A linguagem cinematográfica influencia a legendagem?

04/04/2022 18:42

Mirelle Araujo Ehrardt,
Bolsista PET-Letras
Letras Alemão

Na atualidade, após a revolução tecnológica que democratizou o acesso às tecnologias e intensificou os processos de globalização e internacionalização, convivemos diariamente com conteúdos audiovisuais, os quais são, muitas vezes, produzidos em países hegemônicos, política e economicamente, que exportam e difundem entre os demais suas produções culturais e seu modo de pensar e de viver.

No cinema, nas séries, nos filmes, na TV, no YouTube, nos videogames — os conteúdos audiovisuais estão em todos os lugares e alcançam um amplo público, o qual necessita da ação tradutória, seja por meio da dublagem, seja por meio das legendas, para compreender a mensagem transmitida. A tradução audiovisual, nesse sentido, torna-se cada vez mais necessária, além de ser, segundo Jorge Díaz Cintas (2004 apud MARTINEZ, 2007), a mais importante, em termos numéricos, visto que esta atinge um público superior ao de outras formas de tradução.

Fonte: SAP*

Principalmente no que se refere à legendagem interlingual, a tradução audiovisual apresenta peculiaridades e desafios próprios, os quais também a diferenciam das demais formas de tradução. Ao envolver diferentes canais semióticos, apresentando tanto os códigos visuais e os códigos acústicos verbais da obra original somados aos códigos verbais escritos, a legendagem aparece, segundo Henrik Gottlieb (1994 apud MARTINEZ, 2007), como uma forma de tradução diagonal. Nessa forma de tradução, o discurso oral é transmitido para a língua-alvo no formato de um discurso escrito, como em uma diagonal, ao mesmo tempo em que se mantém o texto oral na língua estrangeira, ao contrário do que ocorre em traduções lineares como na interpretação (majoritariamente, texto oral ➝ texto oral) ou na tradução literária (majoritariamente, texto escrito ➝ texto escrito). As diferenças inerentes às duas modalidades textuais tornam-se ainda mais explícitas para o espectador na obra legendada, o qual, ao desconhecer as peculiaridades da legendagem, pode sentir um estranhamento com relação às legendas, principalmente quando compreende o idioma falado.

Fora isso, é função do tradutor legendista considerar, entre outros fatores, a velocidade média de leitura, o tempo de entrada e de permanência da legenda em tela, as limitações de espaço, o número limitado de caracteres por linha, de modo a não causar um esforço cognitivo exagerado do espectador para a leitura das legendas, gerando desconforto. Ao levar isso em consideração, fica clara a impossibilidade de transcrição completa do roteiro original na legendagem, o que impõe a necessidade do tradutor legendista encontrar soluções adequadas, utilizando-se, além da criatividade, de um amplo conhecimento tanto da língua estrangeira, quanto da língua materna, no caso da legendagem intralingual.

O conhecimento teórico e linguístico, nesse sentido, são fundamentais, assim como a competência tradutória, entretanto, outro tipo de conhecimento também é primordial para a profissão do tradutor legendista: a compreensão da linguagem cinematográfica. Tal forma de linguagem, a qual surge com o advento do cinema e se expande para outros meios, como por exemplo jogos, propagandas, entre outros, aparece na transformação artística do mundo visível, da imagem do mundo real, “que resulta de  uma  intenção  de  comunicar  um  significado” (AUMONT, 1995, p. 165 apud SILVA, 2012, p. 221). À vista disso, o filme, como um sistema de imagens, tem em si um objetivo narrativo, ou seja, dependendo da forma de narração escolhida, a organização desse sistema de imagens se configura de uma forma determinada, com o objetivo de transmitir um dado significado.

Como exemplo dessa forma de linguagem visual, podemos citar o close, momento em que o rosto do personagem ocupa quase todo o campo visual da tela, fazendo com que o espectador direcione toda a sua atenção para a parte do corpo humano que mais expressa sentimentos, com a intenção clara de levá-lo ao campo emotivo, fazê-lo entender os sentimentos do personagem. Outro exemplo, são as mudanças de enquadramento em técnicas conhecidas como Plongée e Contra-Plongée: no Plongée, palavra francesa que significa mergulho, em que a imagem, geralmente um personagem, é apresentada ao espectador de cima para baixo, ilustrando sua posição de inferioridade; já no Contra-Plongée, ocorre o inverso, a câmera mostra o objeto de baixo para cima, criando um efeito de superioridade e poder.

Por conseguinte, para que a legendagem consiga transmitir para o espectador a mensagem contida na obra original, o tradutor legendista deve estar atento, não só aos desafios linguísticos que sempre se apresentam na tradução, mas também aos significados transmitidos pelos códigos visuais, artisticamente contidos na linguagem cinematográfica. Assim, é notável a complexidade do trabalho do tradutor legendista, profissão que, assim como a dos demais tradutores, merece mais visibilidade e consideração.

Referências

AUMONT, J. et al. A esttica do filme. Campinas: Papirus, 1995.

DÍAZ CINTAS, J. Subtitling: the long journey to academic acknowledgement. In: The Journal of Specialized Translation, n. 1, p. 50-69, 2004.

GOTTLIEB, H. Subtitling: Diagonal translation. In: Perspectives: studies in translatology, v. 2, Dinamarca: Museum Tusculanum Press, p. 101-121, 1994.

MARTINEZ, S. L. Tradução para legendas: uma proposta para a formação de profissionais. Orientador: Márcia do Amaral Peixoto Martins – 2007. Dissertação (Mestrado em Letras) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.  Disponível em: https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/colecao.php?strSecao=resultado&nrSeq=10689@1. Acesso em: 25 mar. 2022.

SILVA, Odair J. M. Das origens do cinema às teorias da linguagem cinematográfica: um breve panorama sobre os modos de abordagem do texto fílmico. Visualidades, Goiânia, v. 7, n. 2, 2012. DOI: 10.5216/vis.v7i2.18196. Disponível em: https://www.revistas.ufg.br/VISUAL/article/view/18196. Acesso em: 25 mar. 2022.

*Descrição da Imagem: a imagem é uma fotografia, em que se vê uma mulher de costas para a câmera, sentada em frente a um computador. A mulher, que se encontra no canto esquerdo da imagem, usa uma blusa vermelha e um fone de ouvido. É possível ver uma tira na parte de trás de seu pescoço, a qual pertence provavelmente a seu crachá. Ela tem o cabelo castanho claro curto e liso. Não é possível ver seu rosto. Na tela do computador a sua frente, vê-se a cena de um programa em que cinco personagens, duas mulheres e três homens, com roupas coloridas, conversam. Na parte inferior da tela, é possível ver a legenda em inglês da cena, a seguir: “And this twit refuses to give me my coat.”. Ao lado, na imagem, é possível ver um pedaço de outro computador, em que se encontra um programa de legendagem.

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