desenvolvimento das teorias e hipóteses acerca da configuração morfológica da Língua de Sinais, como vistos em Quadros e Karnopp (2004), Brito (2010) e outros autores.
Por esse e vários motivos, o artigo “Processos morfológicos de formação de itens lexicais em Libras:o caso particular da aglomeração” é um material de grande relevância e importante leitura aos estudiosos das línguas de sinais, principalmente aos graduandos do curso de Letras Libras, por elucidar de forma clara e objetiva a origem de signos linguísticos frequentes do meio acadêmico e do próprio sinal que nomeia o curso.
REFERÊNCIAS
BRITO, Lucinda Ferreira. Por uma gramática de línguas de sinais. 2. ed. Rio de Janeiro: TB – Edições Tempo Brasileiro, 2010. 273 p.
OLIVEIRA, Janine Soares de; WEININGER, Markus Johannes. Processos Morfológicos de Formação de itens lexicais em Libras: o caso particular da aglomeração. Revista Sensos, Porto, v. 6, n. 2, p. 99-112, dez. 2016.
QUADROS, Ronice Müller de; KARNOPP, Lodenir Becker. Língua de sinais brasileira: estudos lingüísticos. Porto Alegre: Artmed, 2004.
-
Aprendizagem de línguas adicionais: o aluno como protagonista
Por Ingryd Giovanna Lima Pereira
Letras – Inglês
Bolsista PET Letras
Com o início do semestre letivo, muitos estudantes de graduação em Letras – Línguas Estrangeiras se preparam para as fases iniciais do estágio obrigatório, incluindo aqueles que estão prestes a vivenciar a experiência de lecionar pela primeira vez. Nesse cenário, surge uma reflexão intensa sobre o papel do professor e passamos a nos questionar qual a nossa função como educadores, e como podemos impactar positivamente o nosso ambiente de atuação.
Antes de considerarmos nosso papel como docentes, é válido refletirmos sobre o que é a língua. A língua é instrumento crucial de expressão, comunicação interpessoal e ação. De acordo com Freire (1987), por meio do diálogo e da escuta ativa, aprimoramos nossa compreensão de mundo. Através desse enriquecimento, atingimos consciência social e buscamos ativamente por transformações sociais. Em síntese, a língua é um instrumento de expressão e ação que constrói percepções profundas do mundo e nos torna capazes de contribuir ativamente para mudanças sociais significativas.
Desta maneira, concerne ao professor possibilitar o desenvolvimento da língua como instrumento de transformação social por meio da análise crítica das necessidades (Benesch, 1996). Isso implica em adotar uma abordagem investigativa em relação ao contexto de ensino dos alunos, possibilitando uma intervenção pedagógica alinhada à realidade dos estudantes. Essa análise investigativa, para tornar o ensino significativo, deve ser um processo contínuo, com a compreensão das demandas evoluindo conforme as circunstâncias se modificam. Além disso, esse olhar vai além das necessidades instrumentais, abrangendo também a compreensão do contexto escolar, ou seja, a estrutura organizacional da escola e a realidade dos alunos. É crucial que o professor também esteja ciente do conhecimento prévio dos estudantes, identificando seus pontos fortes e fracos, além de compreender suas expectativas e quais habilidades desejam desenvolver no aprendizado da língua. Essa mediação pode ser realizada por meio de questionários ou conversas com a turma, por exemplo. Dessa forma, busca-se não apenas atender às exigências imediatas, mas promover uma compreensão mais abrangente e contextualizada, contribuindo para um ensino mais efetivo e significativo.
Ao colocarmos o aluno no centro do processo de aprendizagem, reconhecemos que o papel do professor é o de mediador do conhecimento. De acordo com Freire (1996), para que o conhecimento seja significativo na vida do estudante, é preciso que o educando esteja centrado no ensino, o professor não deve apenas transmitir conhecimento, ao invés disso, deve propiciar um ambiente no qual os alunos se envolvam ativamente na construção do conhecimento. Os alunos devem sentir que desempenham um papel ativo no processo de aprendizagem, ao contrário, a aprendizagem se torna um mero exercício mecânico de memorização.
O papel ativo do aluno na aprendizagem visa estimular o pensamento crítico. De acordo com hooks (2010) “pensar é ação”, ou seja, o pensamento crítico é desenvolvido quando o aluno dispõe de espaço provido pelo professor para pensar, interagir, raciocinar, criar e questionar. A autora afirma que “o pensamento crítico é um processo interativo, o qual demanda a participação igualitária por parte do professor e por parte dos alunos” (hooks, 2010, p. 9 tradução minha). Quando há interação em sala de aula, criamos uma comunidade no qual o aluno sente que tem algo valioso a proporcionar para o coletivo, o aluno compreende seu lugar de escuta e após refletir, expõe sua opinião quando sente que tem algo significativo para compartilhar. Através da ação do pensar, sua compreensão social se expande, como afirma a autora “A pulsação do pensamento crítico é o desejo de saber – para entender como a vida funciona. (hooks, 2010, p. 7 tradução minha).
Para criar esse ambiente de envolvimento ativo dos estudantes, é fundamental que nas aulas de línguas adicionais o professor faça a mediação de maneira a tornar as questões compreensíveis, pois, quando o aluno não compreende determinada palavra ou sentença, acaba por gerar um vácuo na comunicação. Long (1996 apud East, 2021 p. 30) destaca a importância do feedback corretivo; faz parte de lecionar trazer o foco do aluno através de perguntas como “você me entendeu?” “você pode repetir o que eu disse?”, tal como incentivar que outro colega que tenha compreendido explique para aquele que não tenha entendido. Esses movimentos geram interação que facilita a compreensão da língua e a torna significativa.
Em resumo, colocar o aluno no centro do ensino significa entender que a criação de materiais didáticos parte do pressuposto de que os alunos terão a oportunidade de raciocinar e interagir. O professor, por sua vez, desempenha um papel na construção do conhecimento como um mediador, não como o detentor exclusivo do conhecimento e centralizar o aluno é torná-lo protagonista de seu próprio processo de aprendizagem. O conhecimento é realmente construído em colaboração com os alunos e, para que seja significativo, é crucial que ambas as partes atuem em conjunto, com o professor exercendo o papel de mediador do conhecimento, capaz de analisar criticamente o contexto e fornecer espaço para a construção de um conhecimento verdadeiramente significativo.
***Texto adaptado de uma atividade produzida na disciplina Estágio Supervisionado II – Inglês, ministrada pela professora Priscila Fabiane Farias, no semestre de 2023.2.
REFERÊNCIAS
BENESCH, S. Needs Analysis and Curriculum Development in EAP: An Example of a Critical Approach. TESOL Quarterly, v. 30, n. 4, p. 723, 1996.
EAST, Martin. Foundational Principles of Task-Based Language Teaching. New York and London: Routledge, 2021.FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz E Terra, 1996.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
hooks, b. Teaching Critical Thinking: Practical Wisdom. New York: Routledge, 2010.
-
GRUPOS DE INTERAÇÃO E ESTUDO | PET-LETRAS | 2024.1 | INSCRIÇÕES ABERTAS
Os grupos de estudo do PET-Letras se iniciarão a partir de 18 de março neste semestre. Confira a lista:
- Nome do grupo: Grupo de Leitura de Graphic Novels em Inglês
Proponente: Manoela Beatriz dos Santos Raymundo (UFSC/DLLE/Letras Inglês)
Descrição do grupo e de seus objetivos: Grupo de discussão de temas tratados em Graphic Novels e Quadrinhos em Inglês. O objetivo é trazer quadrinhos para debate em grupo, e promover conversação em inglês dos participantes.
Os encontros serão: presenciais
Público- alvo: pessoas interessadas no assunto
Nº máximo de participantes: 15
Critério de seleção para os participantes: saber inglês (entre intermediário e avançado)
Data de Início: 21/03/2024
Data de término: 06/06/2024
Carga horária total: 22h
Horário do grupo: toda quinta-feira das 14h às 16h.
Inscrições: http://inscricoes.ufsc.br/graphic
- Nome do grupo: Lírica e Sociedade
Proponentes: André Cechinel (DLLV-Letras-UFSC); Marcelo Lotufo (DLLV-Letras-UFSC)
Descrição do grupo e de seus objetivos: O grupo de estudos “Lírica e sociedade” propõe-se a oferecer aos alunos de Letras-Português da UFSC e demais interessados um espaço presencial de discussão acerca do papel da lírica no século XX e de diferentes concepções a respeito de sua função social.
Os encontros serão: presenciais
Público-alvo: Estudantes de Letras-Português da UFSC e demais interessados.
Nº máximo de participantes: 20
Critério de seleção para os participantes: Critério 1: ser estudante de Letras; Critério 2: ordem de seleção
Data de Início: 05/04/2024
Data de término: 28/06/2024
Horário do grupo: 05/04, 26/04, 24/05, 07/06 e 28/06, das 14h às 16h.
Carga horária total: 10h
Inscrições: http://inscricoes.ufsc.br/lirica
- Nome do grupo: Grupo de Estudos de Fanfiction
Proponente: Júlia Zen Dariva (estudante a nível de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Inglês: Estudos Linguísticos e Literários)
Descrição do grupo e de seus objetivos: Este grupo pretende introduzir os participantes ao estudo de fanfiction através do contato com importantes textos da área. As leituras serão realizadas a fim de nutrir discussões sobre cada um dos tópicos delineados no cronograma acima, com a intenção de que ao fim dos encontros os participantes se sintam munidos do arcabouço teórico e perspectivas críticas necessárias para darem continuidade a suas próprias pesquisas na área. Apesar de ainda pouco popular dentro do ambiente acadêmico brasileiro, o estudo de fanfiction teve início no decorrer da década de 1980 no contexto anglófono e mostra-se cada vez mais relevante, uma vez que um número crescente de leitores e escritores de fanfiction faz-se presente na universidade. Com a percepção de que fanfiction vêm se tornando uma importante prática cultural entre jovens e adultos online, o estudo crítico desse fenômeno permite a integração de atividades criativas com perspectivas teóricas. O principal objetivo do grupo, nesse contexto, é fornecer um contato crítico com fanfiction de forma a abrir portas para futuras pesquisas na área. A atividade do grupo acontecerá ao longo de 16 encontros, cada um com um tópico específico, de 20 de março até 10 de julho, totalizando 23 horas.
Os encontros serão: presenciais
Público-alvo: Livre para todos os interessados no estudo crítico acerca de fanfiction. Em função da maioria da literatura acadêmica da área ser publicada em língua inglesa, necessita-se de familiaridade suficiente com o inglês.
Nº máximo de participantes: 15
Critério de seleção para os participantes: ordem de chegada
Data de Início: 20/03/2024
Data de término: 10/07/2024
Carga horária total: 23h
Horário do grupo: toda quarta-feira das 18h às 20h.
Inscrições: http://inscricoes.ufsc.br/fanfic
- Nome do grupo: Além da Cena: o teatro sob uma perspectiva histórica da Sociolinguística
Proponente: Jonathan Murilo Souza dos Santos (UFSC/DLLV/PPGL-mestrado)
Descrição do grupo e de seus objetivos: Qualquer um que se dedique ao estudo histórico das línguas pode listar uma série de desafios que acompanham este tipo de trabalho. Desde a ausência de falantes nativos até a falta de material de pesquisa, são muitos os percalços pelos quais o linguista deve passar na tarefa de reconstituir estados anteriores da língua. Quando olhamos para um passado distante, como é o caso dos 1800, não se pode contar com registros de áudio para constituir um corpus de pesquisa. Essa tecnologia, embora patenteada nas últimas décadas do século XIX, ainda não havia sido difundida o suficiente para compor uma amostra significativa de uma comunidade de fala. Ao mesmo tempo, o texto escrito não consiste em uma transcrição fiel da fala, de modo que deve-se ter cuidado ao fazer comparações. Ainda assim, é possível fazer avanços produtivos nesse sentido ao adotar gêneros que se aproximam mais do vernáculo, a exemplo das peças de teatro (Barbosa; Berlinck; Marine, 2008). Há estudos sendo realizados, hoje, por pesquisadores brasileiros como Maria Eugênia Duarte Lamoglia (UFRJ) e Marco Antônio Martins (UFSC), tendo peças teatrais como corpus de pesquisa. O objetivo central do Além da Cena é observar e discutir por que e de que maneira o teatro tem sido utilizado em estudos históricos da língua portuguesa, valendo-se, para isso, da leitura de trabalhos já realizados na área, bem como das peças de teatro disponibilizadas no acervo do PHPB.
Os encontros serão: presenciais
Público-alvo: Estudantes de graduação ou pós-graduação em Letras interessados na área da Sociolinguística e da Linguística Histórica.
Nº máximo de participantes: 15
Critério de seleção para os participantes: Ordem de inscrição, preferencialmente alunos dos cursos de Letras com afinidade com Sociolinguística.
Data de Início: 21/03/2024
Data de término: 23/05/2024
Carga horária total: 20h
Horário do grupo: Toda quinta-feira das 8h30min às 10h30min
Inscrições: http://inscricoes.ufsc.br/teatrosocio
- Nome do grupo: Autocuidados de Lindas Divas das Unhas em Libras
Proponentes: Letras Libras Ead Florianópolis Polo
Descrição do grupo e de seus objetivos: apresentar discussões sobre sinais voltados à profissão de nail designer.
Os encontros serão: remotos
Público alvo: Estudantes, mulheres que não tenham conhecimento dos sinais na área da beleza e queiram se profissionalizar para ser nails designer.
Nº máximo de participantes: 10
Data de Início: 20/03/2024
Data de término: 26/06/2024
Carga horária total: 30h
Horário do grupo: Toda quarta-feira das 18h às 20h
Inscrições: http://inscricoes.ufsc.br/naillibras
-
Chamada pra textos | Preguiça 2024.1!
A Preguiça saiu de férias e abriu uma chamada.
Receberemos textos – poesia, conto, quase-artigo, crônica, resenha – até dia 1º de maio.
As normas são aquelas da ABNT, simplezinhas.
Então:
Preguiça, v. 5 n.1, 2024
Submissões até 1º de maio de 2024
Publicação até agosto de 2024
-
DE FÉRIAS COM O PET | Além das facadas e do sangue: uma breve análise do subgênero slasher
Por Daniely de la Vega
Bolsista PET Letras
Letras Português
O subgênero slasher é uma das vertentes mais icônicas e duradouras do cinema de terror. Caracterizado por seus assassinos implacáveis, vítimas jovens e uma dose saudável de violência gráfica, o slasher se tornou um fenômeno cultural desde seus primórdios nas décadas de 1970 e 1980. No entanto, sua influência vai além do simples susto; o slasher frequentemente serve como um espelho distorcido das ansiedades sociais e uma plataforma para explorar temas complexos, como sexualidade, moralidade e identidade.
Tal subgênero tem suas raízes em filmes como Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, e Peeping Tom (1960), de Michael Powell, que estabeleceram algumas das convenções fundamentais dos slasher movies, como a perspectiva do assassino e a ênfase na violência gráfica. No entanto, foi em 1978, com o lançamento de Halloween, de John Carpenter, que o slasher se estabeleceu como um subgênero distinto. O filme apresentou o icônico assassino mascarado Michael Myers, além de popularizar muitos dos tropos que se tornariam padrão desse subgênero, como o grupo de adolescentes sendo perseguido por um assassino implacável.
Ao longo das décadas seguintes, o slasher experimentou várias evoluções e reinvenções, desde os slashers sobrenaturais como A Hora do Pesadelo (1984) até os slashers meta-referenciais como Pânico (1996). No entanto, independentemente das mudanças estilísticas e narrativas, o cerne desse subgênero permaneceu o mesmo: a interação entre o assassino e suas vítimas, muitas vezes jovens e sexualmente ativas.
Imagem: cena do filme Pânico de 1996. O assassino conhecido como Ghostface segura uma faca ensanguentada.
Fonte: Divulgação / Paramount Studios.
Luís (2021) destaca ainda que os slasher movies têm sido reflexos das questões políticas e sociais das épocas em que foram produzidos, desde os anos 70 até os dias atuais. Essas produções cinematográficas, ao invés de serem meros geradores de emoções fortes, frequentemente exploram e refletem as ansiedades reais da população, acompanhando as transformações sociais e políticas que moldam os medos contemporâneos.
Por trás das facadas e do sangue jorrando, o subgênero slasher muitas vezes aborda questões mais profundas e perturbadoras. Um tema recorrente é a punição da sexualidade, com as vítimas frequentemente sendo jovens sexualmente ativas, enquanto aqueles que se abstêm do sexo muitas vezes sobrevivem até o final. Essa moralidade conservadora tem suas raízes na sociedade puritana, onde o sexo fora do casamento era considerado tabu e sujeito à punição.
Além disso, o slasher muitas vezes serve como um reflexo das ansiedades sociais da época de seu lançamento. Por exemplo, filmes como Sexta-Feira 13 (1980) capitalizaram o medo do desconhecido e do isolamento das comunidades rurais, enquanto Halloween explorou os perigos da suburbanização e da perda da inocência.
Apesar de suas raízes conservadoras, o subgênero slasher também viu uma série de filmes que subvertem e desafiam suas convenções. Filmes como A Noite dos Mortos-Vivos (1968), de George A. Romero, e O Massacre da Serra Elétrica (1974), de Tobe Hooper, apresentaram protagonistas femininas fortes e independentes, desafiando a ideia de que as mulheres no cinema de terror são apenas vítimas indefesas.
Além disso, o slasher moderno tem sido frequentemente objeto de análise crítica e desconstrução. Filmes como A Hora do Pesadelo e Pânico brincam com as expectativas do público, utilizando meta-referências e humor autoconsciente para comentar sobre o próprio subgênero e sua relação com a cultura popular.
Os slasher movies são muito mais do que apenas sangue e sustos. Por trás de sua superfície violenta, eles oferecem uma lente através da qual podemos examinar e entender nossos medos mais profundos e nossas ansiedades sociais. Ao longo das décadas, o slasher evoluiu e se reinventou, continuando a assombrar e intrigar os espectadores com sua mistura única de horror, suspense e subtexto social. Embora possa ser fácil descartá-lo como mera carnificina, esse subgênero continua a provar seu valor como uma forma de arte profundamente impactante e reflexiva.
REFERÊNCIAS
LUÍS, Rui Fernando. As muitas máscaras do slasher movie: como os medos da sociedade se refletem na evolução do género. 2021. 85 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Ciências da Comunicação, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2022. Disponível em: https://run.unl.pt/handle/10362/136355. Acesso em: 27 fev. 2024.
-
DE FÉRIAS COM O PET | Você conhece os Sinais internacionais?
Por Andreza Batista
Letras-Libras
Bolsista de Acessibilidade do PET-Letras
-
DE FÉRIAS COM O PET | Odoyá e o dia 2 de fevereiro
Por Tay Muller
Bacharelado em Letras-Libras
Bolsista Acessibilidade PET-Letras
Quanto nome tem a Rainha do Mar? “Dandalunda, Janaína, Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, Maria, Dona YEMANJÁ”. Esse trecho compõe a música Yemanjá – Rainha do Mar, do disco Voz Nagô- Afro samba de Pedro Amorim e Paulo Cezar Pinheiro, de 2017. É interpretada de forma magnífica por Maria Bethânia: cantora, compositora, produtora, atriz e poetisa brasileira. Essa música apresenta algumas das variações dos nomes dados a Iemanjá em diversas regiões do Brasil. Iemanjá é a Orixá das águas salgadas, dos mares, mãe de todos os Orixás, mãe das cabeças tendo como tradução do nome “mãe cujos filhos são peixes”.
Dia 2 de fevereiro é um dia de festa para as religiões de matriz Africana como a Umbanda e o Candomblé: celebra-se o dia de Iemanjá. Essa festa é celebrada na praia, com homenagens e oferendas. Alguns Orixás são mais conhecidos aqui no Brasil, mas existem muitos outros e essa diferença existe pois o culto ao Orixá em África acontece de forma diferente. Alguns Orixás são mais conhecidos no Brasil pois são citados em ritmos musicais populares como no samba e no axé, eternizados nas vozes de cantores muito conhecidos e queridos – estes cantores em sua maioria fazendo parte de terreiros, trazendo para sua música as influências afro-brasileiras. Alguns Orixás são também mais conhecidos pois na época da escravização do povo africano, para conseguir seguir seus rituais, os escravizados utilizaram imagens de santos famosos como São Jorge e Nossa Senhora dos navegantes, para cultuar, respectivamente, Ogum e Iemanjá.
Descrição da imagem: imagem de festa do Terreiro do Asas de Aruanda; é uma vista aérea; tem como primeiro plano areia da praia, com várias pessoas posicionadas em forma oval, em várias filas. Ao centro, pessoas de branco abaixadas e voltadas para um ponto do lado direito, o congá (equivalente a um altar). Na parte de abaixo da imagem, temos 4 barracas de praia.
Fonte: @Rafael_paz
Mas não apenas pessoas participantes dos terreiros vão a estas festas. Como vemos nas imagens deste texto, as pessoas mais ao centro, abaixadas são os médiuns; ao redor, os visitantes. Pessoas de diversas religiões frequentam não apenas as festas, mas também os terreiros e barracões atrás das “macumbas” (nome usado de forma pejorativa), “encantamento”, “feitiços”, “curas” ou “trabalhos” (são diversos os nomes, para o que se faz nesses espaços); utilizam os ritos da cultura Afro e os costumes já enraizados na cultura popular brasileira, mas não falam a ninguém por vergonha ou preconceito e por vezes; muitos nem conhecem o significado destes costumes populares de que fazem uso. Por exemplo: pular 7 ondas no mar, na virada do ano novo, é uma prática para que se faça desejos para o ano que começa. Entretanto, de onde vem as 7 ondas? E os 7 desejos? Dentro de algumas crenças Afro, 7 ondas são a distância para adentrar ao reino de Iemanjá – mas o resto da história foi aumentando a cada conto.
Mais do que religião, os Terreiros e as festas são espaços de cultura, oportunidades de conhecer partes invisibilizadas do povo preto que constituem o imaginário popular dos nossos costumes e nossa língua, ensinamentos orais e perspectivas de mundo diferentes das que estamos habituados. Os Terreiros são espaços de acolhimento de corpos marginalizados e rejeitados pela sociedade espaços de reconstrução de pessoas. E as festas promovidas por esses locais são um momento muito importante para que essa herança de racismo e preconceito religioso se dissolva e possamos encontrar cada vez mais celebrações mais diversas e respeitosas sem que, a cada momento, seja noticiada uma violência contra estes espaços e pessoas.
Descrição da imagem: amplificação da imagem anterior. Vemos a mesma imagem de cima e tudo fica pequeno. Do lado esquerdo temos uma vegetação verde rasteira; abaixo, uma estrada com uma fila de carros com as luzes acesas, pedras em direção a areia da praia; pisando na areia, várias pessoas (em torno de 600) posicionadas em forma oval em várias filas, aumentando o tamanho circular/ oval. Ao centro, pessoas de branco abaixadas e voltadas para um ponto do lado direito, o congá (equivalente a um altar). Na parte de abaixo da imagem, temos 4 barracas de praia.
Fonte: @Rafael_paz
-
DE FÉRIAS COM O PET | Resenha: “A autobiografia da minha mãe”, de Jamaica Kincaid
Por Laiara Serafim
Letras-Português
Bolsista Pet-Letras
Ano novo. Vida nova. Novas metas. Nova lista de leituras.
No De férias com o Pet dessa semana, venho trazer uma indicação de leitura, para você que está precisando dar o “pontapé” inicial nas suas leituras de 2024 ou para você que, assim como eu, já criou uma lista de leitura enorme da qual sabe que não vai dar conta. Eis que aqui vai mais um nome para a sua lista: A autobiografia da minha mãe , de Jamaica Kincaid, publicado em 1996.
A segunda obra de Jamaica Kincaid traduzida no Brasil traz uma narrativa realista, cruel e emocionante de Xuela, transportando as palavras para além das páginas, tornando-as quase palpáveis ao leitor. A habilidade literária de Kincaid conduz o leitor pela vida de Xuela, desde a sua infância até sua casa na velhice, em uma obra sem capítulos ou diálogos. A protagonista da obra perde a mãe no parto e é criada por uma lavadora de roupas da família. A narrativa nos aproxima de Xuela a cada cena, revelando as dificuldades cotidianas que ela enfrenta. Por trás das cenas de sofrimento de toda a sua trajetória, Kincaid expõe um cenário marcado pelo colonialismo. Xuela é filha de uma mãe caribenha e de um pai meio escocês e meio africano, e é moradora da ilha de Dominica, ilha que foi colônia da Inglaterra por anos, até conseguir a sua independência apenas no ano de 1978.
Descrição da imagem: A imagem é a capa do livro “A autobiografia da minha mãe”, de Jamaica Kincaid. O fundo da imagem é bege. No centro há o desenho de uma mulher de pele negra e cabelo preto, vestindo uma blusa amarela. Em torno na imagem está o nome do livro e, abaixo, o nome da autora, ambos em letras da cor laranja.
A realidade de Kincaid parece ter sofrido os mesmos desdobramentos. Segundo o jornal Folha de São Paulo, “só quando chegou aos Estados Unidos, aos 17 anos, Kincaid percebeu que a cor da sua pele poderia ser interpretada como um forte marcador de desigualdade.” E é através do cenário do colonialismo que Kincaid traz os temas centrais de sua obra, identidade e busca por suas raízes.
“Passei a me amar por rebeldia, por desespero, porque não havia mais nada. Esse amor basta, mas apenas basta, não é o melhor; tem gosto de uma coisa que ficou tempo demais na prateleira e estragou, e que revira no estômago quando é comida. Ele basta, ele basta, mas só porque não existe mais nada que ocupe o seu lugar; não é recomendado.” (p. 38).
No romance, a personagem Xuela também enfrenta um grande embate com o racismo. A autora critica constantemente essa realidade, assim como o colonialismo, examinando os conflitos presentes em diversos grupos étnicos e desconstruindo ideias generalizadas sobre a formação das identidades. Outro grande elemento abordado na obra de Kincaid, relacionado à questão de nacionalidade e pertencimento, é a linguagem. Dado que a língua desempenha um papel fundamental na formação da identidade de cada indivíduo, saber a língua do colonizador era extremamente importante para o status social; para participar de uma sociedade colonizada, ainda era necessário que se falasse a língua do colonizador “corretamente”, sem traços da língua nativa.
“Comecei a falar bastante na época — comigo mesma frequentemente, com os outros quando absolutamente necessário. Falávamos em inglês na escola — inglês correto, não patoá — e entre nós o patoá francês, uma língua que não era considerada nada correta, uma língua que uma pessoa da França não sabia falar e teria dificuldade de entender” (p.15).
A autobiografia da minha mãe é um livro que fará você sair da zona de conforto. Um livro forte, belíssimo em seu lirismo e perturbador em seu enredo. A obra é uma boa alavanca para refletir sobre os conceitos de nacionalidade e os impactos do colonialismo, mas também sobre perdas, sobre relações familiares e os estigmas na vida da mulher.
REFERÊNCIA
KINCAID, Jamaica. A autobiografia da minha mãe. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020.




